A sociedade na qual estamos mergulhados apresenta-nos
uma grande problemática: a formação do indivíduo mediante
os infinitos procedimentos de sujeição. Este problema
pode ser abordado de várias formas e por várias teorias,
mas torna-se urgente uma análise a partir dos dispositivos
de poder-saber na sua relação com a questão da verdade.
Em outras palavras, a constituição social do indivíduo,
a partir da construção de verdades, seja pelo mesmo ou
pelo outro, traz em seu bojo o jogo de forças do exercício
do poder, e é a análise deste exercício que se apresenta
como uma tarefa político-histórica necessária em nossa
sociedade atual. Foucault, em sua genealogia do poder
desde os anos 70, nos legou um belo trabalho nesse sentido.
O estudo da relação da verdade com o poder permitiu-lhe
diagnosticar, historicamente, os contornos do que chamou
de sociedade disciplinar, para além da sociedade
de soberania, caracterizando suas técnicas e desenvolvendo
dois conceitos que se cruzam: o de anátomo-política
e o de biopolítica ou biopoder — fundamentais
para o entendimento de uma disciplinarização dos corpos
em prol de uma economia da verdade.
Aqui temos: poder, sujeição, confinamento,
disciplina e verdade. A crítica do sujeito, já em prática
desde o anti-humanismo de Foucault dos anos 60, no fundo,
é uma crítica do poder na sua relação com a verdade.
Em uma aula do curso Em defesa da Sociedade,
ele explicita: “Não há exercício do poder sem uma certa
economia dos discursos de verdade que funcionam nesse
poder, a partir e através dele. Somos submetidos à produção
da verdade e só podemos exercer o poder mediante a produção
da verdade.”
[1] (Foucault, 2000, p. 28-29). Tendo isso
em mente, podemos perguntar: como se desenrolaria tal
crítica mediante o modelo social no qual estamos inseridos
hoje? Para Foucault, o foco de análise histórica são
as práticas, práticas políticas de dominação e evidência
da verdade perante o indivíduo. Dá-se, então, o encontro
com a biopolítica.
Anátomo-política e biopolítica
Para se chegar ao conceito de biopolítica
ou biopoder, que caracteriza a sociedade disciplinar
e ainda pertence à nossa atualidade social, é preciso
anteceder a um outro conceito, também muito trabalhado
por Foucault, e que de alguma forma se ancora como um
dos dois pilares do disciplinamento do século XVIII,
início do século XIX. De um lado, tem-se a expressão
do poder naquilo que Foucault chamou de anátomo-política;
de outro, o desenvolvimento das forças desse poder no
controle da vida em geral, a sua forma acabada em um
biopoder. Alguns comentadores preferem classificar tais
poderes em tipos de sociedade: sociedade de soberania,
sociedade disciplinar. Tal classificação didática é
válida, mas, por vezes, esconde uma série ou uma relação
com a qual é preciso ter uma atenção maior: a passagem
do suplício à anátomo-política e desta para a biopolítica,
ou seja, a idéia de que esses elementos se estruturam
melhor no exercício de racionalização do Estado; ou
ainda, a afirmação de que um é a preparação do outro
sem se auto-anular. Mais do que colocar essas respectivas
formas de poder em seus moldes sociais, busca-se uma
compreensão maior do jogo estratégico-relacional do
poder na atualização tecnológica e histórica em determinada
sociedade.
O estudo dessa passagem não anula a caracterização
diferencial das formas de poder nas sociedades acima
citadas; no entanto, parece-me que, ao mostrar o nascimento
da biopolítica, Foucault insiste em uma não cisão total
dessas formas.
Ora, durante a segunda metade do século XVIII, eu
creio que se vê aparecer algo de novo, que é uma outra
tecnologia de poder, não disciplinar dessa feita.
Uma tecnologia de poder que não exclui a primeira,
que não exclui a técnica disciplinar, mas que a embute,
que a integra, que a modifica parcialmente e que,
sobretudo, vai utilizá-la implantando-se de certo
modo dela, e incrustando-se efetivamente graças a
essa técnica disciplinar prévia. Essa técnica não
suprime a técnica disciplinar simplesmente porque
é de outro nível, está em outra escala, tem outra
superfície de suporte e é auxiliada por instrumentos
totalmente diferentes.
[2]
Na genealogia do poder, o interesse se
desloca unicamente para as práticas, para os processos
de subjetivação do indivíduo e do grupo social. Do suplício
dos príncipes, passando pelo disciplinamento dos corpos
para gerir a economia e chegando a uma incidência mais
eficiente do poder em seu caráter biológico-social,
diz Foucault, “o nível em que eu gostaria de seguir
a transformação não é o nível da teoria política, mas,
antes, o nível dos mecanismos, das técnicas, das tecnologias
de poder”. [3] A teoria política das sociedades fica
em segundo plano e a caracterização das tecnologias
aparece como o foco primário do poder.
Feita esta observação, podemos partir para
a conceituação dos elementos tão característicos da
sociedade disciplinar (anátomo-política e biopoder),
já em preparação para o que Deleuze, de alguma forma
continuando o trabalho foucaultiano, chamará de sociedade
de controle.
A anátomo-política, tecnologia própria
do início do século XVIII, vem corresponder com toda
uma eficácia física do corpo, necessária à época. O
nascimento da revolução industrial na Europa demandava
uma economia das ações e do tempo; para tanto, era preciso
uma disciplinarização do corpo, no sentido de torná-lo
dócil e apto ao sistema de produção. A análise dessa
“física do poder”, uma “ortopedia social” que não se
distancia dos novos tempos, dessa disciplina do poder,
que não é mais a do suplício (na qual o direito de morte
garantia o direito de vida do soberano), é muito bem
encontrada na obra Vigiar e Punir. Aqui, Foucault
dirá: “Uma ‘anatomia política’, que é igualmente uma
‘mecânica do poder’, está nascendo; ela define como
se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente
para que façam o que se quer, mas para que operem como
se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia
que se determina”. E terminará dois parágrafos à frente
com uma bela definição: “A disciplina é uma anatomia
política do detalhe.” [4]
O ambiente do exército, das escolas, das
fábricas, dos hospitais, poderíamos dizer, da mídia,
ainda nos conduzem a essa sujeição. A tecnologia disciplinar
incide sobre o corpo individual, sobre a vida individual,
e sua finalidade é a sujeição pela objetivação, por
um lado, mas, por outro, não deixa de objetivar e com
isso sujeitar. “A disciplina ‘fabrica’ indivíduos; ela
é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos
ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos do seu
exercício”. [5] Fabricação social que na época não era
ainda em grandes demandas.
As grandes demandas, o domínio coletivo,
não demorará muito a surgir. Em fins do século XVIII
e início do século XIX, o Estado percebeu a necessidade
de aperfeiçoar o processo de disciplinarização. Entra
em cena o outro elemento dessa sociedade que, em conjunto
com o trabalho do corpo individual, constituirá toda
uma incidência tecnológica da vida. Se a questão estava
invertida (não mais o direito de fazer morrer e deixar
viver, mas fazer viver e deixar morrer), com interesses
declaradamente econômicos-políticos, a razão do Estado
se voltará agora para o homem-espécie. A categorização
da população, da higiene, da saúde pública, da segurança
(com o seu mais fiel instrumento e que tanto continua
a normalizar o corpo: a polícia), farão parte desta
nova forma de exercício do poder: a biopolítica. Aqui,
não se trata mais de disciplinar o corpo, se trata da
“vida dos homens, (...), ela se dirige não ao homem-corpo,
mas ao homem vivo, ao homem ser vivo; no limite, ao
homem-espécie”. [6]
Foucault classifica o processo de regulamentação
da população pela biopolítica em três domínios: a) a
questão da natalidade, da mortalidade e da longevidade,
ou seja, é preciso fazer a vida se estender ao máximo
a partir da qualidade da higiene pública; b) a partir
do problema da velhice e dos acidentes e doenças, surgiram
as instituições de assistência, os seguros, as poupanças;
c) por fim, a preocupação com o espaço, com a organização
da cidade. Todos esses mecanismos aos quais a biopolítica
incidirá sua ação farão com que a população seja seu
objeto de regulação política. A conduta não mais do
homem como indivíduo disciplinado, mas da população
como contingente economicamente regulada.
O efeito disso será a construção de uma
sociedade que trabalha suas tecnologias de poder no
sentido de fazer da ação coletiva uma rentabilidade
cada vez maior. A racionalidade do Estado prepara, no
final do século XIX e início do século XX, com toda
a sutileza e aprendizado das antigas formas de poder,
o que estamos vivenciando cada vez mais no tecido social
e dentro de um processo inconsciente: mais do que disciplinar
e vigilante, a sociedade se caracteriza por um controle
virtual do indivíduo e da população. As novas tecnologias
do século XX (tecnologias audiovisuais, Internet, cartões
de crédito etc.), empreendendo o deslocamento das relações
de poder para o campo virtual, caracterizam a nova forma
do poder: a sociedade de controle.
Deleuze e a sociedade de controle
Em uma entrevista a Toni Negri, que a conduz
sempre na linha política, Deleuze critica os movimentos
revolucionários distinguindo-os da sua forma de se fazer
revolução: “Diz-se que as revoluções têm um mau futuro.
Mas não param de misturar duas coisas, o futuro das
revoluções na história e o devir revolucionário das
pessoas. Nem sequer são as mesmas pessoas nos dois casos.
A única oportunidade dos homens está no devir revolucionário,
o único que pode conjurar a vergonha ou responder ao
intolerável.” [7] O devir revolucionário é uma máquina de
guerra que tem à sua frente um grande inimigo, um novo
regime de dominação. Não mais, apenas, o confinamento
e a vigilância que seqüestram a vida do indivíduo e
da massa a qual ele pertence, mas o controle, que na
virtualidade do real modulam ilimitadamente a vida.
Estamos na vergonha e no intolerável, “estamos entrando
nas sociedades de controle, que funcionam não mais por
confinamento [não que os mesmos ainda não persistam],
mas por controle contínuo e comunicação instantânea”.
[8]
Vê-se, aqui, que os processos de comunicação
fundamentam muito bem esse tipo de sociedade e que o
devir não-revolucionário, em sua paralisia cerebral
e lingüística, a ela se ajusta. À “alegria do Marketing”
deve corresponder toda uma modulação universal do capital,
toda uma emulação das ações e do pensamento, toda uma
divisibilidade do indivíduo e toda uma tecnologia computacional
das redes em movimento. Vejamos
um pouco sua lógica, como bem a desdobrou Deleuze.
Do molde à modulação. Na sociedade disciplinar,
as formas de poder de confinamento apresentam e trabalham
dentro de uma linguagem analógica. No controle,
essa linguagem ganha um caráter de sistema e se expressa
numericamente, não necessariamente na forma binária.
A capacidade de variação dessa linguagem permite a escapatória
do molde, tão comum aos confinamentos da disciplina
(escola, fábrica, hospitais etc.), e a apresentação
dos controles como modulação. Deleuze dá o exemplo
da empresa que, ao substituir a fábrica, modula o salário
do empregado a partir de uma competição (formação) permanente.
Não se trata mais de moldar o indivíduo, mas de automodular
suas ações competitivas.
Da assinatura à senha. Na sociedade de
controle, se trabalha com a cifra, ou seja, com
a senha para obtenção ou não da informação. Não basta
mais assinar o nome, é preciso ter o cartão de acesso.
O indivíduo passou a ser dividual, pois está
separado de si mesmo e é lançado na massa populacional,
apreendida como amostra, mercado, como estatística financeira.
O dinheiro está longe da moeda e torna-se uma cifra
a ser modulada em transações econômicas. O controle
virtual do capital é a senha.
Da alavanca à informática. O sistema mecânico
simples cedeu à complexidade dos sistemas computacionais.
O grande acesso, via Internet, às mais possíveis compras
retrata bem a lógica do novo capitalismo: o importante
é a venda de serviços e a compra de ações. Nesse capitalismo,
“as conquistas de mercado se fazem por tomada de controle
e não mais por formação de disciplina, por fixação de
cotações mais do que por redução de custos, por transformação
do produto mais do que por especialização da produção”;
enfim, ele cria um homem que “não é mais o homem confinado,
mas o homem endividado”. [9]
Tais elementos nos lançam em um avanço
cada vez mais sutil sobre a vida. A sociedade de controle
é uma formação permanente das ações, da linguagem e
do pensamento; a mostra de uma bioestética à qual a
subjetivação, através do problema da verdade, está em
jogo.
O sujeito e os muros
Podemos agora nos situar melhor na estrutura
em que estamos vivendo e convidar-nos a um olhar mais
de perto sobre nós mesmos, as nossas formas de vida
e de se relacionar com os outros. Nesse quadro social
é preciso ter bem clara a imagem a qual o sujeito pertence,
a estética que construímos e resistência do acontecimento.
A televisão, com seus programas de competição e violência
(bestialização da vida), uma determinada forma de cinema,
a segmentação virtual da Internet com suas vendas e
rastreamento via endereço IP, os jornais e revistas
que se lêem, as cotações que comandam a economia, enfim,
há todo um controle disseminado nas relações sociais
nas quais o sujeito é colocado diante de um muro. Ora,
o muro deve ser atravessado, o corte aplicado e a criação,
como forma de resistência, uma possibilidade por vir.
O combate à verdade, ou melhor, ao jogo
estratégico que toma a verdade como elemento de fácil
relação de poder, a subjetivação que, mediante um trabalho
midiático, constitui sujeitos de manobra, a palavra
de ordem de uma tecnologia bioestética da vida, o capitalismo
na sua forma mais sutil de comando e as mais variadas
formas de aplicação do poder no seio da conduta social,
neste tipo de sociedade, são o alvo mais radical de
uma luta. Politicamente, não apenas teoricamente, a
vida está presa, ela é uma presa. Que estética de vida
devemos construir no sentido de escapar das amarras
do biopolítico? Talvez a questão pudesse ser bem colocada:
que resistências podem ser criadas a partir das forças
do biopolítico? Para toda ação uma reação, mas não,
deve-se completar, da mesma forma, pois a ação também
não o é. A questão não é derrubar os muros limitantes
da vida, mas criar formas de atravessá-lo, mostrar a
impotência de ser um muro, de estar lá, verticalizando
contra a vida. Talvez aí esta ganhe horizontalidade,
um horizonte não no sentido de ser um ponto a mais para
continuar, mas a simples continuação de um ponto que
deixará de ser ponto — será outra coisa qualquer.
Foucault nos mostrou a “sociedade de seqüestro”,
Deleuze aquela do controle, a da “fabricação da miséria
humana”. Contra as sanções dos muros, a abertura de
fendas; contra o sujeito do humanismo, o sujeito em
suas relações, ou seja, a construção do sujeito. É preciso
revelar os processos biopolíticos de uma certa estetização
da vida, de um certo controle da vida. Talvez nessas
palavras deleuzianas encontremos o que ele tanto suscitou:
“resistência ao presente”.
Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos
completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar
no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos,
mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar
novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volume
reduzidos. (...) É ao nível de cada tentativa que
se avalia a capacidade de resistência ou, ao contrário,
a submissão a um controle. Necessita-se ao mesmo tempo
de criação e povo. [10]
Acreditemos em Foucault e Deleuze e trabalhemos
para um povo em criação.
Referências bibliográficas
DELEUZE, Gilles e PARNET, Claire. Diálogos.
Trad. de Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998.
DELEUZE, Gilles. Controle e Devir. In: Conversações.
Trad. de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992.
_______________. Post-Scriptum: sobre as sociedades
de controle. In: Conversações. Trad. de Peter
Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992.
FOUCAULT, Michel. A Vontade de Saber. Trad. de
Maria T. da Costa Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal,
1997.
_________________. Vigiar e Punir: história da violência
nas prisões. Trad. de Raquel Ramalhete. Petrópolis:
Vozes, 2000.
_________________. Em Defesa da Sociedade. Trad.
de Maria E. Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
FOUCAULT, Michel. Em Defesa da
Sociedade. Trad. de Maria E. Galvão. SP: Martins
Fontes, 2000, p. 28-29.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir:
história da violência nas prisões. Trad. de Raquel
Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 119-120.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir:
história da violência nas prisões. Trad. de Raquel
Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 143.
DELEUZE, Gilles. Controle e Devir.
In: Conversações. Trad. de Peter Pál Pelbart.
São Paulo: Editora 34, 1992, p. 211.
DELEUZE, Gilles. Controle e Devir.
In: Conversações. Trad. de Peter Pál Pelbart.
São Paulo: Editora 34, 1992, p. 216.
DELEUZE, Gilles. “Post-Scriptum
sobre as sociedades de controle”. In: Conversações.
Trad. de Peter Pál Pelbart. SP: Editora 34, 1992,
p. 224. Toda essa caracterização da lógica da sociedade
de controle está nas páginas 221, 222, 223 e 224 deste
importantíssimo pequeno texto.
DELEUZE, Gilles. Controle e Devir.
In: Conversações. Trad. de Peter Pál Pelbart.
SP: Editora 34, 1992, p. 218.
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