in loco Dia
8: As mentiras da verdade, a Verdade das mentiras (Resnais, Villeneuve) por
Eduardo Valente Les
herbes folles, de Alain Resnais (França, 2009)
– Competição Polytechnique, de Denis Villeneuve (Canadá, 2009) – Quinzena
dos Realizadores
OK,
admitamos de saída: não parece de todo justo colocarmos lado a lado o décimo-oitavo
longa realizado por um verdadeiro monumento do cinema, de quase noventa anos de
idade, e o terceiro longa de um realizador que nem chegou ainda aos quarenta.
No entanto, se por um lado poderíamos lembrar que o primeiro longa feito pelo
primeiro aqui citado, há exatos cinquenta anos (em idade ainda mais jovem que
a do canadense Villeneuve), foi e continuará sendo uma obra-prima que independe
totalmente de tudo que veio depois, por outro precisamos dizer que, quando se
coloca um filme num festival como o de Cannes, é preciso estar preparado para
ser colocado frente ao que de melhor e mais importante se fez ou faz em cinema
pelo mundo. E, afinal, o motivo principal para colocarmos estes filmes dentro
de um mesmo raciocínio fala menos de questões sobre talento e genialidade, e muito
mais sobre o entendimento do que significa, afinal, construir uma imagem de cinema
frente ao que podemos considerar como um conceito de verdade.
Tudo
isso vem à tona porque este filme do canadense Villeneuve se propõe a lidar com
uma das mais pregnantes tragédias da recente história canadense – e, ao escolher
fazê-lo da maneira que o faz, é como se o cineasta ignorasse (ou decidisse ignorar)
toda uma história do pensamento sobre como a ficção cinematográfica pode se relacionar
ou não com um fato destes (o que, no final das contas, nos faz inclusive voltar
ao próprio jovem Resnais – aquele que realizou coisas como Noite e Neblina
ou Hiroshima Meu Amor, lidando com algumas das maiores tragédias da humanidade).
Mas, talvez nem fosse caso de voltar tão atrás assim, afinal, ao tentar ficcionalizar
um massacre perpetrado numa universidade canadense por um jovem atirador munido
de um fuzil, talvez bastasse a Villeneuve lidar com algumas das questões e possibilidades
levantadas recentemente por Elefante, de Gus Van Sant – de resto, filme
que se torna tão inevitável quando se chega a esse tema como já foram os de Resnais
anteriormente. Não
que o filme de Van Sant (ou os de Resnais) apresentem um manual, a partir do qual
quem não o seguir estará seguindo caminho obrigatoriamente equivocado (tanto mais
quando, como Villeneuve faz, opta-se por planos seguindo personagens em corredores
de uma escola; ou ainda voltar a uma mesma cena vista anteriormente sob um novo
ângulo), mas é preciso sempre considerar que eles existem, expondo e impondo questões
a partir das quais um cineasta com um mínimo de consciência do que significa produzir
imagens precise se repensar na sua prática. Claramente tudo isso são questões
que escapam completamente a Villeneuve, que se coloca frente ao massacre da escola
canadense da maneira mais cínica e simplista possível. Primeiro, aparentando acreditar
ser possível (e/ou decente) simplesmente encenar “o que de fato aconteceu”. Segundo,
construindo um personagem real do homem que matou todas essas pessoas, dando-lhe
uma idéia tosca de “densidade psicológica” que permita explicar suas ações. E,
finalmente, aplicando aos dois exercícios anteriores, uma idéia de “arte” de profunda
ingenuidade, tanto pelas suas implicações quanto à noção de beleza estética, quanto
principalmente pela de desenvolvimento narrativo.
De fato,
o que Villeneuve faz aqui, sob o guarda-chuva de um discurso de “respeito e homenagem
às vítimas de algo que não se pode esquecer”, beira o pornográfico pela exploração
estética de ferramentas como o plano subjetivo de vítimas à beira da morte ou
desfoques “artísticos” de um evento, estilizado ainda em um preto e branco que
pretende um realismo de butique. Como se fosse pouco, ao propor um desenvolvimento
narrativo onde, segundo as convenções mínimas dos gêneros e da história do cinema,
provoca-se no espectador uma idéia de suspense, na espera pelo momento do massacre
– daí, pois, um desejo de que elas se concretizem na tela, algo nunca menos que
doentio como impulso criativo. Não é a menor das formas pelas quais o trabalho
“respeitoso” de Villeneuve no fundo justifica as ações do matador, pensado como
alguém que busca ter sua imagem eternizada de alguma maneira, transformado em
“protagonista”, ainda que póstumo. No meio de tantas imagens
francamente indecentes, o mais curioso é pensar esta estranha relação que um certo
cinema tenta manter com a idéia de ser “baseado em fatos reais” (algo que voltou
à tona hoje com a exibição na competição de À l’origine, o qual eu me eximo
de comentar por ter abandonado no meio da projeção – menos por ser tão afrontoso,
e sim por ser absolutamente banal, algo a que meus olhos e mente um tanto cansados
a esta altura não conseguem mais se conectar, ainda mais sabendo que duraria duas
horas e meia, como tantos filmes inchados que temos vistos no festival deste ano).
Afinal, há algo de muito estranho na maneira como o cinema (ficcional, é importante
ressaltar sempre) de alguns diretores parece precisar ir buscar na realidade não
apenas uma inspiração, mas a idéia de índice anterior automaticamente superior
e que empresta, de saída, “autoridade e respeito” ao cinema que se quer fazer. Pois,
dando sequência a este mundo (cinematográfico, não custa lembrar) que nos vinham
apresentando ontem os filmes de Almodóvar e Tarantino, onde o cinema pode ser
tão ou mais importante que qualquer “realidade”, tornou-se tão mais poderosa a
experiência de ver este novo filme de Alain Resnais, cineasta que certamente se
junta a Manoel de Oliveira como os realizadores do cinema mais jovem do mundo,
hoje. Resnais aprofunda neste Les herbes folles (senão necessariamente
no sentido qualitativo do termo, certamente no quantitativo) o que vem fazendo
no seu cinema desde os anos 80, mas em especial nos recentes Beijo na Boca
Não e, especialmente, Medos Privados em Lugares Públicos. Sua imagem
atinge um tal nível de frontalidade na sua construção assumida como tal – algo
que aqui ganha nova camada oriunda do texto original, já que o filme é baseado
em romance de Christian Gailly que já trabalhava muito essa idéia da “imperfeição”
do registro, de uma narração que, nem mesmo na voz do personagem que a vive-narra,
possui qualquer resquício de confiabilidade. Desta maneira, o filme assume uma
dimensão de múltiplas camadas de impossibilidade de atingir qualquer “verdade”
na narração (do personagem, do diretor, do filme mesmo como discurso) que, paradoxalmente
que seja, dão a ele uma verdade outra, muito maior do que qualquer “base em fatos
reais”, que é esta Verdade da Ficção.
Dentro deste olhar,
Resnais pode então exibir toda sua maestria que engloba o domínio da imagem (fotografia,
movimentação de atores, direção de arte, etc), som (especialmente a trilha sonora
de Mark Snow, mas também o uso do off) e montagem, realizando um filme
que beira (e atinge em muitos momentos) a perfeição de uma forma artística entendida
de cabo a rabo por quem a pratica. Ao espectador sobra o papel de mergulhar neste
mundo com o prazer de quem reencontra alguns velhos amigos de trajeto com Resnais
(André Dussolier tem aqui talvez sua maior interpretação – o que é dizer muito),
alguns novos (comprova-se a inteligência de atuação de Mathieu Amalric, que modifica
totalmente o seu “jogo” na medida que é pedida por cada diretor), mas acima de
tudo de quem reconhece um olhar sobre o mundo que não faz nada mais do que generosamente
ampliar nossa capacidade de olhar para a nossa realidade, ao abster-se dela como
índice. Afinal, como só mesmo Resnais poderia nos relembrar, trata-se de um filme
sobre esta que é uma das mais importantes questões com as quais o Homem jamais
se deparou: quando formos gatos, será que poderemos comer croquetes? Maio
de 2009
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