in loco
Dia 7: Um belo dia na competição e o velho papo do filme gay
por João Cândido Zacharias

O consenso geral por aqui é que, até agora, a competição esteve bem fraquinha, com destaque só para Sangue Negro, que foi quase unanimidade. Eu discordo. Afinal, além do filme de PTA, passaram ainda Tropa de Elite e Sparrow. O primeiro, um filme que gosto bastante, e o segundo, a melhor coisa que vi até agora. Mas aí chegou a terça-feira, com pelo menos um filme que agradou geral e outro que também espalhou muitos sorrisos.

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Happy-Go-Lucky, de Mike Leigh (Reino Unido, 2007) - Competição oficial

Mike Leigh, finalmente, pra cima!

Que feliz esse novo filme de Mike Leigh! Como o título já deixa bem claro, Happy-Go-Lucky é uma comédia pra cima que, mesmo que não enfilere uma piada atrás da outra (e em alguns momentos até o faz), tem um espírito feliz, satisfeito, positivo sem ser Poliana. Faz até lembrar daquela velha piada: será que Leigh teve um filho desde seu último filme pra cá e comecou a ver a vida com outros olhos? Os longas mais recentes do cara (Agora ou Nunca e O Segredo de Vera Drake) eram totalmente dentro daquele seu esquema "mundo deprimido, nada tem solução".

Por isso que é tão bom pra mim - e, pelo visto, pra grande maioria das pessoas aqui em Berlim - ver a história de Poppy. Ela é uma moça de 30 anos cheia de energia: dá aula para criancas, divide um apartamento com a melhor amiga, faz auto-escola, aula de flamenco e flerta com o agente social que vem visitar um de seus alunos. Happy-Go-Lucky não tem uma linha narrativa concreta, não está exatamente contando uma história. As quase duas horas de filme são um recorte, ainda que aparentemente a esmo, dentro da vida de Poppy. Seu jeito "maluquete" de ser parecem fazer os problemas não existirem, por mais que eles estejam lá.

Esse é o encanto do filme novo de Mike Leigh: a vida é leve, possivel de ser vivida com felicidade, mesmo que existam problemas e adversidades, mesmo que algumas coisas às vezes precisem ser confrontadas. Nem mesmo o desenrolar da relação com Scott, o professor de auto-escola, é visto com peso pelo olhar calmo de Leigh. E grande parte desse mérito é de Sally Hawkins, que esteve nos últimos filmes do diretor, em papéis menores. Seu sorriso é daqueles que contagia, que por si só coloca um cinema inteiro sorrindo de volta, simples assim. Esse encantou tomou Berlim com força e Happy-Go-Lucky está super bem cotado por aqui. Não será surpresa nenhuma se Hawkins levar o prêmio de melhor atriz.

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Night and Day/Bam gua Nat, de Hong Sangsoo (Coréia do Sul, 2008) - Competição oficial

Lembrando Rohmer

Se Erik Zonca, com seu Julia, fez assumidamente uma releitura de Gloria, de John Cassavetes, Night and Day, novo filme de Hong Sangsoo, parece uma linda homenagem ao cinema de Eric Rohmer. Sung-nam é um pintor que, segundo nos contam as cartelas iniciais, saiu fugido da Coréia do Sul, onde foi pego fumando maconha. Ele acaba de chegar a Paris, onde vai viver num prédio abarrotado de gente da comunidade coreana. Night and Day se desenrola como um diário de Sung-nam, tanto pelas cartelas apresentadas a cada novo dia quanto pela calma com que assiste o passar do tempo de seu personagem.

Em Paris, o pintor encontra uma antiga namorada, de quem tinha se esquecido, e conhece duas alunas da faculdade de belas artes, acabando por se apaixonar por uma delas. As relações entre os personagens, sejam elas amorosas ou não, são a matéria-prima do filme de Sangsoo, que parece usar o passar do tempo como ferramenta para ir moldando essas relações. Ainda que Night and Day não possua nenhum acontecimento-supresa em sua narrativa, tem coisas que eu prefiro não comentar para deixar que elas sejam vistas e sentidas pela primeira vez assistindo-se ao filme. Mas vale dizer que é na meia hora final onde Rohmer se faz mais presente, com uma sequência "enquadrada" por planos de nuvens que extrapolam os limites dessas relações entre os personagens, de uma maneira que espelha o extremo carinho que Sung-nam (e Sangsoo) tem pelo mundo.

Fiquei surpreso em saber que o filme tinha sido super bem recebido aqui em Berlim porque, confesso, ele não é fácil para certas platéias e está longe de se encaixar naquele perfil de "filme de festival". Espero que o futuro seja promissor pra Night and Day e que ele possa ser mais visto que os outros filmes do diretor.

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First Love/Hatsu-koi, de Imaizumi Koichi (Japão, 2007) - Panorama
Otto; or, Up With Dead People, de Bruce LaBruce (Alemanha/Canadá, 2007) - Panorama

O filme de gueto

O que é um filme gay? Essa pergunta parece voltar a mim sempre que vejo a relação de filmes da mostra Mundo Gay do Festival do Rio ou a programação do Mix Brasil. O esquema do filme de gueto é sempre muito estranho, basicamente porque parece dar mais importância ao tema do que ao filme em si. No caso do "filme gay", parece levar a um pensamento mais adiante: a diferença entre uma comédia romântica com um casal de homens e uma com um homem e uma mulher é exatamente a mesma que aquela entre esses dois casais na vida real, em carne e osso. Assim, portanto, me parece estranho enquadrar um filme com o rótulo gay, como me parece estranho enquadrar um casal com o mesmo rótulo.

O que é um filme gay? Se formos pensar na repetição de uma fórmula que cria a existência de um gênero, First Love é o perfeito filme gay. Seus personagens são usados como peças de um discurso já pré-existente: o adolescente se descobrindo, o quase-trintão dividido entre e vida de pegação e a tristeza de não achar um grande amor, e o casal que espelha uma relação machista homem-mulher, onde o mais afeminado cuida da casa e o mais masculinizado vai trabalhar (com direito a chegar em casa de gravata e pasta na mão). First Love quer ainda discutir um assunto caro à comunidade gay, que tem criado bastante debate, inclusive político: o casamento entre dois homens. Acontece que Imaizumi Koichi não está interessado em pensar na questão como a lista de direitos de que um casal gay está privado por não ser considerado legalmente casado. Koichi na verdade quer repetir aquela velha formula machista de seu casal de personagens, chegando mesmo a colocar na boca de um deles a fala "Eu também quero o direito de me vestir de noiva". Essa tentativa, fantasiada de inovadora, não faz nada além de mesmerizar um fórmula arcaica que, ao invés de ajudar, acaba atrasando as inovações que parece defender.

O que é um filme gay? Bruce LaBruce, cineasta e artista dos meios visuais, vem fazendo um trabalho calcado nos extremos desde o começo de sua carreira. Seus filmes costumam ter várias cenas de sexo explícito, quase sempre entre homens, e muitas vezes incluindo aquilo que é tido como bizarro ou fora do normal: penetrações com objetos, outros membros do corpo além do pênis ou mesmo membros deformados (o cotoco do homem sem pé em White Hustler) são comuns nos filmes (e fotos) de LaBruce. Seu trabalho se encaixa muito melhor na definição de filme gay (e aí vale lembrar também, por exemplo, The Living End, que passou restaurado ainda outro dia aqui em Berlim) por apontar aquilo que faz um gay ser diferente de um heterosexual, e não por tentar encaixar um presuposto "modo de vida" em outro. Vem daí a frontalidade do sexo nos filmes de LaBruce, os close-ups nas penetrações, a enorme quantidade de paus, duros e moles, o tempo todo. Porque é na sexualidade que está a tão falada diferença, essa diferença propalada, defendida e mal interpretada por grupos e ONGs mundo afora.

Acontece que, se nesse uso da frontalidade, Bruce LaBruce tem uma força política incrível, ele parece não se interessar tanto assim por qualquer outro assunto que seja, e em Otto; or, Up With Dead People, seu novo filme, ele quer fazer uma história de zumbi. Aqui, ainda que possa parecer que Otto, o zumbi gay e deprimido que vaga pelas ruas de Berlim, é o protagonista, o olhar que o filme assume é na verdade o de Medea, a cineasta underground que se encanta por Otto e resolve fazer um filme sobre ele. Acontece que se essa dedicação ao extremo faz sentido quando se fala e mostra sexo, ela não parece dar bons frutos quando LaBruce usa Medea para tentar discutir política (verbalmente) e acaba resultando naquilo de que acusa a personagem: uma chatice sem fim.

O diretor mostra Medea com todos aqueles estereótipos do cineasta sem dinheiro: cheia de discursos, sandices e com filmes sempre experimentais em preto e branco. Enquanto debocha de Medea, LaBruce parece não perceber que seu filme está ficando como os dela. Otto, então, não é um filme de zumbi como os outros, ao mesmo tempo em que não é um filme de Bruce LaBruce como os outros. Aqui, o sexo fica quase que totalmente ausente e nas poucas cenas em que aparece, os paus e as penetrações se limitam a ficar fora de quadro, ou então aparecerem numa montagem confusa onde nada se vê. Em Otto, LaBruce parece ter aberto mão do tema que lhe é tão caro e assim, sem perceber, ter perdido um pouco da sua própria vontade de filmar, o que é uma pena.

Mas há no filme pelo menos um destaque: a piada em torno de Hella, a namorada de Medea que, sem explicação, vive num mundo de cinema mudo, aparecendo sempre em preto e branco desgastado e se comunicando através de cartelas. A piada se mantém engraçada em todas as vezes que aparece, o que faz pensar que Otto; or, Up With Dead People poderia ter sido um filme bem melhor.

Fevereiro de 2008

editoria@revistacinetica.com.br


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