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sessão cinética
Aquele Querido
Mês de Agosto,
de Miguel Gomes (Portugal, 2008)
por Juliano Gomes
Sonhos
de verão
Num filme de variedades como este segundo longa de Miguel Gomes, a única coisa a se agarrar é a geografia. São muitos os planos que têm como uma das funções (entre outras, como sempre em Aquele Querido...) cartografar, traçar a linha, demarcar, dar extensão a um elemento que será trabalhado e retrabalhado à exaustão: a terra. Se este é um filme genuinamente (sem risco de erro aqui) da terra, o é pois não cessa de revolvê-la. Assim funciona essa obra que mistura uma espécie de espetáculo de revista, de parque de diversões, com um organismo complexo que não cessa de se dobrar sobre si mesmo e se subdividir. Demarca-se o terreno, ara-se, pra começar um novo ciclo.
Porém a colheita aqui é tudo menos natural. Se o é, o faz pelo reverso da idéia comum que se pode ter sobre isso. Pois o conjunto traçado aqui tem como elemento essencial a intervenção humana. A partir da terra, dessa geografia e dessa estação (o verão), inicia-se uma espécie de colcha de retalhos, que ao invés de somente serem costurados, são sobrepostos, dobrados, furados, esgarçados, recombinados. A cultura aqui só parece ter sentido como moeda de troca. Daí a noção de cultura, de tradição popular ser colocada abaixo rapidamente. Este conjunto de discursos, práticas e materiais só existe em uso, em contato permanente uns com os outros. A cultura não existe, ela precisa ser inventada, sempre precisou. E é só aí que ela existe. Algo precisa ser colocado em movimento.
É essa ventania que alimenta o filme de Miguel Gomes e que se materializa no elemento da ponte. Se fosse possível haver um plano síntese aqui seria o plano geral da ponte, onde os primos se beijam e onde, ao mesmo tempo, uma banda atravessa tocando, e uma canoa cruza por baixo. Não só pela simultaneidade, mas pela variedade dos usos. AQMA trata muito menos de borrar as figuras do documentário e da ficção do que de dobrar e multiplicar seus procedimentos a cada sequência. Um documentário sobre uma banda que se torna um melodrama incestuoso, que se torna um documentário sobre a cultura interiorana; um musical com tons de absurdo que se torna um filme experimental; um choro que se torna gargalhada; um produtor que se torna ator; um jogo de malho que se torna casting. Não há aqui uma equivalência geral, onde tudo significa tudo (isto é, onde nada significa nada), mas sim um cuidado e calculado jogo de implosões que fazem a duração dos planos se dobrar sobre eles mesmos, transformando-os pra trás, em relação ao que se viu, e para frente.
O
que se está em jogo aqui é o debate sobre a cultura
popular com que os cinemas novos cansaram de se debater. Se há
uma busca pelo popular, pelo que se define então por ser
partilhado, ele obrigatoriamente tem que passar pela ordem dos
seus procedimentos. Se isso
se definiu e consolidou por sua força de partilha, é
esse atravessamento, esse “fogo no rabo” é
que precisa ser tomado de uma imagem justa desse repertório.
Torná-lo estático, “em si”, tradicional,
de raiz, é, em suma, matá-lo.
A combinação entre a intensa porosidade, o improviso,
o verso inventado na hora, e a reunião de elementos característicos
específicos, é o que faz essa gincana chamada Aquele
Querido Mês de Agosto. Ligar dois pontos separados
e deixar a água correr por baixo, mas também mergulhar
se for preciso, desviar o curso, aceitar uma aposta e deixar-se
levar. E poder se repensar sempre, voltar a trás, virar
para o lado, tornar-se outro, e nunca aquietar. Só pra
morrer. A linearidade cristalina construída aqui (sim,
este é um filme sem sobressaltos, que nada lembra a iconoclastia
gritada dos hibridismos de outrora, ontem e hoje) se constitui
deste tipo de atitude que une atenção e infidelidade,
respeito e malícia. E se há aqui a presença
real de uma tradição, é justamente por que
essa se define pelo ato ou efeito de transmitir, por transferência.
É justamente esse processo que está em curso neste
delicioso mês de verão.
Novembro de 2011
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