Defesa das falas em um filme silencioso
por
Cléber Eduardo
Solidão (Lonesome), de Pál
Fejos (EUA, 1928)

Se
o espectador souber de antemão sobre as três seqüências com diálogo, como fez
questão de informar Carlos Roberto de Souza na apresentação da sessão do filme
na Jornada do Cinema Silencioso, Solidão perde o efeito-surpresa do som
das palavras – mas tem esse suposto choque na percepção substituído pela expectativa.
Se soubermos das reprovações de parte dos críticos da época, sobretudo dos defensores
incondicionais do específico cinematográfico, da ausência de som como condição
dessa arte, também nos preparamos para nos posicionar diante desses três momentos
dialogados.
Diziam esses críticos que, nos tais três momentos,
o fluxo fílmico é interrompido. Somos retirados de um cinema com mobilidade e
fluidez para sermos instalados em uma armação cênica teatral, mais associada ao
cinema dos anos 10. Em outras palavras, se ouvidas, as palavras seriam um retrocesso.
Provocariam uma volta ao período anterior, em que o cinema, para esses mesmos
críticos, ainda não havia se libertado de sua teatralidade. O som pressupunha
uma rigidez no set de filmagem e na plasticidade. É uma justificativa mais ou
menos comum dos que condenavam o som no cinema nos anos 20 e 30.
Mas,
nada como a distância histórica para atravessar os discursos críticos, sem deixar
de levá-los em conta, e reter novamente as imagens dentro de sua lógica interna,
sem submetê-las às mesmas exigências e estratégias de julgamento de oitenta anos
antes. Pois as três seqüências dialogadas de Solidão, ao contrário de quem
as reprovou então, e de quem reproduz ainda hoje essa reprovação, são profundamente
amalgamadas à organização do filme. Mas só se pode aceitar essa afirmação se pensarmos
a organização como um sistema, não como uma unidade narrativa ou de repetições
de padrões. Ou seja, só se pensarmos seus efeitos para além de suas intenções,
dentro de seu andamento.
Não se está supondo que a dificuldade
técnica, inerente ao processo de se filmar com som direto em 1928, seja detalhe
a ser desconsiderado, mas sim que não seja, por conta da inevitabilidade dessa
dificuldade, somente assim considerado, como um sintoma circunstancial. Porque,
ao vermos essas três seqüências em Solidão, o sintoma circunstancial se
potencializa, tornando-se parte constitutiva e enriquecedora da organização fílmica,
estética e dramática. Mas, antes de irmos aos três diálogos e à razão dessa afirmação,
levemos em conta as outras características de Solidão, até mesmo para se
melhor evidenciar a pertinências das seqüências dialogadas.
A
primeira aproximação inevitável é com as sinfonias de cidades dos anos 20 (sobretudo
Berlim: Sinfonia de uma Cidade, de Walter Ruttmann, e A Turba, de
King Vidor). Em geral, o discurso crítico e histórico relativo a esse segmento
do cinema fala muito em visão futurista e celebratória do progresso. Há em Solidão
uma resistência à impessoalidade da multidão: procura-se a manutenção de um romantismo
na modernidade, transformando o efêmero no espaço público em projeto de vida na
intimidade, emitindo elogios de integração na mesma classe social, sob a desculpa
da arrogância dos mais ricos. Há o sonho da felicidade na classe operária em Solidão.
Um homem e uma mulher, ambos solitários, dedicados ao trabalho, abertos aos
acasos do carnaval, período de folga dos papéis sociais.
A
modernidade ali posta em cena esvazia, digamos, relações de comunidade, de modo
a ser gerida pela idéia de comunidade de indivíduos em deslocamento. Também é
integradora, no caso, em seu espaço público e no deslocamento: integração no efêmero.
Essa é a situação histórica contra a qual, a rigor, o filme não se coloca: está
lá. Sua busca é por uma resistência a essa efemeridade do encontro no deslocamento,
de modo a se retomar de alguma forma a noção de um centro organizador.

Apaixonar-se
na rua e terminar no mesmo prédio. Não porque um convide o outro, mas porque lá
estavam já no começo, separados por paredes e pelo padrão de vizinhança da vida
moderna, em constante individualização das experiências (matriz essa ainda presente
hoje em cineastas como Tsai Ming-liang, por exemplo, que também recorre constantemente
à idéia dramática de solidão entre vizinhos e vizinhos como solução da
solidão). Em Solidão, os personagens só se encontram no carnaval, na rua,
onde vivem um romance com começo e fim, sem meio, justamente porque a multidão
separa os dois corpos em um parque de diversões. A multidão que os aproxima, por
ser descontrolada, também os separa. O estar em espaço público propicia encontros
e desencontros, experiências efêmeras, mas não menos intensas pelo inesperado
e pela coincidência.
É a linguagem da cidade, ou a percepção
da cidade por uma câmera colada na sensibilidade de seus personagens, que rege
as opções visuais. Os travellings se sucedem, o enquadramento está em movimento
ou está sobre um objeto em movimento (na montanha-russa, por exemplo, ou no bonde),
vemos sobreposições, imagens coloridas em uma esfuziante seqüência noturna, subjetiva
de cabeça para baixo, uma soma de acúmulo e fluxo, de inventividade e códigos
do momento, uma absorção do experimentalismo e da vanguarda dos anos 10 e 20.
Não há dúvida de que a noção de “fotogenia”, primeiro resgatada da fotografia
por Louis Delluc, depois empregada e vinculada a Jean Epstein, é uma questão na
visualidade.
Tanto importa esse dispositivo de uma percepção
da imagem naquela contemporaneidade, a de 1928, que, depois de cada um dos protagonistas
tirar uma foto em uma cabine do parque de diversões, ele olha a sua e diz que
deveria, por conta da careta, ir para o Museu da História Natural. Já ao olhar
a foto dela, como se estivesse tendo uma revelação ou vivendo um êxtase visual-sensorial,
ele afirma que sua beleza, impressa na foto, passou no teste. A fotografia é um
atestado. Podemos pensar em André Bazin em sua ontologia da imagem fotográfica,
que atribui a função atualizada do embalsamamento de algo morto e em sua conseqüente
presentificação após a morte futuro afora; mas podemos ainda pensar em Vertov,
que, em outro contexto e com outros propósitos, afirmava a superioridade do olho
da máquina sobre o do homem, porque ela veria com menos amplitude, mas com mais
detalhes.
Na seqüência seguinte, após a menção ao Museu
da História da Natural como depósito e da fotografia como revelação, os dois aparecem
numa sessão de previsão de futuro. O depósito do passado (o museu), a presentificação
do passado (a fotografia) e a projeção do futuro. Nesse filme construtor de um
mundo atravessado pelas mudanças e pelo deslocamento, pela multidão um tanto impessoal
e pela vertigem de tanta gente e movimentação, por uma percepção basicamente visual
da experiência no espaço público, as seqüências faladas, além de retomarem a palavra
como comunicação necessária após a comunicação visual, também são uma forma de
repor outro ritmo e outra ordem às coisas. O efêmero dá lugar à promessa de um
projeto, o ritmo dinâmico dá uma freada, a câmera vai para o tripé e o mundo em
fluxo é interrompido, sim, porque esse é o momento do rapaz e da moça terem seu
próprio tempo, sua imersão um no outro e troca de palavras com as quais estabelecerão
um elo.
Poderiam trocar palavras sem precisarmos ouvi-los,
é verdade. Mas é aqui, ao nos colocar em contato com o som de suas palavras, que
o filme dá sua guinada, ao menos em relação a seu tempo. Porque ouvir essas palavras
é uma forma de invadirmos a intimidade deles, não mais tendo as cartelas como
mediadoras, mas a própria voz dos atores e a intimidade tornada pública. Não é
o caso de a câmera entrar em suas intimidades domésticas, ou centrar nelas, como
um buraco na parede, mas de registrar a intimidade na rua. Naquele momento, de
um com outro, a dinâmica do mundo altera. Eles se fixam, assim como o olho dos
filmes, que se torna uma escuta. Em um desses momentos, a estilização rasgada,
com o fundo escuro, deixa clara a “intervenção”. Eles estão rompidos, assim como
o filme, com os padrões de percepção vigentes.
Já
na terceira seqüência falada, situada na delegacia, a imobilidade da câmera é
dramática. Em vias de ser preso e perder contato com sua amada, o protagonista
se vê diante de uma situação de impotência, imobilidade, sem perspectiva de se
deslocar até seu objetivo. Ouvimos o diálogo entre a vítima da multidão e a ordem
reguladora dessa mesma turba, instância do Estado e do indivíduo, em conflito
por conta das condutas dos novos tempos. Nem a impessoalidade desses tempos, porém,
impedirá o projeto romântico de imperar, processo para o qual até o policial colabora.
Se não é exatamente um filme saudosista, certamente Solidão, em sua relação
com o mundo em transformação e com a transformação dos paradigmas, tem algum pé
atrás e uma posição de conservação – embora, em sua forma, seja um filme em sintonia
com o cinema mais arejado de seu momento, e, em sua técnica, aventure-se pelo
som sem perder controle sobre a lógica dramática e formal.
Agosto
de 2008
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