in loco - cobertura do É Tudo Verdade

Operação Cineasta (Operation Filmmaker),
de Nina Davenport (EUA, 2007)
por Fábio Andrade

O seqüestro de uma imagem

Operação Cineasta nasce motivado por uma imagem: o ator e diretor Liev Schreiber vê uma matéria feita pela MTV com um rapaz iraquiano chamado Muthana Mohmed, que dizia sonhar com uma carreira como diretor de cinema. Comovido com a reportagem, Schreiber decide convidar o jovem iraquiano para trabalhar como estagiário na produção de Uma Vida Iluminada, seu primeiro longa metragem como diretor. Nina Davenport é contratada para documentar a passagem de Muthana pelo set.

O filme resultante, porém, é bem mais do que o registro de um conto de fadas. Porque aquilo que fora concebido como ato de caridade (e, independente da fé dos envolvidos, também uma jogada de publicidade) logo esbarra em algo que esse olhar assistencialista tantas vezes desconsidera: a personalidade de quem recebe suas doações. Se a insatisfação de Muthana em cumprir certas tarefas no set indica parte dos conflitos que podem perturbar a integridade dos planos iniciais, é em uma conversa com o produtor de Uma Vida Iluminada, Peter Saraf, que a relação fica realmente clara: enquanto Peter acreditava estar se posicionando politicamente contra a guerra do Iraque ao trazer um iraquiano para participar das filmagens, Muthana dá uma entrevista a Entertainment Weekly dizendo amar George Bush.

Se o filme buscará, nesse choque de opiniões, construir (bastante bem, até) um paralelo com a invasão americana do Iraque, o mais interessante é que esse momento de ruptura virá determinar o filme que Nina fará a partir daquele momento. Pois muito de Operação Cineasta parte da capacidade da imagem de comover, de envolver o espectador: assim como Schreiber teria se convencido a trazer o jovem para o set de seu filme vendo uma reportagem de TV (e essa situação se repetirá, já perto do final do filme, quando Muthana manda um vídeo de um monólogo seu para uma escola de atores nos EUA), Muthana é consciente o suficiente do poder da imagem para usá-lo em favor de seus interesses.

Operação Cineasta ganha um crescente interesse na medida que desconstrói, ao menos em parte, o poder do documentarista: Muthana é tão consciente da necessidade, para o filme, de sua presença, que ela vira uma forma de poder. Com o fim das filmagens de Uma Vida Iluminada – que não toma sequer metade de Operação Cineasta – Nina Davenport segue acompanhando Muthana na errância de seus desejos, ora pensando em voltar pro Iraque, ora fazendo de tudo para conseguir se manter no exterior. Aos poucos, a câmera e o controle do filme passa a ser disputado por Nina e Muthana (que, em dado momento, chega a apreender a câmera e as fitas da diretora) em uma relação de co-dependência em constante mutação. Muthana sabe que precisa do documentário tanto quanto a diretora precisa dele para que exista um filme. Operação Cineasta é o registro dessa tensão, desse cabo de guerra pelo controle da imagem.

O filme de Nina Davenport fica mais interessante à medida que essa disputa por poder se torna mais extrema, seja em uma cena em que Muthana vira a câmera para a diretora e pede sua ajuda para entrar nos EUA, seja quando, em conversa que ele parece não saber estar sendo filmada, o ouvimos pedir 10 mil dólares para autorizar mais dois meses de filmagem. Operação Cineasta ganha força justamente ao expor o confronto do documentarista com um personagem tão ou mais consciente do poder da imagem do que ele mesmo. O curioso é que, se a intimidade gerada pelo tempo de convívio faz Nina muitas vezes passar por cima da câmera, daquilo que separa, inevitavelmente, quem filma de quem é filmado, Muthana parece cada vez mais atento à sua presença, ao seu poder de representação.

A câmera deixa de ser a barreira que separa duas pessoas, e passa a ser o elo entre suas vidas. Embora o filme nasça da intenção de enquadrar o outro dentro de uma certa expectativa, Operação Cineasta acaba se tornando um filme sobre a impossibilidade de realizar essa expectativa. Impossibilidade que só fica mais clara quando a relação de Nina e Muthana chega a um grau tão avançado de intimidade e co-dependência que obriga a diretora a, enfim, abortar o filme.

Abril de 2008

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