in loco - cobertura do É Tudo
Verdade Stranded (idem), de Gonzalo Arijon
(França, 2007) por
Paulo Santos Lima
Imagens,
de fato
Em Stranded, o uruguaio Gonzalo
Arijon retoma um evento da nossa história recente que ganhou conotação tão sacra
quanto sensacionalista, de lenda: o acidente com o Vôo 571, que caiu nos Andes
em 1972 e deixou seus passageiros no abandono da natureza inóspita das atalaias
e dos vales enregelados da cordilheira chilena, forçando-os a procedimentos-limite.
Um fato real banhado de narratividade e mitologias, prato cheio para um veio da
produção documental que se esmera em tornar seu fluxo de imagens algo bastante
próximo da ficção. Tal opção, contudo, torna arriscado, sobretudo
no documentário, o comprometimento de certos filmes e seus temas. O que aconteceu
àqueles jogadores de rúgbi uruguaios que pretendiam passar um final de semana
no Chile foi algo extraordinário, sobre-humano diante da quase impossibilidade
de se sobreviver a condições naturais bastante cáusticas, frio tremendo e escassez
de comida. Muitos sabem o que se tornou epígrafe da (des)aventura desses homens,
que resistiram por 72 dias até encontrarem socorro: o fato deles se alimentarem
da carne dos mortos do acidente, e, para tal, precisarem fazer toda uma traumática
reavaliação de conceitos e crenças, remoldar uma moral adequada para aquela situação
desairosa. E
a quem Arijon recorre para tornar imagem os relatos dos sobreviventes? César Charlone,
excelente fotógrafo, não haja dúvida, mas cujo trabalho notabiliza-se pela extrema
estetização. Assim, se por um lado o diretor comete uma notável ação de voltar
a essas pessoas e revolver o que se passou com elas, inclusive levando alguns
a campo, tudo isso é traduzido em imagens bastante “bonitas”, poéticas, fazendo
acordes visuais com fachos de luz, poeira do gelo criando atmosferas e raios solares
criando camadas no plano. Sobre o canibalismo, se o que falam é bastante sério,
detalhando menos e esclarecendo mais o respeito que eles mantiveram com os colegas
mortos diante daquela atitude bastante tabu, o filme não tem o mesmo freio moral,
e reproduz uma passagem e outra, como eles tirando farpas de carne – mesmo que
mais insinuando e jamais explicitando. A decupagem, acompanhada das imagens caligrafadas
por Charlone (belíssimas, não necessariamente proibidas de estarem num documentário),
acaba construindo, contudo, um filme ao estilo Discovery Channel, daqueles que
mostram alpinistas ou caçadores lutando bastante contra o poder titânico da natureza.
Se a inclinação narratizadora e mitificadora dos depoentes
é uma realidade quase universal, não seria papel do diretor filtrar isso adotando
elipses ou outra natureza de fotografia e narrativa? Mas, assim, não seria um
longa que não o que Gonzalo Arijon pretendia? Há, de fato, uma regra que impeça
alguém de construir uma obra com tais recursos, mesmo que os envolvidos estejam
de comum acordo? A resposta pode estar no fato de que, se por um lado Stranded
permite que esses homens tão interessantes, que inclusive persistiram de forma
super-heróica contra uma impossibilidade quase factual, contem e esclareçam aquilo
que a imprensa da época tornou almanaque, por outro esse sensacionalismo estético
mitiga toda uma experiência bastante árdua e complexa, deixando todo o discurso
ao nível das reduções e mau gosto produzidos, por exemplo, pela imprensa, pelo
imaginário coletivo e pelo horroroso Vivos, filme de Frank Marshall que
reconstituía o acidente com igual sede de narratividade. Abril
de 2008
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