in loco - cobertura do É Tudo
Verdade Miss Universo 1929 - Lisl
Goldarbeiter, Uma Rainha em Viena (Miss Universe 1929 - Lisl Goldarbeiter.
A Queen in Wien), de Péter Forgács (Hungria, 2006) por
Júlio Bezerra (colaboração especial para a Cinética)
Imagens
vivas de um tempo perdido
Lisl Goldarbeiter
– primeira e única Miss Universo austríaca, eleita em 1929 – é retratada pelo
olhar amoroso de Marci Tenczer, seu primo e segundo marido, em filmagens e fotografias.
A este material somam-se passagens de diários e jornais da época, a trilha sonora
de Tibor Szemzo e uma entrevista com o ainda vivo Marci. O documentário acompanha
as vidas de Marci e Lisl. Vemos os fracassos, as perdas, a desesperança, mas também
momentos exuberantes de pessoas vivendo ao máximo. Miss Universo é certamente
uma história de amor. A paixão de Marci por Lisl que atravessa décadas está ali,
incrustada nas fotografias e imagens que fazia dela. No fim do filme, perto de
completar um século de vida, Marci arremata: “Peter (Forgács), você tem de acreditar
em mim. Nunca antes, nem depois, uma mulher mais bela pisou a Terra”.
Nas
últimas décadas, Péter Forgács já realizou mais de 30 documentários. Em sua maioria,
filmes que examinam as histórias privadas de famílias burguesas da Europa entre
os anos 30 e 40. Forgács refaz as imagens, cortando-as, diminuindo sua velocidade,
acrescentando legendas e música, a fim de combinar uma sensação de perspectiva
histórica com uma forma de envolvimento emocional. Seus filmes são atos de generosidade,
reformulando discretamente os amores e as vidas de outros. São relances vivos
de um tempo perdido.
Em
Miss Universo, estamos sempre ligados nas relações que se estabelecem entre
as micro-histórias e a macro-História. As famílias de Lisl e Marci são judias.
Lisl se casa com um playboy no início da década de 30. Uma amiga vai morar com
eles. O marido de Lisl vai à falência e os três se mudam de Viena para Paris.
Os anos se passam. E eis que Hitler é eleito na Alemanha. Vemos Marci retornar
a Budapeste depois de se formar em engenharia no mesmo ano em que Hitler
inicia sua marcha em direção a França. As filmagens amadoras que o documentarista
utiliza para construir seus longas são realizadas por pessoas indiferentes ao
seu futuro, mas que oferecem suas vidas para aqueles que hoje sabem da depressão,
do nazismo, da segunda grande guerra, da guerra fria. Ao vermos essas imagens
permanecemos ansiosos, vendo as evidências da História que estes personagens ainda
irão encontrar. Ansiosos por ver o mundo como eles o viam, como em uma cegueira
inocente do futuro. É importante também atentar
para o fato de que Forgács não utiliza as histórias de Marci e Lisl como exemplos
ou ilustrações da História. Miss Universo é uma pequena meditação sobre
o privado. O filme é resultado de uma visão generosa daquilo que é íntimo. E essa
busca pela experiência privada de homens e mulheres de tempos passados não se
revolve em imagens icônicas, “bigger than life”. Muito pelo contrário. O cinema
de Forgács trabalha com o banal. As imagens mais recorrentes de Miss Universo
são jantares e almoços das famílias de Marci e Lisl. Forgács observa o miúdo.
Em todas as histórias, é o banal, a coisa ou o incidente comum que, contra o pano
de fundo da guerra, deixa sua marca indelével. O que fica são as coisas pequenas.
Para Forgács, o que melhor nos recorda uma pessoa é justamente o que costumamos
esquecer. Curiosamente, são estes aspectos insignificantes que perduram. Encontramos
então Lisl e Marci em momentos pequenos, em situações que em geral não teriam
para nós nenhuma utilidade ou significação mais importante, e que, por isso mesmo,
permanecem intactos em sua força. O
aspecto de documento histórico destas imagens é muito bem trabalhado por Forgács,
que opera com uma surpreendente variação nos enquadramentos, altera a velocidade
das imagens e faz inúmeros freeze frames, prendendo gestos e olhares, suspendendo
a inexorabilidade do tempo. Neste sentido, é preciso dizer: compreendemos bem
a necessidade e a importância das desconstruções do efeito do real, dos jogos
ideológicos escondidos nos dispositivos de enunciação das mensagens visuais, mas
ao mesmo tempo, em filmes como este Miss Universo, não conseguimos evitar
a percepção de que, ao ver estas imagens-documentos, algo de singular subsiste
apesar de tudo na imagem cinematográfica. Em algum momento no tempo, Lisl e Marci
estiveram de frente para uma câmera. Forgács aposta neste sentimento de realidade
incontornável do qual não conseguimos nos livrar apesar da consciência de todos
os códigos que estão em jogo e que são articulados na elaboração das imagens.
É claro que essa realidade primordial nada diz além de afirmar
uma existência. A imagem é, em primeiro lugar, índice. Somente em um segundo momento
ela pode tornar-se parecida e adquirir sentido. Forgács explora ao máximo o potencial
emocional contido nestas filmagens amadoras de pessoas ordinárias como nós. Assim
como em seus demais filmes, em Miss Universo Forgács reformula filmes amadores
em documentos históricos, enfatizando aspectos poéticos e associativos em vez
de veicular informações ou convencer-nos de um determinado ponto de vista. Mais
do que explicar a vida dessas pessoas, as tomadas históricas, os fotogramas congelados,
a câmera lenta, as legendas ocasionais, as passagens com Marci nos dias de hoje,
as vozes que recitam passagens de diários e a música constroem um tom e um estado
de espírito. A intenção não é polemizar, explicar, argumentar ou julgar,
mas evocar a idéia de como foram as experiências passadas para aqueles que as
viveram. Miss Universo nos oferece um encontro mais diretamente subjetivo
com os acontecimentos históricos. Assim como fez Alain Resnais em Noite e Neblina
(1955), Forgács invoca o afeto em vez do efeito, a emoção ao invés da razão,
não para rejeitar o julgamento ou a reflexão, mas para colocá-los em uma base
diferente. Abril de 2008
editoria@revistacinetica.com.br
|