in loco - cobertura do É Tudo Verdade
Ocidente, de Leonardo Sette (Brasil, 2008) por
Paulo Santos Lima
Quando o ocidente é o
verdadeiro norte Ocidente
é termo que evoca o avesso do oriente, a desorientação. Pois o que Ocidente
faz é justamente ir em direção oposta ao oriente do documentário, negando boa
parte de seus ditames estilísticos. Na prática, isso significa passar ao largo
do tal funcionalismo de boa parte dos documentários que comentam temas urgentes
ou trazem ao conhecimento experiências, verdades e fatos desconhecidos do nosso
mundo. Significa, também, evitar os depoimentos e os respectivos planos ilustrativos
ou desprezar qualquer idéia de dissertação audiovisual – o que muitas vezes resvala
em algo próximo do documentarismo jornalístico. Resumindo, é ter mais atenção
aos efeitos da captação do que, conteudisticamente, o que está sendo captado.
É mais o “o quê” está sendo captado e não “para quê” está sendo captado.
Na
experiência do filme em si, vemos que seu diretor, Leonardo Sette, não abdica
de pelo menos um procedimento arterial ao documentário: a captação direta. Dentro
de um trem, ele aponta sua câmera digital para a janela, captando tanto a paisagem
externa quanto o interior do vagão, num plano praticamente fixo. Esse “milagre”
se faz, literalmente, pela luz que vem de fora, que varia de acordo por onde o
expresso passa, do sol que faz visível a paisagem à escuridão (de um túnel?) que
faz o vidro um verdadeiro espelho que mostra um casal de idosos e a própria câmera. Esse
mero registro das coisas, algo que, pelo trem, talvez, remeta a Lumière, não é
ingênuo. Se o princípio é tão básico quanto ao do filme que mostrou a chegada
do trem à estação, em 1896, o resultado apresenta uma geração de imagens extraordinária.
Assim, num mesmo plano, várias imagens (tão factuais e objetivas quanto o plano
filmado pelos Lumière) fundem-se, quase se tornando ambíguas, criando pela soma
e fantasmagoria de elementos capturados mais uma sensação do que um domínio total
do que se está sendo visto. Temos, assim, um pedaço de mundo registrado na tela,
mas embaralhado, com alguns espaços distintos, um casal sentado, o som do trem,
tudo em sobrecamada e, portanto, complementar. Haverá ainda
um outro plano, como se Leonardo Sette buscasse o avesso da primeira parte, com
um casal jovem, uma paisagem que dá impressão de ser o inverso daquela avistada
no início, como se câmera e realizador migrassem para o outro lado do vagão. Ainda
que esta “segunda parte” tenda a criar uma certa dialética “narrativa”, Ocidente
não parece um filme que crie sentidos além daqueles do visual. Não há simbolismos,
nem dramaturgia. O que há, decerto, é algo valiosíssimo, que parte de um princípio
documental para chegar a resultados bastante diversos e que tumultuam alguns paradigmas.
O foco é estreito a algo, mas abre-se a uma larga asa de imagens, espaços: a mira
da lente, de potência quase bidimensional, consegue uma tridimensionalidade impressionante. Tudo
isso capturado da forma mais “primitiva”, o que revolve algo tão óbvio quanto
esquecido quando se vê um filme: a imagem, poderosíssima, é algo acima do objeto
que a câmera capturou. A câmera lançada ao mundo cria explosões apoteóticas, selvagens.
Pois é assim que uma série de pontos de vista deságua para um foco muito estreito
do mesmo modo que a pontaria aparentemente afinada deste conciso curta de 6,5
minutos de Leonardo Sette abre-se ao mundo. Ocidente, assim, reitera questões
valiosas sobre o documentário, o que e para quê se capturar as coisas do mundo,
a falácia do tal registro objetivo e totalizado etc. O encontro com o leste, com
o oriente dos procedimentos, pede uma circunavegação que atravesse antes de tudo
o oeste, fazendo avistar todo o ocidente, ou este Ocidente. Março
de 2008 editoria@revistacinetica.com.br
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