| ensaios - especial retrospectiva 2007
Uma imagem, que nasce de outra imagem, que nasce... por
Cléber Eduardo Um artigo de retrospectiva,
se pode ser pautado pela hierarquia estética, atravessando os filmes segundo critérios
valorativos, também tem outros caminhos, procurando no ano cinematográfico questões
de seu tempo histórico – não porque essas questões são anteriores ao cinema, mas
porque nascem dos próprios filmes em resposta a seu momento. É evidente que há
hierarquias. Mesmo lidando com conexões de questões e não com uma seleção de melhores
do ano, as escolhas de quais obras abordar são determinadas pela importância de
cada uma na percepção do crítico.
No
caso específico de 2007, juntando lançamentos cinematográficos no circuito e primeiras
exibições no país por meio de mostras internacionais, um aspecto se destaca: a
imagem como componente diegético da imagem dos filmes. Entre os trabalhos mais
valorizados por este crítico na temporada, a construção de imagens dentro da imagem
do filme, não como mero componente de tramas e intrigas, mas como questão realmente,
pontuou como protagonista ou coadjuvante oito criações: Maria (Abel Ferrara),
Redacted (Brian De Palma), Os Anjos Exterminadores (Jean Claude
Brisseau - foto acima), Jogo de Cena (Eduardo Coutinho), Santiago
(João Moreira Sales), Le Voyage du Ballon Rouge (Hou Hsiao Hsien), Não
Estou Lá (Todd Haynes) e Medos Privados em Lugares Públicos (Alain
Resnais). Como em 2008 já temos dois filmes, entre os lançamentos, nessa mesma
múltipla linha de conduta, caso de Ponto de Vista e Cloverfield
(que Eduardo Valente analisa aqui) percebe-se que não se
trata de fenômeno isolado.
Potência da imagem e sua moral Em
Maria, há um cineasta obcecado por um filme em vias de ser lançado e que,
por tratar do Cristo, gera polêmica. Há ainda um apresentador de programa de entrevistas,
um dos potencializadores dessa polêmica, que, na mesa de edição, tal qual o diretor
do filme controverso, formata imagens/sons para atingir suas metas. Nos dois casos,
questões éticas, em alguma medida, estão embutidas. O que se pode mostrar? Como
se pode mostrar? Quais os limites da imagem quando se lida com crenças e com pensamentos
alheios? Pode-se tudo em nome dos efeitos pretendidos? O fato das imagens do filme
e do programa de entrevistas lidarem com o conceito de fé, que independe de imagens
para se sustentar, torna essa relação mais complexa.
Um
e outro são afetados por suas obsessões, um com convicção, outro em crise, um
cego em suas certezas, outro míope em suas dúvidas, ambos conectados a uma atriz
convertida em pregadora, transformação gerada pela visão do Cristo (não pela imagem
dele, mas pela visão dele). Ferrara se enfia em um labirinto de imagens movediças,
sem dar o caminho do certo e pleitear um programa ético-filosófico, mas consciente
da armadilha na qual está inserido, sem nenhuma distância em relação às armadilhas
nos caminhos de seus personagens. Há uma incerteza em Maria que só engrandece
suas imagens. Não é uma incerteza da instância narrativa, mas uma incerteza plantada
por ela, tanto em relação à construção dos personagens masculinos, que ganham
novas camadas conforme o filme se aproxima do final, com o cineasta aparentemente
cínico e oportunista revelando sua enorme paixão pelo próprio filme e com o entrevistador
de televisão nos mostrando as fissuras de sua vida voltada para o trabalho. Não
poderia haver distância maior, nesse sentido, da moral estabelecida em Redacted,
de De Palma – se não pela instância autoral do filme (algo para lá de questionável),
ao menos pela visão final de seu protagonista/documentarista. E essa moral da
imagem, de quem filma com quem é filmado, também é central em Santiago
– no caso, não para o personagem do mordomo filmado pelo documentarista João Moreira
Sales, mas para a narração de João Moreira por meio da voz de seu irmão. Sem de
forma alguma colocar em xeque o valor dos dois filmes, cada um deles sobre os
métodos questionáveis de seus personagens-cineastas, parece um tanto explícito
em ambos que, se não postulam quais são as estratégias certas para filmar determinadas
situações (a presença dos soldados americanos no Iraque registrada com lentes
vampirescas por um deles e a memória de um mordomo em sua relação com a câmera
do filho do patrão ), De Palma e Moreira Sales acusam erros de procedimentos.
Nos dois casos, há mea culpa. Em Redacted,
embora o soldado com a câmera busque a verdade absoluta, sem filtros, sem interferências,
com uma neutralidade abjeta na circunstância chave (um estupro programado friamente),
ele muda de discurso ao final. Constata a necessidade de se posicionar quando
está filmando, de intervir, de deixar a imparcialidade de seu olho de lado para,
se for o caso, interferir na realidade filmada. Em um certo sentido, no caso o
sentido histórico do cinema, De Palma veta o cinema direto, ao menos aquele de
linha observacional, e solicita a evidência da voz do realizador (voz como discurso,
como posicionamento). Não deixa de haver algo de auto-análise de De Palma em relação
a seu próprio cinema, sempre com um ou dois pés na amoralidade da imagem, sem
cercá-la de limites e de proibições, justamente porque está nesse jogo de revelação/recuo
com o espectador, de modo a sempre transportá-lo para onde deseja antes de revelar
o caminho do transporte. Já
em Santiago, quando se auto-critica por intervir demais na relação câmera/personagem
enquanto filma o mordomo, Moreira Sales, além de adotar um claro posicionamento
diante de seu própria obra inacabada e interrompida, sugere a necessidade, ao
contrário de De Palma, de calar um pouco a voz do autor, ao menos no documentário,
porque essa voz pode formatar os personagens, moldando-os conforme as necessidades
do cinema ali em andamento. Os dois diretores colocam essa moral da imagem em
questão e, se os dois mostram erros exemplares e a serem evitados na captação
de imagens, um reproduzindo o procedimento julgado (De Palma) e o outro analisando
os procedimentos para exorcizá-los (Moreira Salles). Nos dois casos, a objetividade
da imagem é acusada de ser falaciosa: um porque a constrói com artifícios; outro
porque mostra tudo, mas não o extracampo da imagem, ou seja, a atitude de quem
está atrás da câmera. Porém, a atitude por trás da câmera (a grande questão nos
dois casos), é a própria atitude da câmera: ela reivindica um número em Santiago
e observa um evento em Redacted.
Esquivas verdades
da imagem Jogo
de Cena passa longe desse questionamento moral para a imagem e se aproxima-se
de Le Voyage du Ballon Rouge, ao menos se tivermos como parâmetro a fusão
da encenação de si com a encenação do outro em um (o de Coutinho) e da encenação
no filme com a encenação de um filme no outro (o de Hou Hsiao Hsien - foto ao
lado). Rompe-se uma fronteira entre o estatuto da imagem nos dois casos, embora,
no de Coutinho, o jogo de cena não é desarmado por inteiro para o espectador e,
no de Hou Hsiao Hsien, esse jogo é mais destrinchado com o transcorrer do filme,
mostrando-nos que imagens mostradas antes, assimiladas como experiências dos personagens
no filme, na verdade eram imagens de um filme realizado por uma personagem.
Há
algum sentido em se tatear a verdade com essas imagens? Não importa nesses dois
exemplos somente a linguagem cênica e estética, assim como seus efeitos, sem precisarmos
levar em conta a demarcações e delimitações? Não há apenas presenças? Não é outro
o caso de Não Estou Lá, de Todd Haynes, que, ao multifacetar Bob Dylan
pela multiplicação de atores e experiências, sem sequer usar o nome do compositor/cantor,
a rigor não chega a uma imagem-síntese, que possa, inclusive, explicar essa multiplicidade
de personalidades em torno de uma mesma imagem quebrada, de um espelho espatifado
em pedacinhos não mais juntáveis em uma única superfície. Dylan não está lá, como
unidade, estando lá como variedade de si mesmo. No filme, há um docu-jornalista
que, à espera de coerência ou de uma matriz explicativa para o camaleão musical,
tenta investigar quem há por trás da imagem. Não há nada. Só existe a imagem.
Na verdade, as imagens. Haveria algo por trás da imagem
dos vídeos eróticos supostamente realizados por uma secretária em Medos Privados
em Lugares Público (Alain Resnais)? Só performance corporal/libidinal, que
nada explica sobre a personagem (um ouvido atento à fala dos outros, mas com uma
fala pouco reveladora), que mostra seu poder de ação na vida dos outros como,
se, por meio da imagem, pudesse injetar vida em quem a experimenta a mediação
visual. Não deixa de ser curioso que, enquanto a imagem erótica estimula a vida,
a experiência do erotismo apressa a morte de um velho. Uma imagem funda a vida
a partir de uma experiência motivadora da morte. Também
é nesse limiar entre experiência e imagem de experiência que se move o cineasta
obcecado pela investigação da sexualidade feminina em Os Anjos Exterminadores,
de Jean Claude Brisseau, que troca a experiência direta pela experiência mediada
pela câmera como forma de aproximação com a intimidade das mulheres, suas atrizes,
a nos lembrar um tanto do comportamento do protagonista de sexo, mentiras e
videotape, de Steven Soderbergh, mas com um grau de complexidade erótica muito
superior ao esquematismo de psicanálise fast food do filme americano. Brisseau,
ao contrário de Soderbergh, salta no escuro. Ele e seu personagem. Ambos entram
em uma aventura sem saber onde podem chegar.
Não deixa de
ser curioso que, no extracampo do filme, haja uma outra história de imagens. Os
Anjos Exterminadores refere-se indiretamente ao processo judicial movido
contra o diretor por atrizes de seu filme anterior, que se sentiram manipuladas
e vulneráveis no assédio sexual estético empreendido pelo cineasta na filmagem
e na construção da imagem delas de uma maneira geral. Estamos aqui, como em Maria,
Santiago e em Redacted, no terreno do poder. O poder do diretor
sobre suas imagens, o poder das imagens sobre os personagens/atores/pessoas. Imagens
geradoras de processos jurídicos, processos geradores de outras imagens, nos colocando
de volta, sempre, nessa reflexão sobre os limites da imagem, sobre a fronteira
entre imagens possíveis e imagens legítimas (ou simplesmente legitimadas). Em
um mundo cada vez mais mediado por todo tipo de imagens, por todo tipo de procedimentos,
o cinema volta para si mesmo para se colocar em questão. Março
de 2008 editoria@revistacinetica.com.br
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