bloco de notas - junho/julho 2007

Preservação e Restauração Cinematográficas na UFF
por João Luiz Vieira, colaboração para a Cinética
Dois projetos de conclusão de curso de graduação em cinema relacionados com preservação e restauração fílmicas foram apresentados e defendidos em sessão pública ocorrida nas dependências da Cinemateca do MAM na quarta-feira, 25 de julho de 2007. Trata-se dos primeiros trabalhos voltados para essas áreas desenvolvidos por alunos da UFF como resultado prático da inserção da disciplina Preservação, Restauração e Política de Acervos Audiovisuais, considerada obrigatória do novo currículo de cinema da UFF. A disciplina, que vinha sendo oferecida como cadeira optativa graças à iniciativa do Prof. Hernani Heffner desde 1998, passou a constar do novo currículo como obrigatória há dois anos, numa experiência inédita na universidade brasileira, ampliando o campo de trabalho dos egressos desse curso.
As monografias apresentadas intitulam-se A revisão na preservação de filmes – manual básico, de autoria de Natália de Castro Soares, com 98 páginas, mais anexos, e Estudo de caso da mostra Retrospectiva Rogério Sganzerla-Cinema do Caos: ações de preservação em projetos de difusão e exibição de filmes, de Carolina Durão, com 84 páginas e também anexos. Sobre a primeira monografia, a banca examinadora destacou a qualidade do texto apresentado e a profundidade da pesquisa e, principalmente, a utilidade que a mesma terá no campo profissional focalizado, enfatizando o esforço da aluna em unir a experiência prática pessoal num projeto de reflexão sobre uma atividade ainda considerada menor – a revisão de filmes como etapa inicial do processo de restauração. Quanto à segunda monografia, foi elogiado o estilo memorial do texto, sua originalidade e metodologia, que serve de modelo para ações culturais de preservação, acesso e difusão de conjuntos filmográficos de diretores e realizadores de cinema no Brasil. Tal como na monografia de Natália de Castro Soares, a pesquisa de Carolina Durão também surgiu de observações e vivências imediatas e práticas experimentadas pela aluna durante a realização de trabalho aplicado, no caso a mostra-homenagem a Rogério Sganzerla, ocorrida no CCBB do Rio em novembro de 2005. Por unanimidade, os dois projetos receberam a nota máxima, além de menção de louvor.
Ambos refletem o interesse renovado por parte dos alunos de cinema nesse campo de trabalho, motivados também pela revitalização das atividades de preservação e restauração da Cinemateca do MAM, em especial a partir de meados de 2006 com a inauguração de novas e adequadas instalações para a guarda, manutenção e preservação de seu importante patrimônio cinematográfico.  É lá que se desenvolve essa disciplina, de maneira bastante concreta e prática. O fato dessas duas apresentações terem ocorrido no próprio espaço da Cinemateca também ganha significado especial quando vem à memória o período de crise enfrentado pela Cinemateca em 2002. Naquela triste ocasião, junto com o remanejamento de parte considerável de seu acervo para São Paulo, o Rio quase se viu privado dessa atividade com o então iminente fechamento de sua única Cinemateca. Os próprios alunos e estagiários da UFF chegaram a ser proibidos de entrar nas dependências da Cinemateca, graças ao empenho da então diretoria do MAM (Maria Regina do Nascimento Brito). Como a História em geral dá suas voltas, ninguém imaginaria que, cinco anos depois, não só a Cinemateca voltaria a desempenhar suas funções como possibilitaria a continuidade desse importante trabalho prático-didático de formação de mão de obra específica para a preservação da memória audiovisual brasileira.

Arremessando Conceição
por Leonardo Mecchi
Como pôde ser observado por quem acompanhou as exibições de Conceição – Autor Bom é Autor Morto na Mostra de Tiradentes e no CineEsquemaNovo (de onde saiu com o prêmio de público), é um filme com grande potencial de diálogo com o espectador – mas certamente não aquele que freqüenta hoje as salas do “circuito de arte”. Historicamente, muitos dos traços trabalhados por seus diretores (o humor debochado, a transgressão, o gore-trash, o apelo sexual) eram características comuns aos filmes efetivamente “populares” (aqui entendido como aquele que atraía uma parcela não-elitizada da população) dos anos 70 e início dos 80, levando grande público para as salas de cinema de rua. No entanto, o filme estreou esta semana em São Paulo e Rio de Janeiro dividindo horário em salas dos Unibanco Arteplex – diga-se, dos poucos cinemas “comerciais” que ainda exibem filmes brasileiros de todos os tipos. Para completar, em São Paulo o Estadão ignorou solenemente a estréia, enquanto, no Rio, O Globo desancou o filme como uma “piadinha de cineasta” e tacou o bonequinho dormindo. Pronto, está montado o cenário para o enterro precoce de mais um filme brasileiro: 164 espectadores no final de semana de estréia, segundo o Filme B.
Não se trata aqui de analisar os méritos ou não do filme-coletivo realizado por ex-alunos da UFF, mas sim de confirmar, uma vez mais, a total e inegável incapacidade do mercado exibidor brasileiro de absorver qualquer filme que fuja dos padrões estabelecidos: o blockbuster americano para os grandes multiplexes, os filmes-prestígio para os cinemas bistrô, e um ou outro filme médio (americano ou brasileiro) para tampar o buraco ou cumprir cota de tela. Filho bastardo do cinema brasileiro contemporâneo, Conceição bate de frente com a ditadura do “bom gosto” e do “padrão de qualidade” que predominou de maneira praticamente inconteste desde a retomada da produção nacional no início da década de 90. Ressabiado do estigma que rapidamente se alastrou a partir da segunda metade dos anos 80 (a de se tratar de uma produção precária, de atuações ruins e péssimos roteiros), o cinema brasileiro de 1994 para cá tornou-se um cinema esterilizado e higienizado, com receio de ousar, buscando antes de mais nada cooptar novamente o espectador que havia abandonado a produção nacional. Nesse sentido, mais do que uma homenagem ou referência ao cinema marginal e à pornochanchada (aos quais muitos, de maneira rápida e preguiçosa, buscaram vincular o filme), Conceição é na realidade uma resposta ao cinema que vem sendo produzido no Brasil nos últimos 15 anos. Um filme com um projeto de cinema mesmo, como há muito não se via por estas bandas. Um grito pela liberdade criativa e por novas possibilidades (ou não tão novas, não importa) de se fazer cinema no Brasil. Numa produção recente que se vangloria de sua suposta “diversidade”, trata-se de um apelo mais urgente do que pode parecer.
Mas mesmo em meio a toda essa inquietação, um certo comodismo ontológico do cinema brasileiro acaba por se impor. Em se tratando de um filme que se coloca como uma resposta programática à grande parte do cinema brasileiro recente, Conceição peca exatamente no mesmo ponto que praticamente todos os filmes aos quais se contrapõe: a distribuição. Se tivesse se utilizado nessa etapa da mesma criatividade com a qual trabalhou a falta de recursos durante a produção, Conceição certamente não seria um enorme sucesso de bilheteria, mas poderia ter se arriscado a atingir uma parcela maior de público do que os míseros 164 espectadores de cinema bistrô que prestigiaram o filme em seu primeiro final de semana. Ao invés disso, rendeu-se ao falido projeto de distribuição da RioFilme e engrossa a lista dos filmes brasileiros que são simplesmente desovados no circuito exibidor. Ao furor criativo de sua produção, contrapôs-se um conservadorismo acanhado em seu lançamento. Pior para todos.


Se a moda pega... por que não outras?
por Eduardo Valente
Criticamos sempre que achamos que devemos, então também precisamos fazer o mesmo com os elogios. A decisão do circuito Cinearte (Arteplex, Espaço Unibanco, etc) de anunciar nas bilheterias dos seus cinemas o tempo de comerciais a serem exibidos antes de cada sessão é prova de uma consideração mínima pelo espectador que andava sendo bombardeado com até 15 minutos de propagandas antes de ver o filme pelo qual pagou o ingresso. Assiste publicidade quem quiser chegar mais cedo, guardar lugar, o que for. Esta medida é praxe, por exemplo, no circuito parisiense de cinema, onde os anúncios de jornal informam que horas começa a sessão, mas também que horas começa o filme exatamente. Assim pelo menos a moda do momento nos cinemas de arte, a parisiense (como tratamos abaixo), não fica só nos seus aspectos mais cosméticos. Mas já que estamos importando as boas idéias dos parisienses, não custa perguntar: por que nossos circuitos de arte (Cinearte, Estação) não implementam os carnês de ingressos com desconto para quem compra vários ingressos antecipadamente? Em Paris, todas as principais cadeias independentes têm seu "clube de fidelidade", onde o cinéfilo pode comprar 10 ingressos de uma vez por preços bem mais em conta - perto de 50% de desconto. Aqui, os descontos ficam com os estudantes ou falsificadores de carteirinhas e o preço inteiro só consegue ser pago mesmo por quem vê um, dois filmes por mês no máximo. O cinéfilo que já saiu da universidade e calha de ser cidadão honesto, este só se ferra. E, no entanto, as pequenas distribuidoras lançam cada vez mais filmes para cada vez menos pessoas. Não faz muito sentido...

Paris, hoje?
por Eduardo Valente
Tendo visto o filme numa semana em que ele ficou em cartaz ainda como "pré-estréia", não foi difícil vaticinar o sucesso de Um Lugar na Platéia no chamado "circuito de arte" carioca. Desde os primeiros planos, onde uma voz em off confessa seu fascínio com a paisagem turística de Paris à noite, passando pela sua trama que circula num determinado circuito "artístico de luxo" da capital francesa, era fácil prever que o espectador majoritariamente conservador do "circuito dos bistrôs" iria adorar replicar o olhar "caipira" e deslumbrado da personagem de Cecile de France frente à realidade dos ricos e famosos que passeia frente a ela no filme - e, ao fazer isso, curiosamente se assemelhar muito àquele mesmo público dos concertos do pianista desagradado com sua carreira que também aparece no filme. Mais difícil era antever que, num ano particularmente duro e de vacas magras no chamado circuitinho (muitos títulos, poucos sucessos reais), Um Lugar na Platéia se tornaria tamanho maná que, não só ocupou praticamente uma sala em todos os "complexos" de salas do Grupo Estação espalhados pelo Rio, como ainda parece pautar os próximos lançamentos, que, com Paris Te Amo e Quatro Estrelas seguem a linha "ah, la douce vie en France"... É o cinemão, versão cineminha. Que lembra aquele delicioso comercial de cartão de crédito sobre os sonhos de consumo do público classe A e B: "Paris, hoje?"

Top 20 Brasil da Paisà
por Eduardo Valente
Falávamos abaixo de uma lista de 100 melhores filmes americanos, onde criticávamos tanto a pouca representatividade do trabalho realizado pela instituição que a organiza quanto sua extrema "caretice", que ignora todo um cinema americano para afirmar os mesmos títulos de sempre. Pois agora, chega à web uma lista de 20 filmes brasileiros, organizada pela revista Paisà - que excepcionalmente lançou esta sua edição exclusivamente na internet. A lista merece destaque por pelo menos dois motivos para além da escolha deste ou aquele filme: primeiro, a série de textos que acompanha a lista em si, com curtas descrições críticas dos filmes e sua importância, numa série de declarações de amor a alguns filmes que certamente nos dão vontade de voltar a eles (ou vê-los pela primeira vez, porque não?); depois, pelo texto de lavra do nosso editor Cléber Eduardo, que faz um apanhado das eleições de cânones do cinema brasileiro, colocando esta lista em relação a outras e discutindo os critérios e conclusões que se pode observar a cada votação do tipo. Em ambos os casos, trata-se justamente do tipo de fortuna crítica que justifica uma lista desta, por ser assim mais do que apenas uma estéril expressão de gosto (pessoal ou coletivo), mas ponto de partida para reflexões e a volta a certos filmes.

São outros 100
por Eduardo Valente
Há algumas semanas, o AFI (American Film Institute) "atualizou" sua lista de 100 melhores filmes americanos de todos os tempos. Sendo o AFI uma instituição cuja única função reconhecível é a de fazer eventualmente algumas listinhas de melhores (100 melhores comédias, 100 melhores suspenses, etc), seria de surpreender a atenção midiática que foi dada a mais esta lista canônica cheia de obviedades ou francas bizarrices dignas de quem nunca viu filmes - (como a inclusão nessa nova lista do primeiro filme da trilogia dos Anéis - que consegue o feito de ser o pior deles). Digo seria, porque não é como se não soubéssemos que a grande mídia "cultural" vive de repetir estes press releases sem pensar muito a respeito - e quando pensa, no máximo é para repercutir a justiça do julgamento (como se fosse caso de alguma justeza) ou propor cânones tão ou mais óbvios como alternativa. Pois para nós, leitores em português, a lista do AFI desta vez teve pelo menos uma utilidade seríssima: animou o crítico Filipe Furtado (da Paisà e Contracampo) a publicar no seu blog uma lista comentada de 100 títulos alternativos à escolha americana. O que a lista de Filipe (postada no dia 24 de junho de 2007 - para quem for pesquisar em arquivos) tem de diferente de outras vistas por aí é, acima de tudo, o verdadeiro conhecimento que ele tem do cinema americano e sua história, para muito além dos mesmos títulos repetitivos que sempre vemos lembrados em listagens do tipo. Por isso, pouco importa concordar ou discordar das idiossincracias da lista dele: seu conhecimento, unido a pequenas pílulas incrivelmente esclarecedoras sobre cada um dos filmes citados, serve mais do que tudo como um convite quase irresistível à pesquisa (alô, emule) por parte dos que amem o cinema de verdade, e que desejem aumentar o seu cabedal de contato com os vários cinemas americanos que a historiografia mais careta cisma de tentar apagar.
A lista do Filipe é tão boa, mas tão boa, que sinceramente dá vontade de que a AFI solte mais e mais listas só para ele nos apresentar suas alternativas.

Clodovil à solta em Brasília
por Eduardo Valente
Não culpamos o leitor se ele ainda não tiver se dado conta, mas algo de muito importante acontece na TV brasileira há duas semanas: estreou junto com a nova TV JB (que no Rio ocupa o espaço da antiga CNT) o novo programa do Clodovil. Até aí nada demais, exceto que precisamos nos lembrar que Clô agora é deputado federal – por conta disso, aliás, seu novo programa se chama Por Excelência, um trocadilho genial de fazer inveja a Zé Simão. Pois em seu novo programa, sua excelência Clodovil se auto-impõs uma missão: em suas palavras ele quer “fazer Brasília brilhar” e “mostrar que o político é quase um ser humano como outro qualquer”. E é aí que entra a revolução: pela primeira vez na história da TV nós temos um autêntico olhar de dentro da vida política feita por alguém que não conhece os seus meandros profundamente (ou seja, bem diferente das TVs Câmara ou Senado). É através da mistura da sua obsessão consigo mesmo (especialmente acentuada nessa fase “messiânica” de representante do povo), do desejo de explorar a “vida pessoal dos políticos” (um clássico a entrevista com Palocci no primeiro programa) e da ignorância completa sobre os temas da vida pública brasileira (na última edição Clô teve dificuldades de entender que o ministro das Cidades não era do PT ou porque o tal Ministério não cuidava só das grandes metrópoles, enquanto sua repórter – que cheiraria a paródia, não fosse séria – ia até o STF apenas para entregar um arranjo de flores à ministra do “Supremo Tribunal de Justiça”, tendo que se contentar com uma entrega ao Kaiser, seu secretário de comunicação, embasbacado) que o programa do Clô nos dá semanalmente a radiografia mais acurada da chanchada que é a vida política no Brasil. Coisa fina, que pode custar o emprego de muito humorista – ou escritores trágicos, conforme se olhe a coisa toda.

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