na agenda
Agosto 2010

Como dissemos duas notas aqui abaixo, uma série de mostras bem interessantes acabaram passando batidas aqui nessa seção. Por sorte, podemos agora pelo menos mencionar uma delas, uma vez que a mostra fantástica que ocupa o Instituto Moreira Salles-RJ entre os dias 20 e 29 de agosto, tendo por título O Tempo de Tarkovski e a Poesia de Pardjanov (cujo programa pode ser visto aqui), só se tornou realidade graças a um evento anterior, que ocupou o CCBB de Brasília no começo de julho passado, de nome "Tarkovski e seus Herdeiros" - e embora já tenha passado sua realização, ainda se pode conferir como foi a mostra no site do evento. O interessante da mostra de Brasília estava, além do óbvio interesse por trazer quase toda a obra do cineasta russo em película ao Brasil, justamente nesta ideia de "herdeiros", uma vez que a maioria das mostras que tem optado pelo viés autorista pouco permite entrever de relações dos cineastas com seus contemporâneos (como é o caso de Tarkovski e Paradjanov), e principalmente daqueles que vieram depois. Estes trajetos enriquecem bastante esse conceito que parece tratar um pouco os cineastas como universos quase isolados, que rodam apenas em torno de si mesmos. Foi pena que, ao contrário de várias outras fortes mostras que só se viabilizaram com o apoio dos 3 CCBBs, esta só tenha sido abraçada pelo do DF. Mas, palmas agora então pro IMS que, atento à programação de outras cidades e centros, contactou a produção da mostra e conseguiu fazer esta esticada de parte dos filmes exibidos, até o Rio de Janeiro. O carioca poderá ver 5 filmes de Tarkovski em 35mm, e outros 4 de Paradjanov em projeção digital. Aqui, vale um adendo: embora, é claro, este não seja o formato original dos filmes, o IMS é um dos poucos lugares no Rio a possuir um projetor digital com 2K de resolução, o que garante uma projeção de bastante maior qualidade que o que vemos, inclusive, no circuito comercial de arte. Além disso, há que se desmistificar alguns purismos, como fomos lembrados ao ver várias cópias belíssimas em 35mm da mostra Ozu sendo exibidos com a janela errada no CCBB-RJ, já que este não possui lente para o formato 1.37, resultando em enquadramentos sempre truncados, quando não verdadeiramente destruídos. Ou seja: a priori, vale sempre a regra de que tanto melhor ver o filme em seu formato de realização - mas há que se ver mesmo as exceções, caso a caso.
(Eduardo Valente)

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Começou no dia 03, no CCBB de Brasília, a mostra Faroeste Spaghetti - O bangue bangue à italiana. Como deixa claro o título, a seleção reúne 20 títulos (18 deles em 35mm, dois em 16mm) do melhor produzido no western italiano entre 1964 (com o seminal clássico Por Um Punhado de Dólares, de Sergio Leone) e 1976 (com a obra-prima Keoma, de Enzo Castellari). Além dos filmes já destacados, a mostra oferece a chance de ver todos os cinco obrigatórios faroestes dirigidos por Sergio Leone (os quatro últimos em cópias restauradas), assim como Meu Nome é Ninguém, produzido por Leone e dirigido por Tonino Valerii, além de destaques da obra de Sergio Corbucci (Vamos Matar, Companheiros; Django), Damiano Damiani (Uma Bala para o General, também conhecido como Gringo), Sergio Sollima (O Dia da Desforra) e Gianfranco Parolini (Sartana), entre outros. O catálogo da mostra é editado por este que vos escreve, e também traz textos dos cinéticos Filipe Furtado, Francis Vogner dos Reis e Rodrigo de Oliveira. Em sequência, a mostra segue para São Paulo e Rio de Janeiro, nos CCBBs locais. Confira no site da mostra todas as datas, programação por cidades, e outras info relacionadas.
(Fábio Andrade)

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O leitor atento sabe que, como podemos ver na nota acima, ou na logo abaixo, damos muito valor aos eventos que não só fazem esforços de produção realmente descomunais para trazer ao Brasil alguns dos principais filmes de qualquer história do cinema (muitas vezes pouco vistos – quando não completamente inéditos), como o fazem respeitando os formatos originais com que estes filmes foram realizados – ou ao menos o mais próximo que se pode chegar deles. Não se trata apenas de um purismo, mas de uma constatação dupla: primeiro, de como a projeção em película, principalmente com os ainda precários equipamentos digitais disponíveis em nossas salas “de arte”, atinge resultados inegavelmente superiores e fiéis às obras; como principalmente de que o hábito da exibição indiscriminada de cópias em DVD ou afins termina por esvaziar a freqüência dos próprios cinemas a longo prazo, uma vez que hoje quase todos estes filmes são acessíveis (mesmo que por vias “irregulares”), resultando muitas vezes melhor vistos numa boa TV em casa.
No entanto, toda regra sempre terá a exceção, e não é por acaso que consideramos que vale a pena destacar a realização da mostra O Melhor de Russ Meyer, que ocupa os CCBBs de São Paulo e Rio de Janeiro entre os dias 5 e 15 de agosto. Pois a verdade é que, embora a mostra seja toda realizada em DVD, o simples fato de uma instituição “de respeito” como o CCBB abrir o espaço para uma obra tão incomum, geralmente considerada grosseira ou simplesmente reduzida com o epíteto mal usado do “trash”, emprestando a ela um espaço diferente dos guetos do “underground” já gera em si um gesto potencialmente interessante. Claro que poderíamos questionar porque Ozu (que ocupa, por exemplo, a sala principal do Rio em película, enquanto Meyer vai para a sala alternativa em DVD) mereceria tratamento diferenciado do dado a Meyer, mas parece mais proveitoso do que pedir equanimidade neste momento, perceber a importância desta rara pequena brecha aberta no que se costuma considerar o “grande cinema” exibível em centros culturais. Dar a Meyer este espaço é dar reconhecimento à importância ampla do seu cinema que, nas palavras do curador João Juarez Guimarães, influenciou gente como “Almodóvar, John Waters e Tarantino ; ou, no Brasil, Carlos Reichenbach e Ivan Cardoso; alcançando ainda a música (Sex Pistols), a fotografia (Helmut Newton, Richard Kern), a moda (Jean-Paul Gauthier e Thierry Mugler, com seus figurinos de inspiração sadomasoquista) os e quadrinhos (Robert Crumb)”. A ele, então.
(Eduardo Valente)



Julho 2010

Nos últimos meses esta coluna ficou um tanto desatualizada, e por isso pedimos desculpas a alguns eventos muito interessantes realizados em diferentes pontos do Brasil, inclusive alguns menos usualmente afeitos a mostras de porte, como Porto Alegre ou Belo Horizonte. Esperamos retomar de vez os trabalhos por aqui, algo tão mais interessante por acontecer em torno de um dos mais importantes eventos do calendário nacional de mostras de cinema, em alguns anos.

É fato que já faz alguns anos que o CCBB vem firmando uma seleção de mostras invariavelmente focadas (embora não só) em autores. Nos últimos anos, Alain Resnais, Chantal Akerman, Jacques Tati, Chris Marker, Robert Altman e Woody Allen tiveram retrospectivas abrangentes (quando não completas) de suas obras nas filiais do Rio, São Paulo e Brasília do centro cultural, além de iniciativas localizadas terem apresentado recentemente filmes, por exemplo, de Andrei Tarkovski e Arne Sucksdorff (ambas apenas em Brasília). Embora a oportunidade de ver toda a obra de um cineasta em conjunto seja sempre fortuita, é provável que em nenhum caso ela seja tão vital quanto no de Yasujiro Ozu, cineasta japonês que tem em Emoção e Poesia: o Cinema de Yarujiro Ozu uma mostra "completa" – e as aspas só são necessárias por 19 dos 54 filmes creditados a Ozu estarem desaparecidos –, já passada pelo CCBB-SP, e que chega agora ao CCBB-RJ, entre 27 de julho e 22 de agosto (a programação completa e alguns dos textos escritos para o evento podem ser vistos no site oficial da mostra).

Em primeiro lugar, isso se dá por Ozu ter construído um universo cinematográfico de notável peculiaridade, que ganha em intensidade e contraste na exibição conjunta dos filmes. E em segundo, pela exibição dos 35 filmes restantes (todos em película, 16mm ou 35mm) favorecer a percepção de Ozu como um cineasta da contingência, registrando os efeitos da passagem do tempo não só no núcleo familiar que protagoniza a maior parte de seus filmes, mas também no corpo dos atores – normalmente presentes em mais de um filme – e no próprio refinamento de seu estilo. Embora as marcas do tempo percam um pouco de sua força na exibição dos filmes fora da ordem cronológica de produção, a mostra é uma chance inestimável de se embrenhar em uma das obras mais rigorosas e impactantes da história do cinema. Esse impacto, inclusive, poderá ser comprovado na exibição de alguns filmes recentes assumidamente influenciados pelo cinema de Yasujiro Ozu – entre eles, os essenciais 35 Doses de Rum, de Claire Denis (35mm) e Cinco Dedicados a Ozu, de Abbas Kiarostami (originalmente realizado em vídeo). Por tudo isso, Emoção e Poesia: o Cinema de Yasujiro Ozu é, desde já, o evento cinematográfico do ano.
(Fábio Andrade)


Março 2010

Depois de escrever o pequeno artigo logo abaixo deste, não deixa de ser interessante termos três novos eventos ocupando diferentes espaços em cidades pelo país e nos fazendo recolocar em questão alguns dos assuntos de que tratamos.

É o caso, por exemplo, da mostra Faça Você Mesmo - O Novo Cinema da Malásia, que está Caixa Cultural - RJ desde 16 até 28 de março. A mostra exibe 14 logas e 3 curtas realizados neste país do Sudeste Asiático que talvez menos atenção tenha recebido no Brasil e no mundo nos últimos anos, até por não ter um cineasta de ponta como são considerados o tailandês Apichatpong Weerasethakul, os filipinos Brillante Mendoza e Raya Martin ou Eric Khoo, de Cingapura. Esta é justamente uma das coisas que faz a mostra mais interessante, o fato de fugir do recorte estritamente autoral, apresentando uma idéia de geração. Geração esta, aliás, que é marcada pelo uso do formato digital (como deixa inferir o título do evento), o que garante à mostra uma possibilidade mais simples de exibir os trabalhos como eles foram criados. Mas, é bom que se diga, a mostra (que segue para São Paulo, onde ocupa o Cine SESC entre 25 de março e 1º de abril) não se limita a exibir os filmes, e trouxe ao Brasil dois cineastas malaios (Amir Muhammad e Woo Ming Jin) para acompanhar os filmes e discuti-los com o público brasileiro. A programação completa está no site do evento.

Mostrando que volta a apostar com força em eventos diferenciados e únicos, antes da mostra malaia chegar por lá o Cine SESC recebe entre 18 e 25 de março uma nova parada da mostra Zona Livre, sobre a qual já falamos aqui no mês passado. O grande diferencial em relação ao evento no Rio, porém, é que o formato mais enxuto privilegia desta vez os formatos originais dos filmes, exibindo os mesmos 3 filmes que haviam passado em 35mm (entre eles, o mais que interessante All About Lily Chou-Chou), e mais dois pensados desde sempre em digital. Além deles, há o ganho da exibição no 35mm original dos dois filmes do cineasta americano Cory McAbee, que esteve no Rio acompanhando sessões de seus filmes, e protagonizou um debate bastante interessante. Que esta casa paulistana ajude a dar força à mostra originária de Porto Alegre para existir cada vez em melhores condições - leia-se aí, com respeito ao formato original dos filmes.

Finalmente, o CCBB-DF investe na relevância histórica de exibir no Brasil o raramente visto trabalho de um cineasta sueco com enorme relação com o Brasil, como indica o subtítulo da mostra Arne Sucksdorff - O Sueco do Cinema Novo, que ocupa o espaço brasiliense entre 16 e 24 de março. Sucksdorff foi um cineasta ganhador de alguns dos principais prêmios de cinema pelo mundo (inclusive um Oscar de melhor documentário), cuja relação com o Brasil se deu a princípio por cursos técnicos nos quais acabou trazendo alguns equipamentos fundamentais para o cinema nacional dos anos 60, e depois com um casamento que o trouxe de maneira mais permanente para o país. A mostra exibe seis longas, um média e sete dos curtas realizados por ele entre Brasil, Suécia e Inglaterra, passando todos eles em película (com exceção de um). É um evento a não se perder, cuja programação completa pode ser vista no site. (Eduardo Valente)

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Quando esta seção foi criada na revista, a idéia nunca foi simplesmente reproduzir releases de mostras e eventos audiovisuais, servindo como um mural de acontecimentos, mas sim chamar a atenção para algumas das muitas que acontecem hoje em dia pelo Brasil, dentro de uma visão bem pessoal de quem escreve a nota do porquê esta ou aquela mostra é interessante. Também era nossa vontade refletir um pouco, ao fazer esse trabalho, sobre algumas questões que a produção destas mostras colocam em pauta por aqui. Nesse sentido é que a sequência de algumas mostras recentes ou em exibição nos permite aqui tratar de um assunto para além delas, que é a questão da exibição de filmes em cinemas e sua relação com a ideia mesmo do que é ou não aceitável nesse momento de plena transição da película para o digital.

Neste momento, por exemplo, três mostras dedicadas a obras de cineastas estrangeiros ocupam os espaços de exibição alternativos cariocas. No Instituto Moreira Salles, entre os dias 5 e 21 de março, está sendo organizada uma mostra com 15 longas do polonês Andrzej Wajda. Embora não seja uma retrospectiva completa, é uma mostra que cobre os principais títulos da carreira do diretor, incluindo-se aí O Homem de Ferro, O Homem de Mármore e Cinzas e Diamantes, para ficarmos em três títulos. Dos 15 títulos da mostra, 9 passam em 35mm e 6 em digital, sendo que cada um dos formatos está devidamente identificado aqui. O IMS começou há menos de um ano a funcionar como sala de repertório, seguindo um modelo francês do termo, propondo mostras e sessões especiais com curadoria própria. Para isso se utiliza em grande parte das coleções de filmes existentes no Brasil (limitadas, mas em casos como o de Wajda, melhor fornidas), e exibe em digital com um projetor 2K de ótima qualidade.

Já os centros culturais preferiram focar neste momento a obra de cineastas pouco conhecidos/vistos no Brasil, criando assim o que seria uma boa dinâmica. É o caso da mostra dedicada à cineasta alemã Monika Treut, que está no CCBB-Rio entre 2 e 14 de março (seguindo depois para SP entre 10 e 21 de março). Se Treut não é exatamente um nome decisivo no cinema mundial, ainda assim inegavelmente tem sua importância relativa a questões como a da identidade sexual. A mostra segue a tendência recente no CCBB (particularmente o carioca) de focar-se na obra completa de um(a) cineasta (neste caso, composta de dez longas e quatro curtas), e exibe praticamente todos os filmes em 35mm – sendo que a maior parte das exceções são filmes realizados diretamente em vídeo. Algo bem distinto, portanto, do que aconteceu recentemente com a mostra de filmes do japonês Nobuhiro Suwa na Caixa Cultural. Ainda que Suwa seja nome hoje muito mais central na cinematografia mundial, a mostra limitou-se a exibir em DVD quatro de seus cinco longas (mesmo anunciando-se completa no seu trabalho ficcional).

A partir daí colocam-se, então, alguns problemas. O primeiro deles é que, embora a passagem majoritária para o digital seja uma realidade incontornável no panorama do cinema, há digitais e digitais. E nem o projetor do CCBB nem o da Caixa Cultural podem exatamente serem considerados modelo de projeção no formato. O que se tem ali não atende a qualquer critério minimamente rigoroso de qualidade de projeção, tornando ainda mais problemático o fato de se passar filmes originalmente pensados em outros formatos como o 35mm (mas mesmo os filmes em digital não têm sua melhor exibição). Outro problema é que há inúmeros formatos de lançamento dos filmes em digital, e o simples ato de conectar um DVD a um projetor de baixa qualidade é certamente o pior deles. Finalmente, há que se considerar que filmes como os de Suwa hoje estão disponíveis na web com qualidade de DVD para pessoas baixarem e verem em casa. Assim sendo, qual o sentido real de mostrá-los num projetor fraco numa sala de cinema? A idéia de que este ato coloca o espectador em contato com a obra de um cineasta desconhecido é nobre, mas a que custo? Mal comparando, seria como uma instituição cultural destas anunciar a retrospectiva de algum pintor, e colocar na parede apenas reproduções em fac-símile dos seus trabalhos. Interessante como esta hipótese seria considerada absurda por qualquer destes espaços ao falar em artes plásticas, mas o mesmo não se aplica ao cinema, não?

E já que falamos em custo, entra aí o segundo ponto complicado: tanto o CCBB como a Caixa Cultural trabalham com editais de ocupação do seu espaço. São escolhidos uma série de eventos para ocupá-los, os quais são organizados com orçamentos pagos pelas entidades. No entanto, nós estamos vendo da parte dos produtores culturais (e mais ainda dos centros) uma falta de critério total sobre o que constitui de fato uma mostra digna deste nome. Pois a mesma Caixa Cultural que produz eventos totalmente exibidos em DVD de obras não produzidas em digital, como foi o caso da mostra de Suwa ou da exibição de alguns filmes de Maya Deren no ano passado, é a que também nos deu em 2009 uma retrospectiva quase completa em película das obras de Marguerite Duras, (muito mais numerosas que as de Suwa); ou uma mostra de parte mais que relevante dos trabalhos de Stan Brakhage exibidos em seu formato original (16mm), com a presença do responsável americano pela difusão da mesma, comentando e apresentando cada sessão dos filmes.

A impressão que fica, no fundo, é que para a Caixa às vezes não importa muito o que é feito em termos práticos, mas tão somente ocupar o seu espaço, ficando a critério dos produtores estabelecerem o seu próprio conceito do que é ou não aceitável. Sabemos, diga-se, que na maioria das vezes o dinheiro oferecido pelas instituições para a organização dos eventos simplesmente não é suficiente para trazer obras de outros países no seu formato original (questão maior na Caixa do que no CCBB, até por este último contar com mais de um centro pelo Brasil, que às vezes dividem os custos dos eventos). No entanto, se é este o caso, ficam duas perguntas, uma para produtores e outra para as instituições. Para os produtores, que no geral sabem bem o quanto se está pagando atualmente pelas mostras: não seria melhor pensar eventos que efetivamente caibam nos gastos, para realizar mostras relevantes e com adequação às obras que foram produzidas? E para os centros culturais: não faria mais sentido, talvez, organizar menos eventos, com maior qualidade de realização?

Sim, porque sem dúvida há um público disposto a sair de casa para ver DVDs projetados sem maior qualidade. E é plenamente válido que os centros culturais supram o interesse deste público, e assim ocupem os seus espaços, até mesmo na maior parte do ano (afinal, a própria Cinemateca do MAM faz isso hoje – só que, e a diferença é grande nisso, anunciando bastante claramente o suporte de exibição que usará). O CCBB-Rio, por exemplo, ocupa no momento seu cinema 2 (um nome novo pro que continua sendo sua antiga “sala de vídeo”) com uma mostra de nome Mulheres Alucinadas, apenas com filmes exibidos em DVD/VHS – mas anunciados como tal, exibidos com entrada franca e todos disponíveis em coleção particular ou no mercado no Brasil. Ou seja, a mostra está ocupando a sala e dando retorno a um público, mas certamente é organizada a custo ínfimo – permitindo talvez que mais recursos sejam direcionados para ocupar a sala 1 com uma mostra significativa como a de Treut, ou as retrospectivas completas em película organizadas em anos recentes de obras numerosas como as de Resnais, Altman e Woody Allen. A questão final parece ser a da necessidade de pensar com inteligência, e acima de tudo respeito às obras, maneiras de otimizar os recursos que se tem em mãos, para assim ocupar espaços, comunicar-se com os públicos distintos, mas também ser relevante de fato no aspecto cultural/cinematográfico.
(Eduardo Valente)


Fevereiro 2010

Começou ontem, dia 9 de fevereiro, e continua até o dia 28 deste mês, no CCBB-RJ, a mostra Zona Livre, cuja programação recheada de informações sobre os filmes pode ser vista aqui. Extensão de uma seção do festival portoalegrense Cine Esquema Novo, a mostra representa um sopro mais que bem vindo de novidades no calendário regular (torcemos, pelo menos) de eventos de cinema, representando uma alternativa às curadorias pouco focadas dos gigantes do gênero (Festival do Rio, Mostra de SP). Mas, além de trazer filmes a que estes não deram atenção, o mais legal é mesmo como a mostra sinaliza de várias formas para um novo tempo da cinefilia, já que sua curadoria é quase toda feita e pensada através do acesso a uma série de títulos pela internet – provando que hoje pessoas como seus jovens curadores Bruno Carboni e Davi Pretto podem conhecer o cinema internacional profundamente sem viajar pelo mundo nem ser refém das escolhas de distribuidoras ou selecionadores dos festivais tradicionais. O movimento que a mostra faz, porém, de pegar estes filmes vistos (e, portanto, disponíveis) na web e fazer questão de trazê-los para uma sala de cinema deixa claro que a internet não precisa matar o cinema – muito pelo contrário.
Na abertura da mostra, um outro exemplo de inquietação e criatividade: na impossibilidade de trazer seus convidados internacionais, foi organizado um debate via Skype com o diretor Harmony Korine, cujo recentíssimo Trash Humpers havia sido exibido. O debate, além de funcionar perfeitamente na parte tecnológica (com tradução simultânea, imagem do diretor na tela do cinema, etc), permitiu uma curiosa sensação de conversar com um artista literalmente “na casa dele”, o que cria uma série de bem vindos ruídos no tradicional modelo de debates, permitindo uma imersão no universo do cineasta para além do filme em si. Haverá outros dois debates semelhantes na mostra, e esta é desde já uma dessas idéias que sabemos que vai ficar. A lamentar somente o fato de que a maior parte dos filmes será exibido em DVD (só 3 passam em 35mm – embora alguns não tenham a película como formato final, de qualquer jeito, como o filme de Korine, filmado e editado em VHS), nos projetores nem tão incríveis assim do CCBB. No entanto, além de ser algo compreensível para uma mostra que realiza sua primeira edição com orçamento limitado, é preciso ser notado que pelo menos a mostra não esconde essa informação, e diz qual o formato original e de exibição de cada filme de forma bem clara – ao contrário de alguns dos seus primos mais ricos. De qualquer maneira, este fato (que torcemos possa ser minorizado em anos futuros) não diminui a importância dos vários gestos políticos compreendidos na realização deste evento que começa o ano com o pé direito no Rio.
(Eduardo Valente)

Relembre destaques da agenda de 2009

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