| in loco - cobertura dos festivas
Garota Explosiva (The Exploding Girl), de
Bradley Rust Gray (EUA, 2009) por Eduardo Valente
Sozinhos
juntos
No primeiro plano de Garota Explosiva,
estamos fechados no rosto de Ivy, visto por detrás do vidro de um carro que reflete
a paisagem do céu e das árvores e que torna difícil entrever as suas expressões.
É uma imagem extremamente próxima, mas ao mesmo tempo irremediavelmente distante,
e por isso mesmo é uma condensação precisa do que este Garota Explosiva
parece querer tratar, acima de tudo: do fato incontornável de que, por mais que
tentemos nos aproximar de uma pessoa, existe algo dela que continuará eternamente
impossível de ser tocado, alcançado. A sabedoria de que existe uma parte de todos
nós que será sempre restrita a cada um (como se encontra escondida neste primeiro
plano a expressão do rosto de Ivy, por mais perto que estejamos dela) é o que
enche este Garota Explosiva de uma imensa melancolia, por mais que seja
um filme que também tente afirmar a força dos laços afetivos e que busque filmar
com enorme atenção a poesia possível da vida pequena. Acompanhamos
alguns poucos dias na vida de Ivy, quando seu melhor amigo de muitos anos acaba
precisando ficar hospedado com ela na casa da mãe dela, justamente quando o namorado
de Ivy está numa viagem. Entre a distância do namorado, cujas ligações telefônicas
resultam sempre truncadas, e a proximidade deste amigo cujas intenções sobre Ivy
são um mistério (e vice-versa), a cada plano fechado do rosto de Ivy (e são muitos
ao longo do filme), ela se fecha cada vez mais dentro de si, como que confirmando
para nós essa solidão e mistério originais. Não que haja nenhum tipo de disfuncionalidade
nas relações com a mãe, com o amigo, com o namorado: há apenas a barreira que
se estabelece entre estes dois abismos que sempre serão quaisquer dois corpos
humanos, independente do amor e do carinho que se sinta pelos outros. O que vemos,
então, na medida em que se acumulam os sentimentos, é uma jovem mulher literalmente
à beira de explodir (inclusive a tradução ideal não seria “explosiva”, mas sim
“prestes a explodir”), algo que o filme torna físico até, uma vez que Ivy sofre
de epilepsia – num desenvolvimento que não é hiperexplorado, apenas criando uma
sensação de constante desconforto e fragilidade. A
maneira como Bradley Rust Gray explora este sentimento é ao mesmo tempo muito
sutil e precisa, sem qualquer resquício de frieza: sua câmera está sempre posicionada
à distância, usando lentes teleobjetivas que, além de condensarem o mundo em volta
de Ivy, também a deslocam do seu entorno pelo uso do foco. Ivy circula o tempo
todo em sociedade, não sendo de maneira alguma uma ermitã, mas ainda assim está
sempre fundamentalmente só. No entanto, o filme não afirma este fato com pessimismo
ou fatalismo, mas apenas pelo que é: uma constatação. Porque ao mesmo tempo em
que Ivy está só, ela nunca deixa de buscar o contato possível com o entorno, como
o plano final deixa claro. Um plano que ao mesmo tempo que nos lembra do tanto
que se pode fazer para apaziguar este sentimento de despertencimento, não chega
a propor que haja uma solução final para ele. Se trata, de fato, de um dos mais
tristes finais felizes do cinema. Outubro de 2009editoria@revistacinetica.com.br
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