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órfãos da embrafilme
Depois do vendaval
por Carlos Reichenbach
Para
início de conversa, eu realizei um único filme em
parceria com a Embrafilme: Filme Demência (1986).
Foi a experiência de produção mais atribulada
da minha carreira profissional; não por culpa da Embrafilme,
mas por conta da crise econômica que assolou o país
no começo dos anos 80. Não deixa de ser irônico
que um filme cujo tema era justamente a desvalorização
do homem provocado pela fratura econômica - cuja gênese
do roteiro era uma afirmação de Ítalo Calvino
a respeito desta perversão: "A inflação
destrói os valores intrínsecos e afetivos do ser
humano." - tenha tido a sua filmagem interrompida por três
vezes devido à inflação e à indisponibilidade
de verba do órgão estatal.
Ou seja, não me enxergo como um caso típico
de "órfão da Embrafilme", porque nunca
fui seu dependente. No entanto, percebo com clareza até
hoje as sequelas do trauma de sua extinção. Nesse
sentido, o cinema brasileiro como um todo ficou órfão,
não especificamente da Embrafilme, mas do Estado como "parceiro"
da atividade.
Não tenho o direito de reclamar da Embrafilme,
porque nunca a procurei. Fui procurado por ela quando Lilian
M. (1975) e Amor, Palavra Prostituta (1981) receberam
o aval de Hubert Bals, criador e diretor (na época) do
Festival de Roterdã, e de Jacques Ledoux, diretor da Cinemateca
de Bruxelas.
Minha escola é a da produção
independente. Filme Demência foi meu nono longa metragem
(sem contar os filmes em episódios). Fiz filmes como mero
contratado e outros participando diretamente de sua produção.
Alguns se pagaram em apenas um mês de exibição,
outros não cobriram nem o custo de seu lançamento.
Todos, de uma forma ou de outra, independeram da parceria com
o Estado.
No período Collor, eu e mais outros cinco
cineastas - formados pela adversidade - ensaiamos uma saída
independente e inovadora ao fundar a Casa de Imagens. Durante
três anos trabalhamos intensamente num projeto de filmes
"em pacote": seis filmes de baixo custo a serem realizados
um após o outro. O mais engraçado desta experiência
foram os cursos de executivos que fomos obrigados a fazer, ao
lado de altos funcionários de majors estrangeiras. Ridícula
ou não, a experiência gerou um projeto substancial
e estimulante que serviu de modelo em vários seminários
de cinema profissional no exterior.
A Casa de Imagens levou dois anos e meio para
conseguir destrinchar e entender a tal Lei da Remessa de Lucros,
que os anos Collor propunham como panaceia para a produção
cultural. A uma semana de assinar, finalmente, o contrato de produção
de seis filmes com o banco holandês NMB Bank, a lei caiu
por terra. Evidentemente, resolvemos acabar com a empresa.
O trauma foi tão grande que eu, particularmente,
resolvi abandonar a profissão e voltar a estudar música;
uma atividade que sustentou inclusive meus estudos de cinema na
extinta Escola Superior de Cinema São Luiz. Durante dois
anos e meio eu não queria nem ouvir falar em cinema. Mergulhei
de cabeça no aprendizado das novas tecnologias aplicadas
à criação musical e timbrística. Fui
estudar composição e arranjo com alguns de nossos
melhores músicos de vanguarda, entre eles Wilson Sukorski.
Comecei a montar um pequeno set-up de teclados, módulos
timbrísticos e mesa de PA em meu quarto. Compus vorazmente
numa óbvia tentativa de sublimar o máximo possível
o meu desejo de fazer filmes. Estava resolvido a montar uma empresa
familiar de som, quando fui procurado pela amiga e diretora de
produção Sara Silveira, que tinha acabado de receber
uma indenização de trabalho e me propôs entrar
na sociedade. Fundamos a Dezenove Som e Imagens, cuja "imagens"
só entraram no nome por absoluta insistência dela.
Na virada dos anos 90, com a inflação
do país ainda incontrolável, a Secretaria de Cultura
do Município de São Paulo, durante a gestão
de Marilena Chauí, lança um edital de co-produção
de filmes de baixo custo. Sara insiste em apresentar um projeto.
Depois de alguns percalços, lembro de um antigo roteiro,
parcialmente autobiográfico, chamado "Alma Gêmea".
De certa maneira, o tal roteiro caia como uma luva dentro das
limitações de orçamento do edital, sobretudo
o fato da ação do filme ocorrer dentro do Estado
de São Paulo.
Resumo da ópera: o projeto foi um dos cinco
contemplados com o tal prêmio de incentivo à produção,
o que nos impôs realizá-lo. Foram dois anos de trabalho
intenso, extenuante, de um enfrentamento diário com a galopante
inflação da época.
Hoje,
à distância, tenho a certeza que ele só virou
realidade por alguns motivos: a) as mudanças substanciais
do antigo roteiro, que se tornou integralmente autobiográfico,
ao misturar experiências pessoais com as de meus melhores
amigos de infância e adolescência e, por isso, ter
ganhado um novo título; b) termos canalizado o grosso da
verba de produção para a direção de
arte e reconstituição de época; c) levar
à última instância a melhor lição
que aprendi em anos de convivência com a falta de condições:
filmar o mais caro, complicado e difícil do roteiro na
primeira semana de filmagem; d) ter composto, arranjado e executado
toda a trilha sonora com antecedência, no meu quarto, no
meu minúsculo set-up, e ter trabalho essa trilha como elemento
essencial do roteiro final; d) o furor de energia e entusiasmo
da produtora Sara Silveira e sua determinação em
levar o filme até a cópia final; e) a cumplicidade
absoluta da montadora Cristina Amaral, que além de ter
dedicado quase dois anos de sua vida ao filme, atuou como uma
espécie de co-roteirista dentro de todo o processo, particularmente
nas sequências onde a música atua como personagem
e as que envolveram a utilização de imagens captadas
pelo meu pai na década de 50 em Hong-Kong, Macau e Honolulu.
Para se ter uma ideia do que era filmar naquele
período, basta lembrar que o orçamento na época
em que o edital de co-produção foi publicado equivalia
a 70% do que o filme iria custar. Quando a verba foi liberada
aos produtores essa percentagem já havia caído,
por conta da inflação, em quase cinquenta por cento.
Em suma, Alma Corsária (1993) foi realizado com
30% de seu orçamento inicial. Duvido que os outros filmes
finalizados no mesmo período e com os mesmos meios tenham
tido sorte diferente.
Por estas e outras tenho até hoje um apreço
e interesse pessoal por filmes como A Terceira Margem do Rio
(1993), Capitalismo Selvagem (1993) e Perfume de Gardênia
(1992), porque sei, na pele, o valor real de suas existências.
Fevereiro de 2010
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