in loco - cobertura do É Tudo Verdade

Na Sombra da Lua (In The Shadow of the Moon),
de David Sington (Inglaterra, 2007)
por Eduardo Valente

O céu não é o limite

De uma coisa não restam dúvidas: Na Sombra da Lua mexe com os espectadores – para isso servem de prova os vários prêmios de Júri Popular em festivais de cinema pelo mundo ou simplesmente as pouco comuns (ao menos em sessões sem presença de diretor) palmas espontâneas ao final da sessão carioca do filme durante o É Tudo Verdade 2008. Não é difícil entender o fascínio que o filme causa: afinal, como ele mesmo não cansa de dizer estão ali na tela 9 dos únicos 24 homens que jamais pisaram em um outro corpo celeste que não a Terra – e é humanamente (palavra usada com total consciência) impossível não se comover com algumas das lembranças e palavras ditas por estes homens que viram a Terra da distância, e colocaram os pés na Lua.

Claro que não atrapalha o filme sua nada modesta estrutura de produção (que, ficamos sabendo logo no primeiro crédito que surge na tela, está associada ao nome de Ron Howard – diretor, não custa lembrar de Apollo 13), que conta entre outras ferramentas com uma constante e suntuosa trilha sonora orquestral original. Muito menos ainda é desprezível a força do acesso inigualável que os realizadores tiveram ao material de arquivo da NASA, que nos apresente algumas imagens francamente impressionantes. A combinação dos dois fatores junto com o domínio do diretor sobre a condução da narrativa fazem com que o documentário adquira em vários momentos (em especial a viagem da Apollo 11, a primeira missão a pousar na Lua) a sensação de que estamos vendo um blockbuster de ficção científica, cheio de suspense e timing dramático.

No entanto, o pulo do gato do filme vem mesmo na simplicidade máxima de um singelo setup de câmera em close contra fundo neutro, frente aos envelhecidos rostos dos astronautas sobreviventes (curiosamente o único dentre os vivos que não falou – e que vive de maneira reclusa – é justamente o primeiro a colocar os pés na Lua, Neil Armstrong). É das vozes dos nove homens que nasce toda a força emotiva que o filme alcança – uma força que, se não esconde o contexto eminentemente político da decisão americana de incorrer na corrida espacial, também não faz a menor questão de politizar sua narrativa. Há a eventual menção ao contexto americano em 68-69, a citação bastante distanciada ao Vietnã e o uso propagandístico dos feitos daqueles homens. No entanto, fica bem claro que quem deseje um filme-denúncia deve ir procurar isso em outro lugar. Na Sombra da Lua se interessa pelo que realmente há de transcendente em meio a tudo isso: a experiência extraordinária de um ser humano frente a algo que, no máximo, o resto de nós pode sonhar em conhecer.

Abril de 2008

editoria@revistacinetica.com.br


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