|
órfãos da embrafilme
Limbo
por Pedro Butcher
Impossível,
aqui, não ser pessoal: os melhores anos de minha formação
cinematográfica coincidiram com os anos malditos do "cinema
brasileiro". Nasci em 1971 e atravessei a famosa "época
de ouro" da Embrafilme como tantas crianças da época:
assistindo aos filmes dos Trapalhões que estreavam, religiosamente,
todas as férias. Cheguei à adolescência em
meados dos anos 80 e, enquanto descobria Hitchcock, Orson Welles,
Buñuel e Godard no Cineclube Estação Botafogo
e na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio, deparava-me nos
jornais com textos que degradavam o "cinema nacional"
e associavam produtores e diretores à máfia.
Até que, em 1987, o Estação
Botafogo realizou uma retrospectiva de filmes de Nelson Pereira
dos Santos, com cópias novinhas. O primeiro que vi foi
Memórias do Cárcere (1984); o segundo, Vidas
Secas (1963). Foi um choque. Não era difícil
perceber que havia alguma coisa incrivelmente errada: o discurso
generalizante e maciçamente negativo martelado na imprensa
não correspondia aos filmes que eu estava vendo.
No auge da minha cinefilia (com o perdão
da palavra) vi, em circuito comercial, Filme Demência
(1986) e Anjos do Arrabalde (1987), de Carlos Reichenbach;
Inocência (1983) e Ele, o Boto (1987), de
Walter Lima Jr; O Homem da Capa Preta (1986), de Sérgio
Rezende; Fulaninha (1986), de Davi Neves; Brás
Cubas (1985), de Julio Bressane; A Dama do Cine Shangai
(1987), de Guilherme de Almeida Prado... Lembro-me, especialmente,
de Eu Sei que Vou te Amar (1986), de Arnaldo Jabor, visto
em uma sessão absolutamente lotada do cinema São
Luiz - uma tradicional sala do Rio -, algo praticamente impensável
hoje, pelo menos para um filme com esse perfil.
Em meados dos anos 80, enfim, os filmes brasileiros
ainda tinham presença considerável nas salas do
circuito comercial e conseguiam, em seu conjunto, índices
decentes de participação do mercado (22% em 1988,
18% em 1989), apesar de já bastante distantes dos cerca
de 30% alcançados dez anos antes. E o conjunto de títulos
descrito acima, se não representa um rol de obras-primas
absolutas, tampouco denota uma cinematografia em decadência
absoluta e inquestionável.
Essa experiência, resultante do contraste
entre o discurso em torno do cinema brasileiro e a apreciação
de parte desses filmes, foi decisiva no início da minha
trajetória como jornalista e crítico de cinema.
Em 1992, exatos dois anos após o fim da Embrafilme e do
Concine, comecei a fazer estágio no caderno de cultura
do jornal "O Dia" e, na época, escrever sobre
filmes nacionais era praticamente um tabu (e, na verdade, não
havia mesmo muito o que dizer, já que filmes brasileiros
passaram a ser coisa rara nos cinemas).
É
difícil, portanto, aceitar integralmente a ideia de que
Fernando Collor de Mello, ao assinar o decreto que pôs fim
à Embrafilme e ao Concine, em 1990, nada mais fez do que
"sepultar um cadáver que já estava morto",
como tanto tem sido dito por aí. Não pretendo, de
forma alguma, negar a decadência da Embrafilme e o fato
de sua estrutura estar viciada e, possivelmente, "podre"
- para usar um adjetivo fartamente publicado na época.
Mas o fato é que a forma absolutamente autoritária
e desgovernada que determinou esse fim causou um dano geral gravíssimo
não só aos filmes brasileiros, mas ao cinema como
um todo.
Houve um desmantelamento de uma estrutura de produção
e distribuição e, sobretudo, de um manancial de
informações fundamental, que provocou um imenso
retrocesso dos pontos de vista cultural, econômico e político.
Os arquivos da Embrafilme, supostamente, foram transferidos para
agentes privados, mas, de fato, se dispersaram de forma incontrolada
e praticamente desapareceram. Foram por água abaixo informações
e séries históricas, entre outros dados. Para se
ter uma ideia, hoje ninguém sabe de fato qual foi o público
de Guerra nas Estrelas (1977) no Brasil.
É evidente que, para os filmes brasileiros,
o dano foi bem maior. Não se deve, absolutamente, atribuir
a Fernando Collor a culpa exclusiva pelo cenário de "terra
arrasada" que se sucedeu ao fim da Embrafilme. Sua lógica
centralizada e estatizada estava, sim, em franca decadência;
cineastas e produtores desgastavam-se com um discurso protecionista
e corporativo, buscando defesas quixotescas contra o inimigo (o
"cinema estrangeiro"), protegendo-se sob a máscara
ideológica do "cinema brasileiro". Essa mesma
máscara, generalista e redutora, voltou-se contra a própria
classe cinematográfica quando toda a mídia elegeu
o "cinema brasileiro" como inimigo e passou a atacá-lo
sem dó nem piedade.
Mas o dano poderia ter sido menor caso o processo
de extinção da Embrafilme e do Concine não
tivesse jogado fora o bebê junto com a água suja.
A decisão de por súbito fim à empresa não
fazia parte de uma política para a cultura; ao contrário,
foi o índice de um vazio profundo cuja principal consequência
foi um imenso vácuo e um retrocesso que atingiram igualmente
a todos os cineastas, produtores, artistas e técnicos,
independentemente de suas qualidades e posições
políticas. Durante o nebuloso processo de liquidação
da Embrafilme, 12 coproduções internacionais foram
suspensas, mais de três mil cópias já prontas
ficaram retidas sem destino e contratos assinados foram simplesmente
ignorados.
Enquanto Fernando Collor esteve no poder, nada
foi feito para dar alguma forma de suporte à produção
ou à distribuição. Estima-se que os índices
de participação de mercado dos filmes nacionais
entre 1992 e 1994 não tenham chegado a 1% por ano. Apenas
depois da renúncia de Collor (em 1993, antes da votação
final do impeachment), com a posse de Itamar Franco, começou
a ser esboçada uma nova política para o cinema -
ainda que questionável. Seu principal defensor foi o produtor
Luiz Carlos Barreto, que, ao lado de Paulo Mendonça (hoje
diretor do Canal Brasil), formulou as ideias básicas da
Lei do Audiovisual, toda baseada em um sistema de incentivos fiscais.
De alguma forma, a sistemática dessa nova política
seguia a lógica da plataforma governamental de Collor,
transferindo para o setor privado a gestão de recursos
públicos.
Nos anos do governo Collor, o "cinema brasileiro"
tornou-se para os agentes do mercado, sem exageros, uma doença.
Antes da criação da Riofilme pela prefeitura do
Rio, em 1992, procurando ocupar parte do vazio deixado pela Embrafilme,
imperava uma rejeição absoluta aos filmes nacionais.
Distribuidores não queriam distribuir e exibidores não
queriam nem ouvir falar em exibir os filmes brasileiros prontos,
que já eram poucos. Essa condição gerou,
entre cineastas e produtores, a necessidade de provar competência
e recobrar a legitimidade perdida. Era preciso "dar a volta
por cima".
O
Festival de Gramado de 1990 foi absolutamente sintomático
nesse sentido. Durante o evento, a atriz Tônia Carrero leu
uma carta aberta ao presidente da República, assinada pelos
cineastas, em protesto contra o processo de extinção
da Embrafilme. Seis filmes foram selecionados para a competição:
Stelinha, de Miguel Faria; Barrela, de Marco Antônio
Cury; Beijo 2348/72, de Walter Rogério; O Escorpião
Escarlate, de Ivan Cardoso; e Real Desejo, de Augusto
Sevá. Eugênio Bucci, repórter da Folha de
S. Paulo que cobria o festival, escreveu no balanço do
evento: "Claustrofobia e decadência. Entre a safra
medíocre dos filmes do 18º Festival de Gramado, o
curta-metragem vencedor, Arabesco, era claustrofóbico,
narrando a investida absurda de dois ladrões a um estúdio
sem saída, e o longa vitorioso, Stelinha, era o
retrato mais rude de uma velha cantora de sambas, nacionalista,
vencida pelo mercado de rock, bêbada, decadente e desgraçada.
Exprimiram, em suas objetivas céticas e tristonhas, o primeiro
de dois componentes do saldo de Gramado 90: a falência,
patética, de um modelo de se fazer cinema no Brasil".
De fato, a trajetória de Stelinha, veterana
cantora brasileira vivida por Ester Goes (estranhamente dublada
pela voz superjovem de Adriana Calcanhoto), pode ser vista como
uma grande metáfora/síntese do discurso dominante
em torno do cinema brasileiro: uma atividade decadente, vítima
de circunstâncias fora de seu controle. Cantora de samba
e MPB, Stelinha encontra um jovem cantor de rock (Marcos Palmeira)
que a idolatrava na juventude. É um encontro desiludido,
em que ficam claros os motivos para o ostracismo de Stelinha,
uma vítima de seu próprio caráter autodestrutivo
mas, também, uma vítima do império do rock,
o "inimigo estrangeiro". Na inflação de
prêmios que sempre caracterizou Gramado, o filme de Miguel
Faria Jr ganhou nada menos que 11 Kikitos.
Naquele mesmo ano, o Festival de Brasília
praticamente repetiu os filmes de Gramado. E nos anos seguintes,
por absoluta falta de filme, Gramado deixou de ser um festival
de filmes brasileiros para passar a ser latino.
De certa forma, o "trauma" desse período
determinou a características de vários filmes do
período da chamada "retomada" e ainda ecoa no
cinema feito hoje. Se, em alguma medida, o projeto Embrafilme
gerou avanços nos sempre problemáticos campos da
distribuição e da exibição, sua extinção
gerou um imenso retrocesso que reativou, com toda força,
o antigo discurso de proteção à produção
nacional: fazer filmes, não importa para quem nem para
quê. Nesse cenário, surgem criaturas estranhas, obras
em ponto de vista definido, em alguns casos condenados à
invisibilidade.
Outro
detalhe que desponta com força nos filmes do período
é a igualmente problemática relação
entre cinema e TV no Brasil. De certa forma, o fim da Embrafilme,
antes que uma derrota política e econômica, marca
um esvaziamento definitivo do cinema como "espelho do país",
uma "função social" que a TV assumiu com
amplos poderes, num campo tenso e de grande desequilíbrio
de forças. Não por acaso, constam nessa mostra um
filme dirigido por Walter Avancini, Boca de Ouro (1990),
e o irônico Capitalismo Selvagem (1993), de André
Klotzel.
Avancini talvez seja o representante máximo
de um projeto que procurou "elevar" a produção
de TV a uma "qualidade cinematográfica", e que
encontra seu ápice em meados dos anos 80, notadamente nas
minisséries "Anarquistas, Graças a Deus"
(1984) e "Grande Sertão Veredas" (1985), da TV
Globo. De certa forma, sua passagem para o cinema, com a adaptação
da peça de Nelson Rodrigues, é melancólica.
Em Capitalismo Selvagem, por sua vez, Klotzel realiza uma
curiosa paródia do folhetim melodramático, gênero
que impera nas novelas da TV Globo.
Mas a condição realmente estranha
desses filmes talvez seja sua invisibilidade: são imagens
que praticamente ficaram na lata e não encontraram a luz
do projetor - filmes-fantasmas, condenados a um certo limbo da
cultura brasileira.
Fevereiro de 2010
editoria@revistacinetica.com.br
|