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ordem alfabética (veja arquivo de M
a Z) Agente 86 (Get
Smart), de Peter Segal (EUA, 2008) por
Eduardo Valente Logo no começo desta versão
cinematográfica e moderna da clássica série de TV, uma cena
deixa clara a relação que o filme optará por estabelecer
com a iconografia (e, por tabela, com todo o resto) de sua predecessora: quando
Maxwell Smart entra no que de fato é o quartel-general da CONTROL, ele
passa por uma espécie de museu onde se podem ver velhos conhecidos da série,
como o terno, o carro esporte ou o sapato-fone. É verdade que no final
estes serão retomados, mas ainda assim não deixa de ser um momento
sintomático da aproximação de Peter Segal e dos roteiristas/produtores:
a série de TV é coisa de museu. Com isso, como poderíamos
esperar, cabe ao filme trazer o personagem e
seu universo para o presente - e por isso entendamos acima de tudo para a platéia
(jovem, inclusive) dos dias de hoje. Então, por um lado tome referências
sócio-políticas à atualidade (principalmente através
da trama em torno do presidente interpretado por James Caan, cheio de referências
a Bush), mas de maneira ainda menos sutil através de um desejo de filmar
as desventuras de Smart não apenas pelo viés cômico, mas também
a partir de uma cartilha do cinema de ação contemporâneo,
seguida à risca por uma lógica do "quanto maior, melhor"
numa série de cenas de ação francamente sem muito nexo (e
não falamos aqui de verossimilhança, mas sim de lógica interna
mesmo), marcadas acima de tudo por uma mise-en-scène sem qualquer
senso de timing ou de clima (um micro-exemplo bastante forte é o
péssimo primeiro encontro com a Agente 99, enquanto ela pratica jogging).
Por conta deste desejo de fazer um filme de ação "à
vera" que complemente a parte cômica, este Agente 86 se revela
uma experiência bastante esquizofrênica e quase nada engajante. Temos
um Steve Carrell no piloto automático (o que, lógico, significará
duas ou três gags fantásticas, mas pouco mais que isso), uma
deliciosa Anne Hathaway bastante perdida em si mesma, um Dwayne "The Rock"
Johnson de enorme carisma pedindo um personagem que faça jus a ele, e um
Terence Stamp absolutamente dispensável. Mas o que temos mesmo, acima de
tudo, é uma típica experiência hollywoodiana moderna segundo
uma competência desprovida de qualquer vida própria, de qualquer
diferencial ou desejo de encanto. Um "filme de resultados", que certamente
atingirá os desejados (leia-se, basicamente, a bilheteria mundial).
Algo
como a Felicidade (Stestí), de Bohdan Slama (República Tcheca/Alemanha,
2005) por Francis Vogner dos Reis Em
uma cidadezinha industrial na República Tcheca, um rapaz que trabalha em uma oficina
rejeita sistematicamente os convites do pai para ir trabalhar na fábrica. Há também
a garota que pretende ir aos Estados Unidos junto do namorado que lá trabalha,
o que sua mãe apóia, porque não quer que filha tenha o mesmo destino que teve.
Esses dois jovens serão obrigados a cuidar dos dois filhos de uma terceira personagem
– autodestrutiva – que entra em colapso, fazendo com que o rapaz aceite o emprego
na fábrica e a garota desista de ir para a América. E o que o diretor Bohdan Slama
faz com isso tudo? Ele, ao encenar dramas de jovens nascidos e crescidos na reta
final do leste europeu
comunista e a articulação deles com suas famílias, visa fazer de suas imagens
não um diagnóstico, mas, um modo de compreender a postura deles perante um mundo
que só lhes deixou ruínas e sucata. Assim, em uma dramaturgia feita, sobretudo
de intimidades, a câmera se vincula à pulsação dos corpos desses personagens,
como que para embarcar de modo mais “incisivo” na vida deles. Só que tudo tem
o efeito inverso do que o diretor parece propor. A câmera busca um fluxo de imagens
mais livre, mas faz desse processo algo pesado; uma narrativa mais solta, que
se revela bem burocrática, propõe personagens complexos, mas restringe-os a uma
psicologia esquemática. O diretor asfixia e oprime os personagens nesse esquema
que transforma qualquer tentativa de aproximação mais crua e direta em mera complacência.
Toda essa dinâmica cênica e dramática contemporânea se revela, nesse caso especificamente,
como um novo tipo de academicismo, pois submete todo seu processo a um controle
pesado que não respira nem por meio de seus defeitos. Algo como a Felicidade
é refém de seu dispositivo.
Amigo
é pra Essas Coisas (Zim et Co.), de Pierre Jolivet (França,
2005) por Eduardo Valente Tudo
parece estar no lugar certo, em Amigo é pra Essas Coisas: a comédia
de tipos se misturando à perfeição com as preocupações
étnico-sociais para se falar da França de hoje; as pitadas de realismo
intensificadas pela câmera sempre na mão interagindo com a música
que parece perfeitamente integrada ao ambiente de seus protagonistas; os limites
entre manter os olhos numa ética pessoal firme e os desafios da realidade
que pedem constantemente que se quebrem as regras de conduta social. O filme de
Pierre Jolivet parece fluir deliciosamente pela tela, com atores absolutamente
engajantes, diálogos bem escritos e rápidos, familiaridade com o
ambiente filmado. No entanto, um incômodo se estabelece pouco a pouco lá
no estômago do espectador mais atento, só tomando real forma quando
o casal interracial de jovens prepara-se para a primeira noite juntos, e (no que
parece ser uma piada) ela pergunta se ele tem uma camisinha - apenas para descobrir
que os dois possuem preservativos. Ali, o filme nos dá a imagem precisa
do que nos parecia um tanto errado: aquela realidade tão "no lugar
certo" parece mesmo estar com pelo menos duas camisinhas de distância
de qualquer verdadeira contaminação deste disfarçado projeto
de sitcom cinematográfica. E nada contra as sitcoms, diga-se - mas
sim contra o fato delas se disfarçarem. Ao fim e ao cabo, Amigo é
pra Essas Coisas é isso: uma bela opção para a diversão
"socialmente consciente" do fim de semana. Mas, quando tenta se portar
como se fosse algo além disso, perde pontos pelo excesso de proteção
quase ingênuo com que parece tratar seus personagens - nunca menos que heróicos
mesmo em seus erros, sempre plenamente compreensíveis. Talvez o que quiséssemos
fossem alguns erros menos facilmente compreensíveis - como aqueles que
cometemos todos os dias. Assombração
(Re-Cycle), de Danny Pang e Oxide Pang (Hong Kong/Tailândia, 2006)
por Leonardo Mecchi Assombração,
novo filme dos irmãos Pang, é um engodo. A começar por sua tentativa de se vender
como um exemplar do terror asiático, gênero em voga atualmente, responsável (com
Visões) pelo sucesso dos diretores. Embora comece na mesma chave de filmes
do gênero já conhecidos pelo público (O Grito ou O Chamado), Assombração
logo envereda para a fantasia, registro ideal para que os diretores possam exercer
livremente sua inegável criatividade visual. Nada errado, a priori – para
além da má-fé em se vender gato por lebre –, não fosse o fato de que, por baixo
desse vistoso verniz visual, de cenários mirabolantes e efeitos especiais aos
borbotões, repousa uma sucessão de clichês e equívocos que levam o filme a se
tornar (involuntariamente) uma paródia dos maus hábitos cinematográficos: o uso
incessante de flashbacks para relembrar o espectador sobre o porquê da
protagonista tomar determinada decisão (num didatismo de deixar Sérgio Rezende
no chinelo), uma trilha sonora abusiva e rasgada em todos os momentos românticos
ou de suspense, e finalmente um moralismo sem precedentes – com direito a diversas
cenas do tipo “no episódio de hoje, aprendemos que...”. Pensando bem, talvez os
irmãos Pang tenham, afinal, conseguido seu objetivo: realizar um dos filmes mais
assustadores do ano. Atirador (Shooter),
de Antoine Fuqua (EUA, 2007) por Eduardo Valente
Difícil evitar a sensação de “já vi este filme antes” quando
assistimos este Atirador: trata-se de uma óbvia reciclagem do mito do herói
americano injustiçado por seu próprio país que dá a volta por cima se vingando
dele, do qual o mais recente e bem sucedido exemplo é o primeiro Rambo.
Antoine Fuqua tenta capitalizar um discurso politicamente mais forte e direcionado
(as menções ao Iraque abundam – e mesmo a questão etíope está plenamente up-to-date
com o noticiário internacional), mas parece bastante inconsciente das incongruências
de um discurso que quer desmistificar um ideal de país (representado pelos poderes
estabelecidos – políticos
e agências de espionagem) através da reiteração de outro (o do justiceiro puro
e de grandes ideais); e que deseja crucificar uma violência desenfreada enquanto
nos oferta um espetáculo de considerável sadismo, e principalmente de idealização
do “super-soldado” criado pelo mesmo exército americano tão questionado. Se há
de fato alguns bons momentos, quando o filme parece quase incorporar uma certa
auto-ironia (a visita ao especialista em armas sendo a mais curiosa), há outros
francamente constrangedores (como tudo que diz respeito à personagem do interesse
romântico do protagonista ou o ogro-engravatado interpretado por Elias Koteas).
Ao fim e ao cabo o que ficam são alguns bons momentos de ação em meio a uma narrativa
com arroubos demais de uma frágil “importância política”.
Ato
de Liberdade, Um; (Defiance), de Edward Zwick (EUA, 2008) por
Julio Bezerra Baseado no livro homônimo
de Nechama Tec, Um Ato de Liberdade conta a história de um grupo de judeus
liderado por Tuvia Bielski (Daniel Craig), que consegue sobreviver na floresta
durante a ocupação nazista da Polônia – eles ainda operaram como aliado do exército
soviético, consertando armas e costurando roupas. Dirigido por Edward Zwick (Diamantes
de Sangue e O Último Samurai), o filme é explícito em sua estratégia:
logo no início, imagens documentais em preto e branco nos mostram nazistas
assassinando pessoas desarmadas; a seqüência se dissolve na seguinte, em um longo
fade, para os atores de Zwick (famosos, e em cores). Ou seja: o que veremos é
ficção, embora colada aos fatos. É preciso dizer, no entanto, que nem uma nem
a outra dimensão se desenvolvem a contento – nem a reconstrução da conjuntura
histórica, nem a ação dramática propriamente dita. Os nazistas não ganham rosto
e o filme centra suas atenções à vida quotidiana da comunidade na floresta. O
roteiro de Clayton Frohman e Zwick recorre ao quadro talvez obsoleto de convenções
hollywoodianas. Os amores melodramáticos, os diálogos espertos entre supostos
intelectuais e até mesmo a relação conflituosa entre os irmãos parecem completamente
impróprias para o cenário e as circunstâncias narradas. Não há dúvidas: este material
foi escrito por americanos contemporâneos de um determinado contexto social e
perspectivas, não esquecendo as mensagens humanistas de sempre. Zwick ainda persegue
um certo elemento poético (com a melodiosa trilha de James Newton Howard e a suave
fotografia de tons azulados de Eduardo Serra), e um determinado impacto na parcela
aventuresca do filme jamais alcançados. Zwick faz um cinema de pretensões heróicas
e épicas, veículos para estrelas, mas é um historiador amador um tanto oportunista.
Beijo
a Mais, Um (The Last Kiss), de Tony Goldwyn (EUA, 2007) por
Eduardo Valente Qual o sentido de uma refilmagem?
Claro que os mais céticos podem simplesmente gritar “lucro, oras!” ou sussurrar
“a falta de uma idéia original boa”. No entanto, só para ficarmos em exemplos
recentes de dentro da grande indústria, um Planeta dos Macacos, de Tim
Burton; ou um As Loucuras de Dick e Jane, de Dean Parisot, nos fazem ver
que, com um mínimo de interesse da parte do realizador, “refazer” pode ser também
parte integral de uma obra maior ou uma maneira de se reaproximar de um material
com um olhar inevitavelmente distinto, atualizado. Claro que numa chave bem mais
radical, podemos pensar no Psicose, de Gus Van Sant: exemplo absolutamente
desestruturante de aproximação com uma obra clássica onde toda a diferença se
dá, justamente, pelo desejo de emular, de copiar. Nada disso, porém, parece ter
se tornado questão na cabeça de Tony Goldwyn ao realizar este Um Beijo a Mais,
refilmagem do italiano O Último Beijo, filme tão gracioso quanto mais ingênuo
(e cujo diretor, Gabriele Muccino, também foi importado pela indústria americana
– com muito mais sucesso que o seu filme, diga-se). Pois
o que faz Goldwyn aqui? Praticamente um exercício vansantiano de cópia,
só que aqui involuntário e sem qualquer propósito realmente “artístico”. Mais
do que exatamente um filme ruim (o que o roteiro original torna difícil se fazer),
o que temos é o equivalente a uma copiagem de fita de vídeo ou uma xerox com pouca
tinta: reproduzimos um mesmo material, mas perdemos uma “geração” ou temos uma
pálida cópia do original. Tudo que era graça e frescor em Muccino parece aqui
forçado, estudado. Do elenco original, marcado principalmente pelo cativante Stefano
Accorsi e pela estonteante Martina Stella – que justificaria qualquer pecado –,
passamos para um Zach Braff absolutamente desinteressante e uma Rachel Bilson
graciosa, mas tristemente comum. Como o último plano (ou melhor, a ausência do
plano que encerra o filme italiano) comprova, o que se faz aqui é apenas uma tradução
menos complicada de um filme que já era, em si mesmo, conscientemente “pós-adolescente”.
Assim, só nos sobra ao final da projeção a pergunta lá do começo: qual o sentido
em fazê-lo, afinal?
Bom Ano, Um (A
Good Year), de Ridley Scott (EUA, 2006) por Paulo
Santos Lima Um Bom Ano é
uma comédia romântica cujo mote é a guinada de um canalha materialista (Russell
Crowe) que herda a fazenda do tio-avô. Sem a menor nuance (o executivo sacana,
a bela e bondosa mocinha do campo), o filme trabalha apenas na superfície da máscara,
buscando algo próximo da suposta fonte de inspiração do cineasta, as screwball
comedies de Howard Hawks. Só que, nestas, cada personagem carregava múltiplas
personas, abrigando num mesmo corpo paixão e crueldade, por exemplo. Obras como
Levada da Breca eram soberbos trabalhos de decupagem, valsa entre os planos
e dentro deles. Já o cinema de Ridley Scott é blocado, pouco feliz na comunicação
entre tempo de enquadramento e montagem entre planos e seqüências. Posado como
uma 3x4 aberta a retoques no photoshop, mostra uma galeria de objetos-fetiche
do sonho consumidor burguês espalhados pelos enquadramentos iluminados com aquela
típica luz de seu cinema: luz
de quando abrimos a geladeira com a cozinha escura - só que adaptada à região
da Provence francesa, ou seja, mais solar, vertida em tons dourados e banhando
mais democraticamente os espaços. Com tanto lamê na imagem, claro que não é preocupação
da câmera se sujar junto às coisas. Ela, mesmo quando colada no casal romântico,
parece fora da cena. Uma câmera que estaria melhor assistindo, incrédula, ao (belo,
confesso) exibicionismo cenográfico do plano inicial de Blade Runner. Porque
o projeto estético de Ridley Scott aparenta, sem ser, de autoria de um único fotógrafo:
uma estética ultra-artificialista, com cones de luz fazendo geometrias kitsch,
que não vê tanto o movimento e mais atende à disposição de elementos na cena –
ou seja, privilegia a forma dos seres e dos espaços, um quase empate entre cinema
e publicidade, com o primeiro fazendo 2 a 1 sobre o outro. Se o seu irmão, Tony
Scott, leva esse projeto ao vazio absoluto, com imagens em cadência extrema (e,
por esse motivo, uma obra que me é mais interessante de análise), Ridley ainda
faz algo ligado à tradição do cinema. E entra numa armadilha, porque nele não
há seres, mas sim elementos formais no plano. Que fique claro, não como Michelangelo
Antonioni fazia, pois com o velho Ridley não existe e tampouco está em questão
a relação entre seres e espaço ou sobre o que se é nesse mundo. Bom
Pastor, O (The Good Shepherd), de Robert DeNiro (EUA, 2006) por
Eduardo Valente Há um difícil paradoxo a ser enfrentado
por Robert DeNiro neste seu segundo longa como diretor: para que seu filme realmente
faça sentido, é importante que o personagem de Matt Damon escape do nosso entendimento
completo, uma vez que ele é figura central numa trama de constantes trocas de
identidade. Por outro lado, o filme se centra de tal maneira no personagem dele
que, a partir do momento em que nos é negada a empatia com ele, esta “coerência
interna” torna o filme absolutamente frio e distanciado do nosso olhar. Com
isso, suas duas horas e vinte (certamente excessivas) passam dolorosamente pela
tela como um enorme jogo de “gato-e-rato” que é menos dos personagens entre si,
do que entre nós e o andamento da narrativa. Se é fato de que o filme não idealiza
em nenhum momento o trabalho da CIA (envolvida em atos horrendos de tortura e
marcada pela supressão e desprezo pela vida pessoal de todos à sua volta), também
é verdade que há um certo excesso romântico no retrato da “vida do espião”. No
meio disso tudo, passeia pela tela uma esfinge encarnada por Matt Damon, cujas
reais motivações nunca serão claras para nós. Pior do que isso, no entanto, é
a dificuldade de comprarmos a passagem de 20 anos na vida deste personagem – tanto
no sentido físico do trabalho do ator neste envelhecimento, quanto principalmente
na completa inadequação dele ao papel central que ocupa nos escritórios da CIA.
Entre momentos de admiração e outros de desinteresse completo, O Bom Pastor
se mantém sempre a milhas de distância de seu espectador.
Buenos
Aires 100km (Buenos Aires 100km), de Pablo José Meza (Argentina, 2004)
por Felipe Bragança Para
um filme sobre o despertar da adolescência, Buenos Aires 100 km sofre uma
séria tendência para o bom comportamento. Reunindo clichês, seqüências afetivas
reiteradas no cinema juvenil e uma encenação realista bem amarrada, o filme não
deixa de alcançar a graça melancólica que parece pretender, ainda que sem entusiasmo.
Articulado diretamente à linhagem pós-melodramática que vem marcando boa parte
da produção argentina atual, Buenos Aires 100km tem como principal trunfo
a firmeza de artesanato, a sutileza de linguagem e a coerência dramatúrgica que
fazem de seu desenrolar na tela um objeto enxuto. A
graça possível dessa pequena crônica juvenil aparece, portanto, não tanto por
seu apelo ao novo, à inquietação, à descoberta, mas por sua firmeza de construção
de um pouco mais do mesmo. Essa melancolia programática, porém, e as resoluções
mais que esperadas de roteiro, deixam abertas uma questão e um porvir: a juventude
construída como nostalgia e impotência é a fórmula por excelência a que teremos
que recorrer? A inquietação perdeu todo o território para a crônica contemplativa?
Contemplação é sinônimo de letargia? Buenos Aires 100 km pratica com tanta
calma a cartilha do bom-cinema-de-arte-do-estado-dormente, que desperdiça grande
parte da carga afetiva que insinua. Que cinema se iniciará após o plano final
no campo de futebol vazio? Que filmes se insinuam quando a observação melancólica
se esgota em sua bem comportada expressão? Cashback
(idem), de Sean Ellis (Inglaterra, 2007) por
Ronaldo Passarinho O
protagonista de Cashback é um aspirante a artista plástico que consegue
congelar o tempo para melhor observar o mundo a seu redor. Principalmente as mulheres,
a forma feminina. O tempo realmente pára e o artista pode, a seu bel prazer, mudar
objetos e pessoas de lugar. Depois basta um estalo de dedos para que o tempo volte
a fluir. Não, Cashback não é um filme de ficção-científica. O protagonista
não quer salvar o mundo como o japonês de Heroes. Seu “superpoder” pode
até ser visto apenas como uma metáfora, ainda que seja real o suficiente para
gerar momentos de comédia pastelão. Sean Ellis, diretor e roteirista do filme,
busca um efeito mais lírico do que fantástico. Tão lírico quanto a imagem final,
com flocos de neve parados no ar ao redor de um casal. “Estou farto do lirismo
comedido / Do lirismo bem comportado / Do lirismo funcionário público com livro
de ponto expediente / protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor”, escreveu
Manuel Bandeira. O lirismo de Cashback não agradaria a Bandeira. É lirismo funcionário
público, protocolar. O que sobra é uma comédia romântica episódica – até simpática,
mas sem foco, falada demais para um filme que se pretende interessado no poder
da imagem, com uma narração em off na maioria vezes redundante. É filme para se
ver domingo à tarde, na TV a cabo; quem sabe até, de olhos fechados.
Conduta
de Risco (Michael Clayton) de Tony Gilroy (EUA, 2007) por
Eduardo Valente Em
determinado momento de Conduta de Risco, o personagem interpretado por
Sidney Pollack (um dos sócios de um grande escritório de advocacia) vira-se para
seu empregado (o personagem-título no original em inglês, interpretado por George
Clooney), que se vê frente a uma “crise de valores” e diz: “when did you get so
fucking delicate?” (“quando você se tornou tão delicadinho?”). A frase é um resumo
de tudo que há de errado com Conduta de Risco: o problema principal de
mais este filme-denúncia sobre o estado imoral das negociatas no mundo das grandes
corporações versus o cidadão comum é justamente que precisamos acreditar no processo
porque passa Michael Clayton ao longo do filme, só que nunca conseguimos atingir
este sentimento. Seja porque George Clooney interpreta o personagem numa mistura
de charme e sonambulismo que nunca nos soa desagradável (e que nos faz pensar
“when were you not so fucking delicate?”), seja porque o fato do sócio do escritório
entrar num surto psicótico a partir de um memorando que, francamente, sempre nos
parece pouco mais do que óbvio. Claro, o filme tenta construir nuances aqui e
ali (o sócio pirado teria ficado sem tomar remédios, o personagem de Clooney diz
que é o tipo de cara que “se compra”, a personagem mefistofélica de Tilda Swinton
sua debaixo do braço), mas as nuances são tão friamente estudadas que não podemos
evitar que Conduta de Risco soe, do primeiro ao último plano (literalmente)
uma obra tão certa de tudo que tem a dizer sobre um determinado tema que nunca
consegue nos mover da nossa cadeira – o que aparentemente era boa parte de suas
intenções. Talvez se fosse um curta-metragem, composto apenas pelos seus belos
primeiros planos, do escritório vazio, o filme resultasse mais contundente
a partir de uma mesma sensação.
Corte,
O (Le Couperet), de Costa-Gavras (França, 2005) por
Felipe Bragança O Corte
flerta com o cinema policial, com o suspense, com o drama social, sem dialogar
com nenhuma dessas referências – apenas sugando delas o que lhe interessa como
muletas de linguagem para discorrer sua tese extra-imagem, extra-cinema. A proposta
do filme é a de um jogo pedagógico, de cinismo cômico, cujo foco é um avanço de
deboche cítrico contra uma lógica empresarial que o filme mapeia como praga social
consensual. A violência naturalizada pela psicopatia do protagonista se acumula
na tela de forma reiterativa, levando personagens e elementos de narração apenas
a cumprir funções dentro de uma engrenagem de cartas marcadas. A estrutura dramatúrgica
engessada e a levada blasé da montagem do filme não seriam um problema
a priori se não chegassem ao limite de esvaziar as imagens que o compõe.
Não parece haver qualquer sentido de presença física, de imagem orgânica no filme
– o que fica claro na decupagem, que muitas vezes se resolve em truques de choque
levados como pastiches. Só
há, de fato, alguma vida, alguma graça na imagem quando o filme deriva para a
sub-trama do filho que rouba programas de computador – mas mesmo essas passagens
mais cadenciadas, encarnadas, parecem estar ali para abrir espaço para a emergência
final do enunciado que dita o filme como um manual sem desvios de “como usar”.
O desfecho, que indica uma intriga de continuidade, não traz qualquer charme especial
ou surpresa ao filme, a não ser o de um didatismo sem saída. Pode dar prazer a
quem se identifique com o cotidiano empresarial vivido pelo personagem, para quem
se vê espelhado nas relações empregatícias robotizadas – mas me parece uma função
menor do cinema dar espelhos masoquistas para uma cultura sem encantamento visual.
Se o cinema político como desenhado por Costa-Gavras nunca me encantou especialmente,
há em seus melhores filmes um sentido de documento, de testemunho memorialista
e positivamente ideológico da história, que aqui perde espaço para um pobre teatrinho
anti-capitalista. Sinal de um cinema que não consegue mais afirmar seu espaço,
sua dinâmica comportamental e ideológica? Parece restar ao filme esse “ser do
contra” ingênuo e generalizado, que Costa-Gavras indica achar que se basta, hoje.
C.R.A.Z.Y.
– Loucos de Amor (C.R.A.Z.Y.), de Jean-Marc Vallée (Canadá, 2005)
por Eduardo Valente Depois
de uma primeira sequência que parece indicar uma certa tendência ao humor “esperto”
e modernoso, C.R.A.Z.Y. conquista o espectador com um inesperado ritmo
mais ralentado e um cuidadoso trabalho com a relação entre os personagens, tanto
através de um trabalho de atores muito destacado, quanto pela delicadeza na composição
de cada personagem (onde o filme faz uma feliz opção por desenvolver mais alguns
deles – especialmente o pai – e deixar outros mais como tipos – o irmão atleta,
o irmão intelecual, etc). Sua atenção aos detalhes (o jogo dos olhares entre os
atores, a reconstituição de época absolutamente discreta e pouco auto-centrada)
diferencia o filme e dá frescor a uma estrutura já mais do que conhecida – a do
filme de conflito de gerações. Infelizmente, da metade para o final os tons melodramáticos
começam a ganhar peso excessivo no filme, que com isso perde um pouco da leveza
que o faz quase flutuar na primeira hora. E, pior ainda, quando o protagonista
se exila em Jerusalém, o filme perde de vez o norte – uma vez que o que dava real
força ao filme era as relações familiares, com o isolamento do personagem e sua
individualização de conflitos, ele se revela bem menos interesse do que como parte
de um grupo. Se com isso o filme perde um pouco do seu encanto, nem assim pode
ser considerado desinteressante.
Crônicas
de Nárnia - Príncipe Caspian, As; (The Chronicles of Narnia:
Prince Caspian), de
Andrew Adamson (EUA, 2008) por Eduardo Valente
Existe uma curiosa distância entre os recentes fenômenos
de bilheteria infanto-juvenis norte-americanos e os livros (ou melhor as séries
de livros, uma sacada de resto incrivelmente lucrativa) que os inspiram. Sim,
porque da literatura dos Harry Potter, dos Senhor dos Anéis e deste Nárnia,
tem sido retirada algo que, na maioria das vezes (e certamente nos dois capítulos
vistos até agora desta série aqui), ao invés de remeter às
fantasias que seus originais aspiram, se aproximam muito mais de uma realização
quase documental. O termo é forte, sim, mas não despropositado:
fato é que a tecnologia dos efeitos de computação gráfica
têm levado o desejo de verossimilhança no fantástico cinematográfico
a um tal paroxismo que o que temos visto cada vez mais é uma aposta em
recriar um "mundo fantástico", com
suas paisagens, seres míticos e narrativas, da maneira mais fidedigna possível
a uma idéia de realidade. Com isso, perde-se de vista toda e qualquer fabulação
possível, e o exercício de assistir a filmes como este segundo Nárnia
se resume ao espetáculo de maravilhar-se com as proezas cinematografico-realistas
dos realizadores. Se esta redução drástica dos poderes encantatórios
da ficção cinematográfica fantástica já soava
desinteressante há alguns anos, agora consegue nos fazer sentir um precoce
dejà vu, onde ajuda muito pouco que este segundo episódio
de Nárnia tenha tantas cenas em comum com o que vimos há
pouquíssimo tempo na série do Senhor dos Anéis: a
batalha na fortaleza de pedra num espaço sem saída, a montagem paralela
com a solução que virá em cima da hora, até mesmo
a revolta das árvores. Talvez a principal diferença seja esta imagem
um tanto perturbadora de meninos empunhando suas ferramentas de matar (que, claro,
nunca derramam sangue dos inimigos - afinal não podemos perder a censura
livre, mesmo com toda a carnificina na tela), algo que pode soar heróico
num livro mas que tornado imagem tão desejadamente "realista"
certamente tem algo de soturnamente semelhante a episódios menos felizes
da história humana (imagens de nazistas ou de guerrilhas vêm à
mente). Se somamos isso ao subtexto claramente cristão do livro, onde o
"deus-leão" nos remete à ironia e crueldade do Deus do
Velho Testamento, este Crônicas de Nárnia 2 adquire um tom
perturbador que, entretido com o que pensa ser sua ode ao heroísmo clean,
aparentemente passa desapercebido do diretor Adamson.
Diário
de uma Babá, O (The Nanny Diaries) de Shari Springer Berman
e Robert Pulcini (EUA, 2007) por Fábio
Andrade O Diário de uma Babá é
o novo filme de Shari Springer Berman e Robert Pulcini, dupla bastante celebrada
por Anti-Herói Americano, de 2003. Se muitos viam na mistura de documentário
e ficção do filme de 2003 um bom caminho para o cinema independente americano,
não deixa de ser surpreendente que o longa seguinte da dupla viesse a ser uma
típica produção de verão dos grandes estúdios norte-americanos. O Diário de
uma Babá é herdeiro dos filmes-família que inundavam nossas férias na década
de 1990, e que aos poucos vêm perdendo espaço para as franquias à Harry Potter
e a linha de montagem dos longas de animação que dominam as salas multiplex nessa
época do ano. De fato, a dupla de diretores tenta arejar um gênero já bastante
datado com uma construção visual mais inventiva. Em
alguns casos, a inquietação formal funciona (as seqüências no museu), e em outros
chega a ser de gratuidade francamente constrangedora (o flashback tencionado
pela montagem quando Annie, a personagem de Scarlett Johansson, vai embora da
casa de praia da família para quem trabalha). Apesar de bons momentos de Johansson
e, em especial, de Laura Linney, O Diário de uma Babá não evita o cacoete
recente que condena tantos filmes ao desinteresse: ao se propor como investigação
de uma elite disfuncional norte-americana (Annie é uma estudante de antropologia,
ora pois), o faz sempre com extrema ingenuidade, sem se preocupar em re-trabalhar
os clichês que traz para a tela, sem se interessar em pensar o outro. Se essa
visão de mundo não convencia em Pequena Miss Sunshine ou em O Diabo
Veste Prada, não é O Diário de uma Babá que vem afirmar-se como exceção.
Não deixa de ser curioso, porém, que na migração do cenário independente para
os grandes estúdios a dupla de Anti-Herói Americano tenha trazido consigo
o maior problema do filme de 2003: uma condescendência tão estrita às escolhas
de seus protagonistas que empurra qualquer contraste possível para a indignidade.
Ao menos dessa vez a babá percebe que o gatão de Harvard pode até ser um cara
bacana. Já é um avanço. Dreamgirls
- Em Busca de um Sonho (Dreamgirls), de Bill Condon (EUA, 2006)
por Eduardo Valente Sobre
Dreamgirls talvez bastasse dizer que trata-se de um musical, com uma quase
onipresença da trilha sonora, em que a música é tão ruim quanto a filmagem dos
números musicais (cuja incapacidade de criar ambientes pela rapidez de cortes
sem nexo no começo “vibrante” é somente trocada posteriormente pela dinâmica da
“montagem paralela que nos revela algo” antes de todo número musical terminar
em constrangedor – porque saída fácil das cenas, e nada mais – fade out).
Mas, mesmo sendo este um “textículo”, convém ir um pouco além das frases bombásticas
– por mais fiel ao filme que estas sejam. Convém mergulhar, por exemplo, na realidade
de um filme de mais de duas horas em que nunca nos interessamos pelos seus dois
protagonistas (Jamie Foxx – constrangedor em suas constantes olhadas para o lado
em que “descobre algo” sobre os outros personagens; e Beyoncé – nunca qualquer
coisa mais do que uma poster girl, o que até pode ser condizente com sua
personagem, mas não cria qualquer empatia ou questão dramática que justifique
seu protagonismo).
Trata-se, portanto, de um filme totalmente entregue aos coadjuvantes,
onde (como bem notou o amigo Filipe Furtado) Eddie Murphy precisa fazer pouco
mais do que repetir uma de suas antigas esquetes do Saturday Night Live (uma imitação
de James Brown) para parecer estar em outra dimensão de interesse cinematográfico.
Já Jennifer Hudson, a outra laureada coadjuvante do filme, apenas se aproveita
de ter em mãos o único papel que parece realmente ter sido escrito por algum roteirista
– mas não chega a fazer muito com ele. De resto, o filme tem a leveza de um elefante
branco ao tentar fazer do nascimento da Motown e de um determinado império do
som negro o seu verdadeiro tema – passando por cima dos personagens com o rolo
compressor da História. Por trás de sua narrativa, o mesmo dilema que já estava
presente em À Procura da Felicidade: como fazer um filme que se coloca
contra a dureza de um sistema, quando tudo que seus personagens querem (e, finalmente,
conseguem – num suposto happy end) é serem bem sucedidos dentro dele? Pelo
menos, dentro da incoerência moral, o filme de Gabriele Muccino alcança
inúmeros sucessos como cinema (seja pelas graças de seus atores, seja pela construção
de um universo poucas vezes visto da vida na middle america). Já Dreamgirls
tem o poder de uma daquelas obras-primas tardias que nos faz querer olhar de novo
toda uma carreira não-reconhecida de um cineasta: defensor (embora não entusiasta)
que sou dos filmes anteriores de Bill Condon (Kinsey e Deuses e Monstros),
sua incapacidade aqui quase faz querer rever os anteriores para saber se eu não
estava errado, afinal.
Duas Faces da
Lei, As (Righteous Kill), de Jon Avnet (EUA, 2008) por
Francis Vogner dos Reis A
essa altura da carreira, depois de terem feito juntos aquele que foi um os grandes
filmes da década de noventa (Fogo Contra Fogo, de Michael Mann), Robert
De Niro e Al Pacino não precisavam de algo assim no currículo. As Duas Faces
da Lei é um caça-níqueis que só serve para que seus astros façam a caricatura
dos personagens que vêm fazendo há bastante tempo. A impressão é que nenhum dos
dois leva mais o cinema a sério, porque até para fazer um “filme biscate” é preciso
alguma competência. O filme se centra na investigação de uma série de assassinatos
em que as vítimas são criminosos impunes. Claro que as suspeitas recaem sobre
Robert De Niro, o tira mau, já que Al Pacino é o cara comedido (o tira bom) que
tenta provar a inocência do amigo. Até ai nenhum problema porque premissas vagabundas
renderam obras-primas do cinema americano, sobretudo do gênero policial. Mas o
problema é que Jon Avnet é um diretor de aluguel (sequer é um artesão regular)
e filma como se tivesse que colocar o máximo de informações em um filme com menos
de duas horas. As imagens se bastam como informações e pistas necessárias para
entendermos o que se passa, como os eventos se desdobram, portanto, não existe
cena, só acontecimentos. Como não há cena, seus astros não precisam se aplicar
a um trabalho mais rigoroso, é só reproduzir uma série de expressões de outros
filmes a que estamos acostumados há pelo menos dez anos: Pacino, hiperativo; e
De Niro, rabugento. Uma pena.
Edifício
Yacoubian (Omaret Yakobean), de Marwan Hamed (Egito, 2005)
por Paulo Santos Lima Se
é fato que a sinopse de Edifício Yacoubian não mente, na sua leitura
temos a impressão que o tal edifício será um espaço de experiências. No entanto,
o centro do filme está na relação (sobretudo verbal) entre personagens, não necessariamente
onde eles vivem, transitam, vivem. Não faria diferença, então, se o prédio, a
loja de carros, as ruas do Cairo, etc fossem meros cenários. O filme tenta um
painel humano amplo, indo do aristocrata decadente e galanteador às mocinhas românticas
e interesseiras, dos políticos corruptos ao rapaz pobre que se converte ao islamismo
e é torturado pela polícia, do jornalista gay que sustenta um militar casado ao
dono de uma loja que bolina suas funcionárias. Fica claro, logo no início, que
o dinheiro é uma questão para todos ali, pois a miséria germinada pelo capitalismo
é um dos assombros no Egito atual (segundo o filme). O outro é o da contemporaneidade
estar arruinando os valores que faziam do Egito um grande país, que faziam do
Cairo uma cidade melhor que Paris, sem miséria, sem tristezas etc (segundo o filme,
novamente). Se já é problemático esse moralismo saudosista (ou saudosismo moralista),
que mais olha pra trás do que para o seu momento, o pior está na dramaturgia e
mise-en-scène, pois tudo isso sai da boca dos atores, e muito pouco das
imagens. O resultado tem algo de Bollywood, mas sem os espetáculos cafonas das
seqüências musicais. Câmera mostra edifício por fora, às vezes, e nos coloca dentro
dele, no elevador, em algum meio corredor e já dentro dos apartamentos, onde atores
se esgrimam ou se amam – verbalmente sobretudo. Há espaço para uma chanchada mais
ousadinha, inclusive com alguns momentos mais espetaculares, como quando o jovem
ingresso no Jihad faz treinamento para, tempo depois, atacar a polícia que o seviciou.
Mas, até aí, nada além do que as telenovelas espetaculosas da Globo já vêm fazendo
há tempos.
Entre os Dedos,
de Tiago Guedes e Frederico Serra (Portugal/Brasil, 2008) por
Eduardo Valente É
muito adequado que Entre os Dedos tenha início com a retirada do
corpo de um homem soterrado em um acidente numa obra. Isso porque o mesmo peso
da areia que o matou parece ser o peso do mundo que cada um dos personagens do
filme carrega sobre os ombros. Como as opções pela fotografia em
preto e branco e pela câmera na mão (do tipo que balança mesmo
quando parada) não nos deixam esquecer, se trata de um filme sobre uma
realidade nua e (bastante) crua. A câmera está sempre se escondendo
atrás de algum objeto ou pessoa, enxergando por frestas de portas e paredes,
como que querendo nos revelar alguma "verdade escondida". O que significa,
é óbvio, que os personagens se comportarão com uma dureza
que só é superada pela dos diretores na delineação
da via-crúcis de cada um deles em suas narrativas entrecruzadas. Há
algo de interessante (embora não exatamente novo) na exploração
da arquitetura urbana degradada e fria da periferia de Lisboa, mas não
se trata tanto de uma questão sócio-geográfica, e sim de
um estado de mundo mesmo (como deixam claro os personagens de uma mãe e
seu filho à beira da morte, igualmente fadados ao sofrimento conjunto,
mesmo sendo de uma classe mais abastada). Se há algo que o filme parece
querer tematizar em meio a este mundo cão é uma certa necessidade
das pessoas de continuarem atadas a quem os causa enorme sofrimento, seja por
medo da solidão seja por laços familiares. É uma tese que
poderia causar interesse, mas a estrutura sufocante do roteiro e filmagem não
deixa espaço quase nunca para o contraditório. O caso é que,
ao montar o exato contrário de uma ficção alienada onde todos
são absurdamente felizes e tudo dá certo, o resultado acaba sendo
quase o mesmo. E tudo terminará em catarse e resignação,
claro.
Eragon (Eragon), de Stefan
Fangmeier (EUA, 2006) por Felipe Bragança
Especialmente mal filmado, mal montado, mal encenado, o filme
dirigido por Stefen Fangmeier (dono de curiosa carreira como diretor de efeitos
especiais) não consegue sequer se realizar como uma narrativa de peripécias fisicamente
entretenedoras. A penúria estética do filme se dá de forma tão consistente que
não é possível localizar Eragon como um genérico representante da grife
de fantasia anglo-saxônica pós-Senhor dos Anéis. Seu
plot de gênero (baseado em best-seller juvenil que, por pior que
possa ser, não deve chegar perto da nulidade aqui apresentada) não carrega nenhuma
particularidade que dê ao filme uma identidade ou um sentido dentro do universo
mapeado da “fantasia”. O que vemos é um espetáculo de glamour forçado e
sentimento épico simulado que não consegue ser, em momento algum, mais do que
uma imitação de um blockbuster desejado e projetado. O cinema de aventura
(desde os primórdios), com suas mazelas todas, sempre foi um lugar possível para
a aura e o fetiche da imagem, da sacralidade do que se vê – Eragon, no
entanto, ignora inclusive essa herança iconográfica, não conseguindo nada além
de banalizar tudo a seu redor: da trilha sonora às interpretações risíveis, da
sala de cinema ao pipoqueiro. Autêntico filme-sem-filme, não consegue ser mais
do que um jogo de RPG mal-narrado, por um “game master” preguiçoso e sem
imaginação. Eu os Declaro Marido e...
Larry (I now pronounce you Chuck and Larry), de Dennis Dugan (EUA, 2007)
por Eduardo Valente No cartaz
brasileiro de Eu os Declaro Marido e... Larry, qualquer dúvida que
exista sobre suas verdadeiras intenções e/ou "mensagem"
fica bastante sanada: enquanto Adam Sandler tenta pegar na mão de Jessica
Biel, Kevin James surge entre eles, como que um amigo intrometido e desagradável
que separa aquele tranquilo casal heterosexual. E, de fato, uma vez que assistimos
o filme, fica comprovado que sua narrativa fica tão longe quanto a descrição
desse cartaz de insinuar qualquer tipo de subversão ou elogio da diferença,
como pareceser o discurso corrente em defesa do filme (e que o filme claramente
quer pretender incorporar). De
fato, é este desejo do politicamente correto à todo custo que torna
o filme especialmente incomodativo: a "tomada de consciência"
dos amigos (MUITO heteros, insiste o filme em afirmar e reafirmar o tempo todo,
com medo de perder a adesão do espectador médio) sobre as injustiças
no tratamento com os gays é de uma condescendência impressionante,
assumindo o ponto de vista do "homem branco hetero que entende que os gays
também são gente". Mas, claro, sem nenhum risco real de contaminação
pela doença homosexual e com muitas e muitas piadas (buscando comunhão
com o público, sempre) sobre o que aconteceria se, de fato, eles fossem
gays. O humor do filme se disfarça num pretenso "amoralismo",
que se deseja próximo ao dos irmãos Farrelly, só que não
há nunca a aposta pela radicalização destes, muito pelo contrário:
o humor aqui é sempre safe, distante, quando não claramente
homofóbico, só que "liberal" ("Eu rio porque eu gosto
deles, eu posso"). Só que ri de longe, como o patrão que chama
um empregado negro de "negão" pra mostrar intimidade com a raça
negra e diz "quê isso, sou muito amigo deles..." Spike Lee, se
gay fosse, teria no filme um prato cheio para suas ironias. Isso tudo para
ficarmos no campo do discurso, já que os campos da estética e construção
narrativa são ainda mais inclementes com Dennis Dugan - cuja carreira pregressa,
aliás, não faria esperar nada melhor. Há cenas francamente
constrangedoras (especialmente as que simulam alguma ação, nos incêndios),
opções quase ridículas (como ter Adam Sandler interpretando
o que seria um suposto bombeiro sex symbol) e no geral sobra muito pouco
para o espectador minimanente exigente: só mesmo o uso simpaticamente discreto
da trilha de canções, Ving Rhames rindo de si mesmo e Jessica Biel
- pelo conjunto da sua obra.
Evocando
Espíritos (The Haunting in Connecticut), de Peter Cornwell (EUA, 2008)
por Eduardo Valente Não
é sem relevância para expor os problemas deste Evocando Espíritos notar
o destaque quase exagerado dado no seu crédito inicial para o fato dele ser “baseado
na história real” – algo que se reafirma em seguida com o filme sentindo a necessidade
sem muito nexo de começar com Virginia Madsen dando uma entrevista sobre “o que
aconteceu”, atrelando sua personagem a uma realidade externa ao filme. Claro,
existe o fator “nossa, será que algo assim realmente pode acontecer?”, mas o que
parece mais determinante é esta mania do horror americano (especialmente o mais
recente) de precisar adequar o sobrenatural a uma determinada lógica – na maior
parte do tempo, gastando boa parte de sua trama (como é o caso aqui) tentando
“entender o que está acontecendo”. Nenhum espaço, portanto, para o que realmente
nos fica do melhor do cinema de horror: o sobrenatural em estado bruto, o incompreensível,
tudo aquilo que não é, portanto, “baseado em realidade”. Se este é um defeito
de nascença a (com o perdão do trocadilho) assombrar este Evocando Espíritos
desde o começo, ainda assim poderíamos ver elementos de interesse fortes como
a própria idéia que liga um doente incurável ao mundo dos mortos (e a presença
física do protagonista do filme como um zumbi é bem marcante) ou a imagem de uma
casa praticamente construída de cadáveres. No entanto, não interessa de fato a
Cornwell ou aos produtores do filme gastar muito tempo ou pensamento em busca
de idéias a explorar com alguma ousadia, novidade ou visceralidade: sua agenda
é outra, a de somente bater ponto em “mais um filme de horror americano”, contando
para isso exclusivamente com clichês inexplicáveis – não no sentido sobrenatural,
infelizmente (como a presença das duas crianças); e uma estética acéfala e exagerada
(especialmente no uso da espacialidade do som, banal e estridente, causando total
distanciamento).
Família do Futuro,
A (Meet the Robinsons), de Steve Anderson (EUA, 2007) por
Felipe Bragança Quando John Lasseter (Toy
Story) assumiu os estúdios Disney de animação, veio com a promessa de que
iria fazer de tudo para resgatar a vitalidade e a criatividade vividas nos anos
40-50-60. Esse A Familia do Futuro, primeiro filme dessa nova safra, parece
ser antes de tudo um cartão de visitas dessas possilidades, na sua tentativa de
atualizar a dramaturgia do conto de fadas Disney sem perder o sentido de fábula
(longe da ironia, da paródia) ou de exercício moral de sua narrativa. Consegue
fazer isso com graça, um roteiro detalhista e que se abre a um humor menos infantil
e adocicado, ainda que faça isso em um ritmo dramático por demais acelerado. Uma
homenagem ao animador-empresário Walt Disney,no elogio do gesto visionário e da
criatividade, assim como uma reafirmação dos velhos "valores familiares"
agora em um hipérbole quase circense de um futuro próximo. Com personagens bem
delineados, mas pouco desdobrados (destaque para o vilão inspiradíssimo), o filme
dirigido pelo estreante Steve Anderson se apresenta como um piloto do que poderia
vir a ser uma série de TV ou de cinema, faltando-lhe a consistência para se colocar
em destaque no imaginário Disney – que se faça a anotação, porém, de que não foi
visto no formato 3D em que foi lançado em algumas poucas salas. Ainda que plenamente
esquecível, mostra o potencial que essa arejada de estilos e pegada, trazida por
Lasseter, pretende levar ao estúdio mais tradicional da animação norte-americana.
Ficamos ainda na expectativa.
Filhos
da Esperança (Children of Men), de Alfonso Cuarón (EUA/Inglaterra,
2006) por Eduardo Valente Há
cinco anos, Filhos da Esperança seria politicamente revolucionário. Mas,
qual valor real tem um filme de ficção “futurista” que afirma uma crise ecológico-política
para daqui a vinte anos, quando até mesmo a Veja e o Fantástico já concordam com
isso? E esse é o grande problema do novo filme de Alfonso Cuarón: para além de
sua dimensão mais óbvia e direta (de uma cautionary tale de como o presente
nos indica que o futuro do mundo é negro) ele tem pouco, muito pouco valor cinematográfico.
Claro, em se tratando do diretor que nos deu E Sua Mãe Também e aquele
que é de longe o melhor Harry Potter (Prisioneiro de Azkaban), o filme
possui algumas boas cenas (curiosamente, quase todas baseadas no uso “espetacular”
do plano-sequência, começando pelo da morte de Julianne Moore – realmente impressionante
– e terminando com o resgate do bebê no prédio sob ataque). Mas isso não chega
a esconder uma ficção cujo impacto é todo baseado na encenação (sob o manto de
“futuro sombrio”) da realidade atual do Iraque numa cena, da Palestina na outra,
da África em outra, de Guantánamo ou Abu Ghraib em outra. Com isso, sobra muito
pouco espaço para a “ficção” de fato, e aqui nem falo da ficção científica, mas
sim da abstração sobre a realidade. Todos os personagens servem exatamente aos
propósitos que o filme anuncia desde suas entradas em cena, e a câmera na mão
nos lembra o tempo todo que se trata de algo “realista”. No fundo, Filhos da
Esperança quer ser uma versão “cinematográfica” de Uma Verdade Inconveniente,
mas mal consegue ser uma versão não-exploitation de O Dia Depois do Amanhã.
Fonte da Vida (The Fountain), de Darren
Aronofsky (EUA, 2006) por Pedro Butcher
Fonte
da Vida talvez seja o exemplo mais próximo de
como o cinema pode ser kitsch (para usar um termo fora de moda). O sentimentalismo
e uma certa autopiedade são o motor desse filme sobre um médico (Hugh Jackman)
que tenta descobrir a cura para o câncer enquanto um tumor cresce no cérebro de
sua mulher (Rachel Weisz). Se a ciência não poderá ser redentora, a arte poderá.
As experiências do médico falham, mas caberá a ele completar o livro que sua mulher
deixou incompleto, sobre um cavaleiro espanhol que foi à América Central em busca
de árvore da juventude – uma história que é apresentada paralelamente, com os
mesmos atores. Tudo isso permeado por uma terceira subtrama, de tom filosófico-religioso,
que visualmente é uma das coisas mais cafonas que o cinema contemporâneo já produziu.
Frost/Nixon (idem), de Ron Howard
(EUA, 2008) por Eduardo Valente Assistindo
a este Frost/Nixon, não chegamos ao final com qualquer dúvida sobre o que
pode ter fascinado Ron Howard para realizá-lo: a entrevista real entre o David
Frost e o Richard Nixon originais tem, claramente, a potência de um daqueles momentos
humanos e audiovisuais bigger than life que fascina e faz sonhar. Só que
também são momentos como esse que, depois de ver o filme realizado por Howard,
nós preferíamos que ficassem eternamente preservados do tratamento for dummies
que o diretor dá ao material (como seria de se esperar de quem conhece seus filmes
anteriores). Sim,
porque ao querer encenar o entorno de um momento histórico, Howard deseja nada
mais do que simplificá-lo ao mínimo denominador comum do entendimento da ficção
cinematográfica. Daí, dá-lhe formato de falso documentário sem qualquer nexo para
além de poder explicar minuciosamente tudo aquilo que não precisava ser (especialmente
os sentimentos de cada um dos envolvidos, e sua evolução cena a cena). Dá-lhe
overacting, seja pelo caminho da imitação histórica (Frank Langella, Michael
Sheen), seja dos personagens anônimos (Oliver Platt, Sam Rockwell), todos usando
a lógica da construção que visa atingir complexidade pela simplificação, ou seja:
os personagens se resumem a uma ou duas características que desejam sublinhar
sua “humanidade”, e ficam repetindo-as ao máximo (exceção para Rebecca Hall e
Matthew MacFadyen, que conseguem existir, uma pela persona assumidamente unidimensional
que resulta mais adequada ao “tratamento Howard”; o outro, por seu personagem
não ter um arco próprio óbvio, resultando curiosamente complexo). Dá-lhe, finalmente,
desejo claro de igualar o duelo de palavras a um duelo de boxe, resultando numa
estrutura que transforma um dos grandes momentos de contato entre a política e
o entertainment na história numa simples reedição falada da simplicidade
de um filme de Rocky (azarão começa apanhando, apanha mais e mais, mas descobre
sua força interior, e vira a luta no final against all odds). Mas, ok,
o filme tem uma qualidade: dá uma vontade grande de ir conhecer o material original,
e assim tentar esquecer a versão “PG-13”.
Grilo
Feliz e Os Insetos Gigantes, O; de Walbercy Ribas e Rafael Ribas (Brasil,
2009) por Eduardo Valente Nem
mesmo para o mais sisudo dos críticos é fácil escapar da
tentação de capitular frente a um filme que, ao mesmo tempo, quer
se colocar como alternativa nacional aos filmes para o público infantil
(e que, por isso mesmo, poderia ser o começo de um processo de formação
de público), e luta para conseguir firmar um mercado de trabalho real para
os animadores nacionais no cinema. Politicamente, a agenda parece impor o elogio
ao simples ato de realizar, de chegar ao fim. Mas será que é isso
mesmo que os animadores ou os realizadores de filmes para o público infantil
desejam: esta condescendência piedosa que, ao fim e ao cabo, os relega ao
papel de artistas/artesãos de segunda classe que precisam ser protegidos
só por existirem? Torcendo que não, o que nos resta é constatar
que este segundo filme dedicado ao Grilo Feliz repete aquela que já
era a mais marcante insuficiência do primeiro: uma incapacidade de fazer
com que a partir de sua combinação de personagens eventualmente
promissores e uma capacidade inegável de criar ambientes visualmente atraentes
consiga resultar algo mais que um amontoado de cenas que nunca compõem
de fato uma narrativa com o menor resquício de uma lógica interna
ou de desenvolvimento satisfatório de personagens e tramas - ou seja, nada
que se deva a insuficiências técnicas/tecnológicas. Pois se
fosse pouco, aqui soma-se um preocupante dado à equação:
na busca de um "tema urgente", este segundo filme abraça um ataque
à pirataria que enxerga a função do cinema infantil segundo
tintas de um didatismo tacanho, moralizante e capitalista, com requintes de calhordice
como colocar o "heróico" personagem principal dizendo coisas
como "dinheiro é bom". Mas talvez faça todo sentido ser
este o triste fim de um personagem nascido como garoto-propaganda em publicidades
dos anos 70.
Honeydripper – Do Blues
ao Rock (Honeydripper), de John Sayles (EUA, 2007) por
Eduardo Valente John
Sayles tem quase 30 anos de carreira como um dos diretores americanos independentes
mais coerentes dentro de sua trajetória, através de algumas eras bem distintas
no significado que o termo adquiriu. Nesse sentido, talvez, ver este Honeydripper
chegar à luz do sol do mercado distribuidor não deixe de ser um tributo a uma
carreira mantida à moda antiga, trabalhando em reescrever roteiros para os grandes
estúdios como maneira de se manter enquanto realiza pequenos filmes com orçamentos
mínimos. No entanto, o filme também representa uma certa encruzilhada para o realizador,
que hoje (e de algum tempo) já consegue o reconhecimento de um bom nome de grandes
atores (neste aqui podemos ver quase um all-star dos atores negros da classe
B americana – sendo a classe A reservada para figuras como Will Smith, Denzel
Washington, Halle Berry, etc) e pode se propor a aventuras que exijam um pouco
mais de orçamento, como esta reconstituição histórica dos anos 50 no sul dos EUA.
O problema é que, entre as necessidades de justificar este orçamento e responder
a certos anseios que vêm com um elenco como este, Sayles parece aqui bastante
engessado, realizando um filme que aponta questões elementares do seu cinema (como
a discussão social dentro dos EUA), mas que parece quase sempre se resolver de
maneira morna, quase didática. Ao acumular elementos muito explorados do imaginário
negro daquela época e local (o blues, a colheita do algodão, a herança
da escravidão sempre viva, etc), Sayles parece mesmo um professor de história
daqueles que elenca “causas e conseqüências” de um processo, num movimento que
resulta sempre um tanto redutor das possibilidades individuais de seus personagens.
Assistimos ao filme, assim, com um desejo maior de apreciá-lo do que ele realmente
nos permite fazer.
Horton
e o Mundo dos Quem! (Horton Hears a Who!), de Jimmy Hayward e Steve Martino
(EUA, 2008) por Nikola Matevski
O consenso crítico sobre animações blockbuster
veio à tona novamente em Horton e o Mundo dos Quem!: laureia-se
a "técnica", termo genericamente aplicado a tudo o que resulta
nas imagens do filme, enquanto o roteiro é uma esfera autônoma que
usualmente esquenta discussões sobre as lições moralistas
ou outros valores implícitos à narrativa. Não há nenhum
problema na moralidade representada no mundo de Horton, mas na maneira como personagens
tornam-se vozes dessa moralidade. Se na fábula criada originalmente por
Dr. Seuss os animais são veículo para representar as ambições
humanas maiores do que eles, na adaptação dirigida por Jimmy Hayward
e Steve Martino suas motivações e valores surgem da interioridade
(da psicologia, do caráter) em detrimento da superficialidade. Disney,
em suma.
Porém, o filme sofre seriamente com isso apenas nos
minutos finais e até lá vemos algumas liberdades interessantes no
uso da animação para construir a atuação, especialmente
no prefeito do Mundo dos Quem.Em determinados momentos sua gestualidade é
curiosamente "borrachuda", ou seja, há manipulações
arrojadas nas transições entre as expressões faciais e movimentos
das extremidades do corpo. Assim, um braço amortecido por uma injeção
de anestesia torna-se um veículo para algumas gags físicas - para
ser humanizado, o corpo não imita simplesmente os movimentos humanóides
(como ocorre em Happy Feet, Shrek, etc), mas explora algumas possibilidades
únicas da animação para gerar movimentos exagerados que caracterizam
certeiramente a atuação. Algumas pontas dessas qualidades podem
ser vistas no trailer oficial do filme. Infelizmente, essa é uma característica
inconsistente, que parece ter sido mantida sob controle (pela direção?
pelos executivos?), porque em momentos-chave somos novamente dirigidos para a
habitual quota de templates genéricos de expressões (alegria, tristeza,
etc) que infestam os cartazes de divulgação do filme.
Iluminados,
de Cristina Leal (Brasil, 2008) por Eduardo Valente
Há
uma idéia interessante em Iluminados: pedir a seis grandes fotógrafos do
cinema brasileiro (entre eles o desde então falecido Mario Carneiro, que vemos
na foto ao lado) que proponham iluminações e decupagem para uma mesma proposta
de cena realizada num estúdio. A estrutura do filme, então, passa a ser esta:
acompanhar como cada um deles realiza esta tarefa, ao mesmo tempo em que se intercala
este processo com depoimentos dos seis para a câmera, falando de suas carreiras
e das imagens que mais os marcaram no cinema brasileiro (e mundial também). Claro
que, esteticamente, o exercício em si é o forte do filme, com cada fotógrafo revelando
um olhar e forma de trabalhar, mas talvez o que mais marque o espectador sejam
mesmo as inúmeras cenas pinçadas da história do cinema brasileiro, que acabam
nos chamando a atenção para aspectos da história das imagens deste. No entanto,
nem um nem outro conseguem mudar a sensação de que estamos vendo no cinema algo
que está no suporte errado: Iluminados parece que funcionaria melhor como
uma série semanal de TV (no Canal Brasil, claro, pois nenhum outro canal se interessaria
pelo tema), principalmente por quebrar com a aleatoriedade que sentimos na escolha
dos seis fotógrafos retratados (o filme nunca se pronuncia sobre esta escolha),
uma vez que, como a exibição no começo do filme de um sem número de fotografias
paradas de rostos de fotógrafos trabalhando deixa bem claro, poderíamos ter várias
outras análises combinatórias. A sensação é que o filme não tem em si um discurso
para além do desejo de deixar os fotógrafos falarem um pouco, exibir cenas do
seu trabalho e do cinema nacional e montar a tal cena. Tudo ótimo, mas que poderia
ser reproduzido na TV com mais espectadores e com mais fotógrafos, atingindo resultados
mais potentes.
Janela, A (La Ventana),
de Carlos Sorin (Argentina e Espanha, 2008) por
Julio Bezerra Carlos
Sorin (Histórias Mínimas, O Cachorro) vem sendo muito associado
a uma espécie de “minimalismo” estético. Uma acepção talvez apressada de seu cinema,
pois se é verdade que o realizador argentino se restringe à contenção dramática
e à introspecção de sensações e sentimentos, a mão por vezes incrivelmente pesada
de Sorin acaba quase sempre configurando seu minimalismo como uma certa prisão
estética. Isso é evidente neste A Janela, em que um escritor em idade avançada
espera acamado o retorno de um filho pródigo enquanto encara a iminência da morte.
A janela de seu quarto funciona como uma fresta não só para o mundo, como também
para o universo de suas memórias. Sorin aborda a velhice como um estado físico,
e este será um filme sobre o tempo (de sua sobra e de sua falta). Pena que o cineasta
faça questão de reafirmar isso o tempo todo, povoando o filme com o tilintar de
relógios ou até mesmo de planos-detalhes dos mesmos. Como em seus outros filmes,
tudo é da ordem da simplicidade (talvez o melhor termo para descrever seu cinema):
Sorin dá ênfase aos gestos, aos pequenos diálogos, aos detalhes. Não há reviravoltas,
transformações ou sentimentos mais carregados. O desejo é por um lirismo das pequenas
coisas, por uma transcendência no cotidiano mais banal. Sorin persegue a beleza,
mas não nos coloca em um contato mais próximo com os seus personagens e suas circunstâncias.
Nós somos seduzidos pela perseguição e pela beleza quando encontrada; mas permanecemos
distantes. O fato é que A Janela fica preso a uma certa cartilha. Falta
textura às suas criaturas e às situações que as envolvem. A estratégia de aproximação
com o personagem não se configura como uma verdadeira aproximação.
Jogo
de Amor em Las Vegas (What Happens in Vegas), de Tom Vaughan (EUA, 2008)
por Eduardo Valente Desde
que o cinema é cinema que a comédia romântica segue as mesmas
regras: homem conhece mulher, homem e mulher se estranham no começo, homem
e mulher vão se acertando, homem e mulher se amam no final. De fato, a
comédia romântica só não é tão velha
e previsível quanto os dilemas amorosos de homens e mulheres, que revolvem
em torno de mais ou menos as mesmas coisas desde que o mundo é mundo -
o que antecede o cinema em alguns séculos. Até por isso não
faria o menor sentido se opor a este Jogo de Amor em Las Vegas baseado
na sua previsibilidade como narrativa - até porque inúmeros outros
filmes do gênero seguem o mesmo modelo e atingem píncaros de qualidade
(só para ficarmos no hiper-recente, lembremos de Ligeiramente Grávidos,
de Judd Apatow e de Antes Só do que Mal Casado, dos
irmãos Farrelly). Só que Tom Vaughan, um senhor ninguém da
TV americana, não tem o menor interesse em ser Apatow ou os Farrelly. De
fato, ele não tem o menor interesse pelo cinema. Sua missão em Jogo
de Amor em Las Vegas lhe parece simples e direta: basear-se no star power
de seus dois protagonistas, copiando todos os tiques de atuações
dos personagens pelos quais eles ficaram famosos, usar o roteiro mantido de pé
por apenas uma premissa esperta (o enriquecimento repetino após um casamento
movido pela bebida em Las Vegas) e... bem, e é isso. Só que Vaughan
parece esquecer dois dados essenciais: que o verdadeiro humor vem do inesperado,
da possibilidade de ver algo por um lado ainda não visto; e que não
há bom humor "a favor", o humor é um gesto contestatório
por definição. E isso é tudo que não existe em seu
filme, não deixando dúvidas do porquê ele não tem qualquer
graça. Não é a narrativa que é previsível por
seguir um modelo eterno baseado nas relações humanas: são
todas as suas piadas que são previsíveis porque se baseiam na colocação
de câmera mais óbvia, patética mesmo; no tique de interpretação
mais fora de tom, exagerado; no comportamento de personagens mais fora da lógica
que os constrói a cada cena. O humor tenta ser retirado a fórceps,
e está sempre a favor: da moral mais vagabunda, da estética mais
porca, do comércio mais puro. Não há cinema para se analisar
em Jogo de Amor em Las Vegas, porque nenhum dos seus realizadores assim
deseja ou se importa.
Jumper (idem),
de Doug Liman (EUA, 2008) por
Eduardo Valente David
Rice (Hayden Christensen) faz uso do seu poder de teletransporte com o único
objetivo de se tornar um proverbial playboy, com renda garantida, mulheres, viagens.
Acima de tudo, ele é cool: surfa as maiores ondas, pega as mais
belas mulheres. Claro que, ao longo do filme, ele aprenderá que "com
grande poder, vem grande responsabilidade" - afinal as histórias de
heróis, especialmente os jovens, são feitas disso desde que o mundo
é mundo. No entanto, o que o herói de Jumper tem de diferente
é sua necessidade de viver a vida "à toda velocidade":
não tem paciência sequer para atravessar a rua sem se teletransportar,
de subir no seu prédio na velocidade do elevador. E aí, o herói
se transmuta na própria forma do filme, pois Jumper representa um
cinema de ação "sem tempo a perder": cenas de ação
hiper-cinéticas ao ponto da incompreensão, pouco tempo para se dar
a conhecer com personagens e tramas, nenhuma preocupação com coerêcia
de qualquer espécie. Interessa a Jumper não perder o contato
com seu espectador, indo sempre em busca do mínimo denominador comum narrativo,
e rápido, sempre bem rápido. Doug Liman fazia outro dia num jornal
carioca a defesa de um cinema de efeitos especiais "físicos",
ou seja, que use ao máximo situações e locações
reais. No entanto, se Jumper de fato vai a Roma, ao Egito e ao Japão
para filmar, ele o faz através da imagem mais simples e facilmente reconhecível
de cada lugar, pois não há tempo a perder com aclimatação.
Seu olhar equivale ao do turista hiper-apressado que precisa ir logo para o próximo
ponto a fim de "conhecer tudo", sem conhecer nada - não por acaso
a parede da casa do personagem principal parece cheia de cartões postais,
como se sua vida se resumisse a um passeio apressado. Num determinado momento
do filme, nosso herói vira-se para alguém e pede: "skip the
boring parts" ("pule as partes chatas"). Num mundo mais honesto,
esta seria não apenas a frase que resumiria o filme, mas todo um modo de
olhar o mundo (e essencialmente o cinema) que Jumper representa. Neste
sentido, talvez, o filme seja um exemplar valioso para entendermos o olhar do
adolescente de hoje - ou, pelo menos, do adolescente que o filme idealiza como
o seu público.
Killshot - Tiro
Certo (Killshot), de John Madden (EUA, 2008) por
Julio Bezerra Killshot
– Tiro Certo veio ao mundo de maneira conturbada:
foi filmado há quase quatro anos; sofreu uma série de versões de roteiro; algumas
de suas seqüências tiveram de ser refilmadas; e a estréia este ano nos EUA foi
em míseras cinco telas. Essa história talvez explique muito sobre as fragilidades
desse filme, pois a impressão que ele passa é a de auto-sabotagem. Baseado em
romance homônimo de Elmore Leonard, John Madden (Shakespeare apaixonado)
mistura os ingredientes tradicionais do escritor e aposta em uma descrição dura
e seca do mundo do crime. Em termos de mise-en-scène, o que se vê é o esboço
de uma proposta quase física de cinema, em que Mickey Rourke, como o matador Blackbird
é mais uma vez a grande atração. Ele é um “grande mistério”, uma aparição: a câmera
o persegue, hipnotizada. Rourke corporifica as tensões de seu personagem, suja
e modula as ações do longa. Quando abre a boca, no entanto, suas falas entram
com dificuldade nos ouvidos. Os diálogos (a adaptação do romance foi feita pelo
próprio Elmore Leonard, em parceria com Hossein Amini) prejudicam a atuação do
elenco de maneira geral – em especial a de Joseph Gordon-Levitt que, como o marginal
que Blackbird “apadrinha”, extrapola na afetação, como se estivesse em um filme
mudo. As subtramas crescem de maneira inesperada, com Madden direcionando muito
de nossa atenção para as caracterizações psicológicas de seus personagens – de
todos os seus personagens. O filme começa com uma narração em off em que
Blackbird sublinha "que é preciso saber onde você está se metendo".
Killshot, no entanto, quebra essa afirmação: parecendo não ter rumo ou
foco é um filme sem personalidade.
La
León (idem), de Santiago Otheguy (Argentina/França, 2007)
por Eduardo Valente Na
medida em que começa com pequenos barcos e canoas que correm por rios argentinos,
em lentos travelings laterais e frontais, La León já
nos remete a Los Muertos, o filme que projetou há três anos
o também argentino Lisandro Alonso. E, de fato, apesar da escolha aqui
de uma fotografia cujos tons de cinza nos fazem pensar mais nos filmes do húngaro
Béla Tarr, a aproximação faz sentido: assim como no filme
de Alonso, em La León o que importa é mergulhar o espectador num
ambient cujas regras de sobrevivência no dia a dia ele desconheça.
Só que aqui, ao invés de acompanharmos um só personagem,
como era o caso com o Argentino Vargas de Los Muertos, Otheguy tenta montar
um pequeno filme-tableau de um grupo de personagens envolvidos com situações
ao mesmo tempo banais e limítrofes numa região pouco conhecida,
na Bacia do Paraná (e aliás um dos problemas de recepção
do filme é que ele explica pouco sobre a situação sócio-política
local - o que nem seria sua obrigação como filme de ficção,
mas que nem por isso deixa de ser algo que sentimos que nos falta para compreender
o todo do que se passa). Além da opção pelo PB, há
mais diferenças marcantes quanto ao filme de Alonso, como a opção
pelo uso de atores profissionais como Jorge Román (o protagonista de El
Bonaerense) e Daniel Valenzuela (de Mundo Grua e O Pântano,
entre outros) - no entanto, curiosamente nenhum dos dois atinge o carisma na tela
que o não-ator Argentino Vargas tinha. E é um pouco este o principal
problema de La León: sem um foco real de empatia na tela, a impressão
para o espectador é mais a de acompanhar um experimento estético,
eventualmente até bem sucedido, do que de mergulhar de fato num outro tempo/tradição
como parece ser o desejo do filme.
Lemon
Tree (idem), de Eron Riklis (Israel/Alemanha/França, 2008)
por Eduardo Valente Uma
viúva palestina solitária é dona de um limoeiro que é a grande memória viva de
sua família. Certo dia, o ministro da Defesa de Israel (logo quem!) resolve se
mudar para o terreno vizinho, e o Serviço Secreto israelense decide que aquele
limoeiro é extremamente perigoso como possível refúgio de terroristas, por isso
manda derrubá-lo. Daí começa uma guerra judicial entre o Estado israelense e esta
pobre palestina. Por que começar um texto crítico sobre um filme por uma sinopse
alongada como esta, algo tão pouco comum aqui na Cinética? Porque todos os interesses
cinematográficos do filme de Eran Riklis são resumidos por esta sinopse, e o filme
que surge na tela é tão somente uma transposição das
explorações mais óbvias possíveis da mesma através de uma narrativa ficcional
realista. Lemon Tree é
um filme absolutamente claro nos seus objetivos: usar o modelo de uma ficção “político-humanista”
para “esclarecer” o espectador sobre aspectos da realidade da região em questão
(não por acaso há uma preocupação com uma localização geográfica das cenas com
créditos na tela, transitado por espaços que vão da Cisjordânia a Jerusalém),
ao mesmo tempo em que o “emociona” com a constatação de que os seres humanos podem
ser bons e poderiam resolver as questões se “apenas se comunicassem”. Aqui e ali
há pontos de interesse (como o romance entre a viúva e seu advogado, ou as imagens
do muro que Israel constrói para cercar os palestinos, sempre filmado com uma
menor qualidade de imagem de vídeo), mas eles são constantemente pouco ou mal
explorados pelo filme, cujo interesse claro é o de urdir uma narrativa que mistura
inúmeras improbabilidades de relato (algo absolutamente inerente à ficção que
se assume como tal, mas problemático quando ela se disfarça de realidade como
esta) com simplificações grosseiras (onde a personagem da ajudante do ministro
talvez seja a mais obviamente esdrúxula, mas longe de ser a única). Tudo convergindo
para a imagem “poética” final (que de poesia nada tem, porque sua interpretação
é única e inequívoca), que, no fundo, é tudo que se queria dizer/mostrar desde
o começo. Melhor se fosse um curta, ou ainda, uma foto – menos tempo seria gasto
pela parte dos que não se “emocionam” com todo o lugar-comum das cartas jogadas
pelo filme.
Libertino,
O (The Libertine), de Laurence Dunmore (EUA, 2004) por
Eduardo Valente Não parece exagerado supor
que o lançamento (e continuidade em cartaz) por aqui do desconhecido filme
de Laurence Dunmore tem muito a ver com a simplicidade da imagem do seu cartaz:
Johnny Depp, sex-symbol maior da platéia feminina cult (e,
pós-Piratas do Caribe, da nem tão cult também),
com a palavra "libertino" escrito em cima dele - uma correlação
de idéias cuja promessa parece quase irresistível para esta platéia.
No entanto, O Libertino é um filme que não se parece em nada
com algo palatável pelos parâmetros do circuitinho de arte brasileiro
atual. Aqueles que esperam ali um pouco de softcore com atores e dublês
em elegantes reconstituições de época, se depararão
com um filme muito pouco amigável, programa nada recomendado para as alegres
noites de sábado. Já no primeiro plano, Depp olha a platéia
de frente em plena penumbra (num plano curiosamente parecido com o posterior plano
de abertura de O Plano Perfeito, de Spike Lee), e avisa que nós
não gostaremos dele. A secura extremamente auto-consciente deste primeiro
plano, e sua proposta desafiadora (a de um protagonista antipático e amoral),
serão bastante abrandadas ao longo do filme, na medida em que a trajetória
de seu personagem embarca por uma via-crúcis que inclui decadência
física causada por doença - o que, inevitavelmente, lhe empresta
um caráter trágico (e, portanto, passível de comoção
da platéia). De fato, esta duplicidade não escapa ao filme, que
parece buscar construir-se justamente no embate entre a compreensão e o
desprezo que o espectador deve sentir pelo personagem. Mas, a dramaturgia com
que o filme tenta construir esta história dá espaço a um
outro embate, e este é que acaba trabalhando contra o projeto. Na opção
por uma estrutura narrativa que siga e tente dar continuidade cronológica
aos vários acontecimentos da vida do personagem e aqueles que o circundam,
o filme encontra um obstáculo ao seu outro componente, eminentemente ensaístico,
que busca lançar questões nada pouco complexas sobre a existência
humana. Tentando dar voz simultânea a estes dois filmes não é
tarefa fácil, e ambos acabam perdendo: os personagens secundários
flutuam demais pela história para realmente nos importarmos com eles (e
seu efeito no personagem), e a verbalização dos dilemas filosóficos
parecem atravancar a história constantemente. Ao final, Dunmore consegue
alguns feitos interessantes (a maioria deles advindos da fotografia em perturbador
jogo de claro-escuro, ajudada por uma reconstituição de época
nada idealizada), ainda que em vários momentos pareça forçar
demais a mão no seu ímpeto autoral de estilo marcante (cuja semelhança
com o primeiro cinema de Peter Greenaway vai bem mais longe do que apenas as notas
do mesmo compositor de trilha sonora, Michael Nyman). E, se não realiza
um grande filme, certamente apresenta um problema e tanto para as percepções
preguiçosas de plantão. Longe
Dela (Away From Her), de Sarah Polley (Canadá, 2006) por
Lila Foster Estréia
na direção de Sarah Polley, atriz canadense de filmes como O doce amanhã
de Atom Egoyan (também produtor deste filme) e Minha vida sem mim e A
vida secreta das palavras de Isabel Coixet, Longe dela mostra uma história
de amor contada da perspectiva do envelhecimento. Grant e Fiona formam um belo
casal mesmo depois de 44 anos de convivência, até que os esquecimentos progressivos
de Fiona por conta do Alzheimer levam o casal a tomar a decisão de se separar
para que ela tenha cuidados específicos numa clínica para idosos. É chocante para
Grant perceber em uma visita a clínica o deterioramento causado pela doença e,
aparentemente, ele parece ser o que mais sofre com a separação: um passado feliz
e uma vida harmoniosa em conjunto estariam assim se desfazendo. Mas, as dores
do passado não estão assim tão ausentes e esta pequena célula incômoda quebra
a aura de idealidade conferida ao casal. Esta mudança é o que o filme apresenta
de mais interessante, principalmente porque a partir dela cada um tenta estabelecer
estratégias de sobrevivência diante da separação e também das novas condições
de vida. Tema ainda pouco explorado no cinema, a velhice aparece de forma difícil
e triste, mesmo que não sem levar em consideração que, para além do fim da vida,
se trata também do tempo mais necessário para se reinventar. É aí que o passado
e o medo da solidão parecem pesar muito mais do que o medo da morte. A direção
de Sarah Polley se fia, até demais, no roteiro bem estruturado, contando ainda
com a ótima atuação de Julie Christie.
Lugar
na Platéia, Um (Fauteuils d'orchestre), de Danièle Thompson
(França, 2006) por Eduardo Valente
O
filme abre com uma visão noturna de Paris na qual se delineia o curso do Sena
e ao fundo a Torre Eiffel: não exatamente uma forma criativa de se começar, mas
uma que é plenamente coerente com o filme. Ao fundo uma vez em off
prega que “se não podemos ser ricos, podemos ao menos trabalhar entre eles”. Ironia?
Não há nenhum sinal no filme, que parece se dedicar justamente a operação semelhante:
se não podemos ser ricos, artistas, parisienses, podemos pelo menos assistir um
filme com eles em cena. O que segura um mínimo da nossa atenção é uma graciosidade
de atriz chamada Cècile de France cujos olhos brilhantes e incrivelmente
emotivos conseguem nos fazer acompanhar com alguma simpatia a trajetória da sua
proto-Amèlie Poulain. A Danièle Thompson parece satisfazer tão somente filmar
um pequeno folhetim cômico (daí as seguidas citações a Feydeau na narrativa),
que de fato consegue eventualmente arrancar alguns sorrisos - e até duas ou três
risadas com seu elenco hiperpreparado fazendo tudo que Feydeau não fazia:
um espetáculo da psicologia de botequim. Inegavelmente, se o filme viaja
pelo mundo é simplesmente pela certeza de que sempre haverá um público interessado
em passar duas horas entre os ricos e famosos de Paris. Não é nada, não é nada...
é quase nada mesmo.
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