in loco - cobertura do É Tudo Verdade
A permanência da família
por Cléber Eduardo
 Os
poucos documentários vistos na extensa programação do É Tudo Verdade, festival
cada vez menos empenhado em propor recortes e cada vez mais em abrir suas portas
para o diverso, não podem ser encarados como sinais de um momento histórico ou
do audiovisual. Pelo menos três deles, porém, conversam entre si: Santiago,
de João Moreira Salles; Terachime, de Naomi Kawase (foto); e O Mundo
em Duas Voltas, de David Schürmann. Embora cada um seja um mundo em si mesmo,
com diferentes proposições e estratégias, eles também são constituintes, em maior
ou menor medida, de um processo de demandas contemporâneas, tanto em matéria de
assuntos quanto de linguagens. Colocados lado a lado, expõe
uma preocupação conectável – mas qual? Os três empregam a imagem como ferramenta
para preservar a memória e a experiência da família. São filmes de filhos, sobre
seus mundos e o dos pais. Portanto, se aproximam de maneiras diferentes, mais
mediadas ou mais diretas, dos espaços e das relações formadoras de uma subjetividade,
a do diretor, que em alguma medida está expressa em imagens. O
Mundo em Duas Voltas manifesta o olhar mais distante, entre esses três casos,
em relação à própria família filmada. Apagando completamente a presença do diretor/filho
(apesar dela ser explicitada na narração de seus pais- protagonistas), nos dá
uma imagem produzida aparentemente por ninguém. Uma imagem gerada por uma ausência,
não pela provocação despertada por uma presença (a de quem filma). Sem voz e imagem,
o diretor, parece não estar lá. No resumo dos mais de 400 dias de volta ao mundo,
refazendo a rota de Fernão de Magalhães, percebe-se quase sempre a presença de
uma câmera, mas não de alguém atrás dela. A maior parte do tempo vê-se apenas
pai, mãe e irmã adotiva do diretor, como se David Schürmann fosse um fantasma
em alto-mar. Uma entidade para quem pai e mãe dirigem a palavra eventualmente,
não como quem se dirige a um filho, mas a um desconhecido ou ao próprio espectador,
sem mediação. Importa para o registro apenas a palavra da autoridade familiar,
até por se tratar de uma homenagem aos cabeças da família. Portanto, um documentário
a serviço de um micro-poder, inclusive explicitado como tal, com as diversas manifestações
do patriarca na condição de “comandante”. Ele manda; os demais precisam obedecer
em nome da sobrevivência do grupo. No comando, o pai dá
o caminho por meio do qual todos viverão novas experiências, adquirirão novos
conhecimentos, conhecerão fragmentos do mundo, de outras culturas, da vida em
sentido mais amplo. O barco em trânsito pelo planeta torna-se condensação metafórica
de um laboratório de resgate das relações familiares em um sentido tradicional.
Como essa célula está atrelada a mobilidade pelos oceanos, cria pelo menos um
paradoxo entre fixação e deslocamento, amplificado pelas palavras da mãe, sempre
nos dando a entender que a jornada é de fuga da civilização ocidental, rumo ao
mar da liberdade, às culturas mais “puras”, mais antigas em seus códigos, mais
preservadas em sua relação com as origens, com a ancestralidade. E logo se identifica
naquela viagem e na memória dela, verbalizada na narração, um claro projeto de
elogio da preservação de rituais culturais, sejam eles os da Polinésia e da costa
africana, sejam os da antiga configuração familiar buscada em alto mar pelos Schürmann
– que só a conseguem por conta de uma modernização do mundo (o barco, os mapas
eletrônicos, satélites). Uma família unida, mesmo fora de um lar fixo, e de braços
abertos para incorporar uma filha adotiva. Mas, uma família que se constrói mais
no relato que na imagem e na relação com o diretor/filho. Parece manca, apenas
um discurso sobre si mesma, sem estar constituída como família na tela. A ausência
de David Schürmann, dentro desse projeto preservacionista e contemporâneo, acaba
por ser uma rachadura. É bastante diferente, mas não oposta,
a estratégia de Santiago. João Moreira Salles não apaga sua presença, mas
se cerca de vários filtros para mediar a revelação da subjetividade, da memória
e da abertura para fragmentos de sua vida. Ele nos abre uma fresta da porta para
sua família e para seu passado, mas o faz com a voz do irmão como intérprete do
narrador em primeira pessoa (do diretor), por meio de seu ex-mordomo e pela análise
de métodos de documentar. Esquiva-se de fazer da fresta uma abertura para os Moreira
Salles. Isso está fora de questão em Santiago. Porque
o que importa, em relação à família do diretor, é preservá-la em memória, usando
a imagem para tal – porém uma imagem familiar rarefeita, turva, que revela menos
uma intimidade e mais o lar como ponto de encontro da elite. Por caminhos bem
distantes, Santiago dialoga com O Mundo em Duas Voltas, porque,
nos dois casos, elabora-se uma história para um espaço familiar (um barco, uma
mansão). Com uma diferença: as imagens dos Schürmanm visam reter a experiência
vivida e registrada enquanto acontecia, ao passo que as de Santiago, por
serem organizadas após a morte da mãe, do pai e do personagem-pretexto (o mordomo),
procuram ser a construção de experiências não exibidas. Elas são aludidas, nunca
mostradas. O caso de Tarachime, de Naomi Kawase, é
mais complexo. Porque ali não se trata de construir memória, ou história, mas
de se afirmar um moto-continuum. As transições entre os tempos, entre antes
e depois da morte da avó da diretora, constantemente ressuscitada pela imagem,
nos tiram do registro do passado, mostrando-nos a permanência das experiências.
Imagem como um sinal de afeto, que expressa continuidade na ruptura (a morte).
A câmera está sempre tão próxima da pele da avó, tão epidérmica, tão intima, quase
fundida ao corpo da mulher de 90 anos, como se fosse um cordão umbilical re-unindo
corpos separados (e não é por acaso a valorização do corte do cordão, repetido
em foto, na seqüência de parto da diretora). Dos três filmes aqui em questão,
Tarachime é aquele no qual mais a diretora se expõe – primeiro com a voz
fora do quadro, escancarando tensões e ressentimentos, depois com o próprio corpo
em momentos delicados, mas sem pudores. Uma câmera assim, tão doméstica, tão íntima
e tão familiar, evidentemente, não pode ter pudores se deseja expressar a família
pela imagem, não apenas na imagem. A associação entre os
dois seios, o da vó e o da diretora, ambos condensados em um símbolo de vida,
e também ameaçados por um tumor (parte do ciclo de aparecimentos e desaparecimentos
de toda família), estabelece essa permanência/fusão. Não há qualquer idealização
poética, porque, antes das imagens de declaração de pertencimento a um mesmo corpo
(a família), escutamos um acerto de contas sobre um mal-estar semeado no passado.
Nesses momentos, ouvimos palavras-rachaduras, ameaças à dimensão una da família
(e a avó chama-se, coincidentemente, Uno), mas apenas para depois restitui-la.
Pode-se concluir qualquer coisa a partir dessas três experiências
audiovisuais? Muito pouco. Mas também seria ingenuidade ou cegueira não ver as
imagens em perspectiva, ignorando esses diálogos entre os três documentários,
sem levar em conta um claro projeto de conservação e restauro da família – seja
para resgatá-la, para mantê-la ou para lhe dar o senso de herança, de continuidade.
Cada um deles usa a câmera para re-unir.
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