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especial mostra sp 2009 500 Dias com
Ela (500 Days of Summer), de Marc Webb (EUA, 2009) por
Filipe Furtado 500
Dias com Ela poderia ser um bom filme, mas ao invés disso é uma bela
ilustração. Raramente nos vemos diante de um filme que ilustre tão bem toda a
indústria de cheeseburger do cinema independente americano. 500 Dias
com Ela tem um bom ator (Joseph Gordon-Levitt) se esforçando muito para vender
o filme e uma premissa (rapaz precisa se recuperar de um fora enquanto relembra
a relação) de interesse. A partir daí Marc Webb completa a idéia inicial com todos
os cacoetes esperados para vender seu filme, seja as referências musicais aceitáveis
(o primeiro dialogo do casal se dá quando ela o elogio por gostar dos Smiths),
a narrativa atemporal (com cartão de explicação para o espectador não ficar perdido),
os atores indie (Gordon-Levitt, Zoey Deschanel), etc. Nada ilustra isto
melhor que as cenas entre o protagonista e seus dois melhores amigos: são seqüências
funcionais, com os dois coadjuvantes ali essencialmente para dar ao protagonista
alguém para conversa e/ou servirem a alguma piada. O que impressiona é como não
existe nenhuma intimidade sugerida nestas cenas, como é impossível diante delas
dizer “ei, estes caras se conhecem há anos e estão sempre muito à vontade entre
eles”. 500 Dias com Ela se preocupa demais em se vender de forma eficiente
para que tal intimidade possa se instaurar. Entre Gordon-Levitt e o profissionalismo
industrial, 500 Dias com Ela certamente se deixa ver facilmente. Mas diz
muito sobre este cinema que o blockbuster que o ator fez este ano pelo
cheque (GI Joe) pareça ter muito mais personalidade que isto aqui.
Águas
Verdes (Aguas Verdes), de Mariano De Rosa (Argentina, 2009) por
Eduardo Valente Pode-se
chamar Águas Verdes de tudo, menos de um filme discreto. Seja no registro
dos atores, seja no seu uso da música, seja principalmente na sua forma de trabalhar
com a câmera, Mariano de Rosa não demonstra o menor medo de ser absolutamente
exagerado em tudo que faz. Este fato tem algo de positivo num determinado ambiente
do cinema de autor e dos festivais, onde o registro hiper-naturalista e “sensível”
tem imperado ao ponto de se tornar um cacoete adquirido. Rosa parece invadir este
ambiente asséptico com um bem vindo mau gosto, uma certa relação com o cinema
de gênero no âmbito dos “filmes familiares”, um gosto pela comédia onde talvez
ela não fosse esperada. No entanto, embora consiga de fato construir momentos
isolados onde alguns destes elementos resultam muito bem, o que falta a Águas
Verdes é mesmo um domínio do seu todo, principalmente no que se refere ao
andamento da sua narrativa. Uma vez estabelecida a situação básica (pai ciumento
de férias na praia com a mulher e a filha adolescente mergulha em paranóia), o
filme parece satisfeito em repeti-la e explorá-la a exaustão, num andamento que
até nos toca nos seus momentos mais demenciais, mas no geral gira em falso. Se
ao final não se pode exatamente dizer que seja um bom filme, fica pelo menos a
sensação de descobrir o que poderia acontecer se um filme de Lucrecia Martel encontrasse
um exemplar sincero do mais trash dos cinemas. As faíscas que saem desta
fricção eventualmente possuem sua graça.
Amanhã
ao Amanhecer (Demain dés l’aube), de Denis Dercourt (França, 2009) por
Filipe Furtado No
centro de Amanhã ao Amanhecer está um grupo que reencena batalhas napoleônicas.
Dercourt é completamente enamorado pelo efeito da transição do cotidiano do protagonista
– um pianista em crise passando uma temporada com a família – e o jogo de reencenação.
O filme reconhece uma psicose nestes homens, que levam muito a sério os papéis
que assumem, mas não se importa muito. Pelo contrário, o próprio Dercourt partilha
dela. As cenas contemporâneas de Amanhã ao Amanhecer são de um funcionalismo
morto. Movem a trama adiante, mas nunca parecem despertar a atenção do seu cineasta.
Os olhos do filme se voltam exclusivamente para os momentos quando seus personagens
vestem fardas e reassumem a pompa dos seus papéis. Um problema sério, já que a
dramaturgia do filme pede que o jogo de encenação dialogue com a crise pessoal
do pianista e que Dercourt é um cineasta cujo cinema se encerra nesta dramaturgia.
Amanhã ao Amanhecer se revela por demais frouxo e incapaz de dar qualquer
moldura real ao seu conceito. Dercourt tem uma idéia, mas jamais consegue torná-la
um filme.
Dente Canino (Kinodontas),
de Yorgos Lanthimos (Grécia, 2009) por Eduardo
Valente Desde
o primeiro plano, em que um gravador K7 anuncia significados distintos para palavras,
fica claro que Dente Canino afirma uma espécie de "universo
paralelo" que funciona dentro da casa onde mora (ou melhor, se refugia) a
família que protagoniza essa história. De fato, trata-se de um filme
que propõe como protagonista a família, não apenas disfuncional,
mas propondo uma funcionalidade outra, baseada na alienação do mundo
e na dominação alheia. Até aí, para além de
nos lembrar de um A Vila ensandecido, o filme poderia resultar interessante,
até por afirmar o cinema como este lugar onde novas regras podem ser propostas,
onde um universo novo pode aparecer do zero. No entanto, logo fica claro que para
o cineasta grego Yorgos Lanthimos esta perspectiva não interessa de outra
forma que não seja refastelar-se no bizarro, mais especificamente no que
de mais doentio pode resultar dessa reação. Não por acaso,
ao contrário de Shyamalan, embora ambos os filmes se desenvolvam naturalmente
rumo ao desfacelamento dessa relação de poder, aqui isso só
pode se dar pela tragédia - e, portanto, pela chance do realizador esmagar
com seus dedos na câmera estes insetos que ocupam o lugar de personagens
na tela. Efeitos Secundários
(idem), de Paulo Rebelo (Portugal, 2009) por Eduardo
Valente Quando
sabemos que Paulo Rebelo trabalhou como roteirista dos dois primeiros filmes de
João Pedro Rodrigues (O Fantasma, Odete), enxergamos esta sua estréia
como diretor de longas com outros olhos. Pois se há algo que Efeitos Secundários
(título que para o Brasil faria mais sentido se “traduzido” como “Efeitos Colaterais”)
comprova é justamente como o cinema é e continuará sendo sempre, primordialmente,
uma arte do diretor. Trabalhando com elementos que reconhecemos facilmente dos
filmes de Rodrigues (uma atenção aos impulsos desviantes, ao personagem marginal
em vários sentidos do termo), Rebelo não consegue nunca construir um universo
audiovisual à altura da força de cinema que seu colega retirava de suas histórias.
Efeitos Secundários soa sempre reiterativo, rodando em falso (como a trilha
sonora repetitiva à exaustão mais claramente exemplifica), desde sua primeira
sequência em que a personagem principal vai à beira de um abismo para rasgar fotos
do pai e da mãe, deixando bem claro o que a move já de saída. O filme transitará
sempre entre esta necessidade de explicar bastante as motivações e explorar as
dramaticidades mais óbvias com uma opacidade na relação dos espectadores com aqueles
personagens que se mantém firme apesar dos esforços em contrário. É um filme que
claramente hesita e se desequilibra entre suas intenções e resultados.
Embarque Imediato, de Allan Fiterman (Brasil, 2009)
por Eduardo Valente No cinema,
como de resto em qualquer outra parte da vida, ambições são sempre bem vindas
– no entanto, quanto maiores sejam, mais fortes podem ser as quedas. Talvez isso
ajude a entender porque a queda que sentimos vendo Embarque Imediato pareça
tão grande: aquilo que poderia ser apenas um exercício de gênero sem maiores habilidades
ou talento vira um desastre justamente porque almeja ser mais do que isso. Por
um lado, há o claro interesse em propor um clima para além do realismo naturalista,
sob influência forte dos tons almodovarianos (algo
que surge em cena desde uma personagem que fala em espanhol até a relação direta
de um personagem com o cinema clássico, aqui via Gilda); por outro, a ambição
de fazer uma observação aguda sobre o desejo brasileiro de emigrar para o Primeiro
Mundo em busca de oportunidades. O problema é que, no primeiro caso, falta a Fiterman
o domínio do artesanato básico do cinema, algo que Almodóvar sempre teve e que
especialmente hoje esbanja. Por um lado, Embarque Imediato parece editado
com um machado, retirando qualquer possibilidade de clima no interior de suas
seqüências já bastante problematicamente encenadas e decupadas (os exemplos são
inúmeros, mas a cena de sexo e aquela em que Marilia Pêra aparece fazendo ginástica
são os ápices); por outro, no desejo de colocar os atores um tom acima do naturalismo,
o filme se perde em desempenhos quase grotescos (ou totalmente, no caso de José
Wilker), nos lembrando sempre que a sátira e a farsa não são uma simples exacerbação
da realidade para os campos de qualquer comicidade. O que é uma pena nisso tudo
é que, no meio de toda a inaptidão de linguagem e no discurso sócio-econômico
simplório, há ali um ponto de interesse inegável: a relação amorosa entre um casal
tão improvável como o formado por Marilia Pêra e Jonathan Haagensen. Infelizmente,
porém, Embarque Imediato não consegue criar nem narrativa, nem dramaturgia
que nos permita minimamente partilhar desta relação. Esburacando
(Man Tänker Sitt), de Henrik Hellstrom e Fredrik Wenzel (Suécia, 2009)
por Eduardo Valente Após
um misterioso e instigante primeiro plano em que a câmera perfaz um movimento
lento em uma rua de subúrbio sem um motivador óbvio, num tom semi-escuro de imagem
que torna o espaço ao mesmo tempo fantasmagórico e belo, vemos um menino em meio
à natureza de um bosque. Logo, a voz deste menino assume para si o papel da narração
de Esburacando, e a epígrafe de Thoreau que abria o filme sobre a primeira
imagem revela-se bem mais presente, pois este narrador infantil cita vários textos
do filósofo-escritor, principalmente Walden. Na medida em que essa voz
pede constantemente um retorno a um estado natural, a uma relação com a natureza
que iria contra as normas e limites das relações humanas conforme estabelecidas
socialmente, Esburacando vai acumulando cenas isoladas na vida de uma série
de personagens que têm em comum a incompreensão de todos à sua volta. São vidas
à margem, a começar pela do menino-narrador. Os diretores apelam com frequência
na trilha sonora a cantos de inspiração religiosa, talvez um pouco incerto da
capacidade de suas imagens atingirem qualquer transcendência por si mesmas. E
estão corretos: bebendo de fontes estéticas que parecem buscar o diálogo
com o cinema de Terence Malick, Gus Van Sant ou Carlos Reygadas, seu resultado
final está muito mais perto do Dias de Cão, do austríaco Ulrich Seidl.
Só que enquanto este último ao menos tinha a coragem de fazer o cinema do desagrado,
do mal estar assumido como tal a sua enésima potência, eles parecem buscar na
música ou nos textos de Thoreau uma poesia que torna tão mais insidioso seu discurso,
que encarnado na voz de uma criança tem o golpe final para ser considerado mais
“verdadeiro” (pois, aparentemente não mediado). O filme chafurda no sofrimento
de seus personagens querendo retirar dali beleza pela opressão, e não há opção
mais dantesca e egocêntrica em toda expressão artística. Eu,
Ela e Minha Alma (Cold Souls), de Sophie Barthes (EUA/França, 2009)
por Eduardo Valente Desde
a leitura da sinopse de Eu, Ela e Minha Alma, é mais do que justificada
a impressão de que o filme tenha mais do que uma mera semelhança com Quero
Ser John Malkovich. Só que aqui o ator que interpreta a si mesmo é Paul Giamatti
(de fama curiosamente semelhante com a de Malkovich), e não só ele é o protagonista
do filme (o que Malkovich estava longe de ser), como o que ele quer é deixar de
ser Giamatti, por assim dizer – e, para isso, vai procurar uma empresa que promete
“armazenar almas”. A sequência em que ele entra na empresa pela primeira vez,
e
se consulta com o médico interpretado por David Strathairn faz crer que o filme
enveredará pelo caminho da farsa absoluta através de um diálogo bastante inteligente,
dito num timing preciso por estes dois ótimos atores. No entanto, desde
a abertura do filme há uma montagem paralela que traz uma outra personagem para
o foco da narrativa, uma russa que vamos ao pouco entendendo como se relaciona
com a história de Giamatti. Quando a câmera está com ela, muda de registro: vai
para a mão, com os tiques mais óbvios de um dito “realismo”. Aos poucos as histórias
se unem, e aí fica claro que, sem abrir totalmente mão do humor, o filme deseja
que levemos minimamente a sério questões como a relação da alma com o indivíduo
ou os abusos de empresas com empregados de países como a Rússia. E aí é um esforço
excessivo que se pede do espectador: por um lado, que acredite numa idéia tão
esperta e absurda quanto afirmar que a alma de alguém, uma vez extraída do corpo,
pode assumir a forma de um grão de bico; por outro, filmar cenas “sensíveis” de
subjetividade “dentro da alma” de Giamatti, em que ele se vê bebê, com a mãe,
a mulher (ficcional, interpretada por Emily Watson), etc. Em grande parte é por
querer rezar para estes dois santos bem distintos que, passado seu curto momento
de graça inicial, o filme vai perdendo o interesse do espectador, que não consegue
mais nem levar a sério o absurdo nem rir sem preocupações. Pensando bem, esse
sentimento tem realmente muito a ver com o trabalho de Charlie Kaufman.
Eu Matei Minha Mãe (J'ai
tué ma mère), de Xavier Dolan (Canadá, 2009) por
Filipe Furtado Muito
do interesse que Eu Matei Minha Mãe desperta no circuito de festivais deriva
da proximidade do jovem cineasta para com seu material. O próprio Dolan interpreta
o adolescente gay que mantém uma relação de amor e ódio com sua mãe, e é inegável
a energia que injeta no filme. Seria extremamente injusto chamar Dolan de charlatão,
pois por mais óbvios que sejam boa parte dos recursos “artísticos” do qual lança
mão é visível que trata-se de um filme sentido. O problema é que nada disso impede
Eu Matei Minha Mãe de ser um filme, no fundo, muito tolo. O apelo de um
diário adolescente em forma de greatest hits de cinema de arte pode ser
grande, mas seu limite é óbvio. Na maior parte do tempo, Dolan varia o registro
entre o psicodrama quase amador e a diluição de muitos filmes melhores. Resta
uma ou outra cena que despertam algum interesse e uma impressão de que tudo é
um tanto calculado demais (como a decisão de incluir uma cena em que o namorado
aponta como o alter-ego de Dolan é difícil próximo ao fim do filme). Fica também
a certeza de que entrega e a energia do cineasta nunca compensam de todo sua falta
de talento.
Fique Calmo e Conte Até
Sete (Aram Bash Va Ta Haft Beshmar), de Ramtin Lavafipous (Irã, 2008)
por Eduardo Valente As
primeiras sequências de Fique Calmo e Conte Até Sete em nada se adequam
ao ritmo do que se convencionou identificar com o cinema iraniano: há uma verdadeira
corrida de botes a motor pelo mar, seguida de uma correria uma vez que se chega
à praia, com personagens sendo perseguidas pela câmera pelas vielas de uma minúscula
vila de pescadores enquanto tentam esconder enormes pacotes trazidos pelos botes.
Este ritmo se repetirá em vários momentos ao longo do filme, mas a batida com
que ele segue na maior parte do tempo é outra, bem mais familiar: o ritmo de uma
vida parada, de espera. Espera pela volta de um pai sumido no mar, espera de uma
chance de conseguir encontrar uma saída para uma vida retratada sempre como sem
saída. Talvez este seja o filme mais direto a dar conta das condições de vida
de uma aldeia pobre no Irã, menos pelo que mostra e mais pelo que deixa subentender
da falta de perspectivas, até mesmo por um estado de marginalidade que parece
atingir todos em cena (são ou desejam ser clandestinos, contrabandistas, e até
mesmo os policiais são retratados como desinteressados e sem motivação real).
É um filme duro, cuja secura não torna sua fruição (termo, aliás, bem inadequado)
particularmente fácil, e que se não traz nenhuma grande novidade para o cinema
mundial contemporâneo, consegue imprimir seu incômodo existencial de maneira bem
presente no imaginário do espectador.
Inversão,
de Edu Felistoque (Brasil, 2009) por Filipe Furtado
É
no mínimo curioso que Inversão faça parte da seção Novos Rumos da Première
Brasil já que é impossível imaginar que novo rumo foi encontrado pela curadoria
neste filme. A não ser que o observamos em conjunto com alguns outros filmes da
Première (Bellini e o Demônio na competição, Sem Fio também no Novos
Rumos) como exemplares finais de um cinema brasileiro que, na busca de tentar
chegar ao que seria um cinema moderno e contemporâneo, termina incapaz de produzir
um único plano de cinema. Não há uma única imagem articulada em Inversão:
dois planos que construam um sentido, um posicionamento de câmera que sugira que
se gastou mais que alguns segundos se considerando como filmar determinada seqüência.
Basta dizer que o mais próximo de um pensamento estético em Inversão é
tentar sugerir uma doença generalizada através de filmar mais da metade do filme
com um filtro verde-vômito. Fora isso, estamos diante de um típico exemplar de
um cinema completamente incapaz de existir simplesmente como tal, com sua trama
de gênero seqüestrada por uma constante tentativa de ser mais do que isso. Não
deixa de ser impressionante a tentativa do filme de se colar nos ataques do PCC
em busca de significância, a despeito de que sua única função no filme seja justificar
o casting de Marisol Ribeiro como a menos crível delegada da história do
cinema. Aí percebemos que o projeto de Felistoque deixa de ser só incompetente,
e se torna torpe mesmo.
Mamonas Pra
Sempre - O Doc, de Claudio Khans (Brasil, 2009) por
Francis Vogner dos Reis
O
filme de Claudio Khans tem algumas camadas de interesse na conjugação
entre as imagens de arquivo da banda Mamonas Assassinas, que em muitos momentos
tem força autônoma, independente de sua organização.
Conjuga depoimentos de conhecidos e imagens de arquivo com algumas intervenções
em forma de animação. O filme, por exemplo, começa com uma
imagem subjetiva que grava o vocalista Dinho, que em seguida coloca a câmera
VHS no chão e dá um chute na lente. Se é um filme com algumas
imagens fortes é porque o diretor Khans teve a sensibilidade necessária
em saber onde, e em que momento, colocar cada uma delas. Acontece que o documentário
choca forças opostas. A porção do filme que dá prioridade
às imagens que foram realizadas em VHS pelos integrantes da banda, antes
e durante o seu sucesso, é o que leva o documentário além
do protocolar. No entanto, a convenção em dar ordem e sentido a
esse material de arquivo com entrevistas de amigos e familiares é o que
conspira contra o filme, porque transforma a história da banda em uma narrativa
ascendente rumo ao sucesso, enquanto as imagens dos Mamonas são pura desordem,
prazer e de um entusiasmo com plena consciência do caos que eles instauravam
sempre, para e partir de suas próprias imagens. Khans domestica o que originalmente
repudia o domesticável. Uma pena.
Mau
Dia Para Pescar (Mal Dia Para Pescar), de Alvaro Brechner (Uruguai/Espanha,
2009) por Eduardo Valente Há
duas possibilidades diretas de nos relacionarmos com Mau Dia Para Pescar.
Podemos olhar para ele desprovido de qualquer contexto de produção, e enxergamos
apenas mais um con movie (aqueles onde os personagens principais tentam
aplicar um golpe) sem atrativos particularmente distintivos em relação ao que
de melhor já se fez no gênero. Ou podemos pensá-lo como obra de um diretor estreante
em longas produzindo a partir de um país com uma tradição tão precária de cinema
como é o caso do Uruguai. Embora seja saudável não perdermos de vista a primeira
opção, parece impossível não usarmos da segunda para nos aproximarmos com razoável
admiração pelo que consegue fazer Alvaro Brechner neste seu primeiro longa. A
começar pela forma como consegue construir seus personagens com bastante tranquilidade,
deixando que as suas ações ao longo do filme vão jogando luz sobre aspectos distintos
de suas personalidades, ampliando o leque de interesses mútuos em suas relações.
O filme consegue trafegar de um princípio que lembra o cinismo dos irmãos Coen
para um final muito mais próximo do recente O Lutador. Mas, existe ainda
uma dimensão estética de realização que não pode passar despercebida. Se em parte
esta tem a ver com a criação de um universo puramente cinematográfico a partir
de elementos como a foto em scope ou a direção de arte quase atemporal,
o que principalmente chama a atenção é a maneira como Brechner busca simplesmente
impor sua fábula sem maior peso para significados extra-diegéticos. Em ambos os
casos, percebe-se aqui uma muito bem filtrada influência do melhor do cinema americano,
um cinema que criou aquela verdadeira fábrica de ficção, e que parece tão mais
deslocado como registro num país completamente desprovido de indústria de cinema
como é o Uruguai. Por tudo isso, Mau Dia Para Pescar consegue soar como
um filme absolutamente comum e alienígena ao mesmo tempo. Se é impossível imaginar
os próximos passos de seu diretor a partir dele, é também importante admirar as
várias qualidades que ele já demonstra aqui.
Morgue
Story - Sangue, Baiacu e Quadrinhos, de Paulo Biscaia Filho (Brasil, 2009)
por Eduardo Valente Paulo
Biscaia Filho tem uma carreira estabelecida como diretor de teatro, com um conjunto
de peças onde trabalha sob a influência direta dos quadrinhos e do cinema de gênero,
tentando trazer para os palcos determinadas interseções entre estas linguagens
e suas sensibilidades. Pois em Morgue Story, o caminho feito é o contrário:
ele pega uma das suas peças e traz para o cinema. De alguma forma é um processo
que tem algo de regressão, portanto, porque o que temos é algo que, de
alguma maneira, já vinha do cinema, e que agora parece voltar a ele depois de
passar por uma outra linguagem. Não por acaso, a sensação que fica é de que algo
se perde nestas idas e vindas, como aconteceria num processo de seguidas cópias
de fitas de vídeo VHS, uma para outra. Isso talvez aconteça pelo fato de
que, se o cinema surgia como referência direta nas suas peças, aqui ele parece
continuar sendo pensado a partir de uma idéia de confluência de linguagens (quadrinhos,
teatro, rock), e não como uma linguagem específica. Ao contrário dos trabalhos
de um Robert Rodriguez ou um Tarantino (outras influências bem firmes do diretor)
em Grindhouse, por exemplo, aqui a cinefilia parece menos o alimento que
gera um movimento pessoal potente e único, e mais um fetiche. Isso dá ao filme
pouco mais do que o sentido de um pastiche do pastiche, onde o cinema de gênero
parece presente muito mais como um molde de piadas do que exatamente como algo
em que se acredita. O filme parece estabelecer com a idéia de cinema de horror
uma relação parecida que um quadro do Casseta e Planeta tem com a novela das oito
ou de um esquete do Saturday Night Live. Por isso, assim como acontece com qualquer
um destes, a graça e o interesse dependerá sempre da qualidade das piadas e das
atuações. E embora estes encontrem momentos inspirados aqui e ali, a sensação
mais duradoura é um pouco a que temos nos filmes oriundos destes mesmos programas
de TV: a de que a piada funcionava melhor quando era curta.
Perseguição
(Persécution), de Patrice Chereau (França, 2009) por
Filipe Furtado Perseguição
é exemplar dentro da obra do seu cineasta. Jamais descreveremos um filme de Patrice
Chereau como leve. Pelo contrario, Chereau sempre pensa a direção como partir
de uma situação dramática e intervir de forma a lhe dar uma carga maior. No seu
melhor – Gabrielle – esta idéia de cinema abre espaço para uma intensidade
de sentimento que carrega o filme para além da mão pesada; quando a abordagem
não funciona resulta em exercícios barracos grotescos. Perseguição definitivamente
não funciona. Durante 100 minutos, Romain Duris sofre (existe algum ator no cinema
francês contemporâneo que sofra com tanta arte como Duris?) e se angustia, enquanto
Chareau encontra maneiras de carregar cada cena. A idéia principal do filme é
que Duris se sente mais à vontade com seu perseguidor (Jean-Hughes Anglade) do
que com a namorada (Charlotte Gainsbourg), prefere o patético da agressividade-passiva
dele à agressividade da independência dela. As cenas entre eles, porém, são intercambiáveis.
A mise-en-scène de Chereau é fixa: perseguidor ou namorada, a intimidade
possível com estranho ou a intimidação diante dela, tudo leva a mesma tentativa
de procurar os adereços certos para enfeitar este sofrimento. É um filme de um
tom só e chega a ser admirável a forma como Patrice Chereau busca sustentá-lo
sem vergonha alguma da monotonia. Admirável, mas inútil. Não há uma imagem limpa
ou plano que respire. Ao buscar preencher seu filme de “direção”, Chereau o asfixia.
Se há algum interesse possível enquanto seu projeto não fica claro, este logo
se esvai. Resta somente observar o desfile de adereços de Chereau que, no lugar
da intensidade que ele procura, apenas banaliza cada imagem e sentimento.
O Rei do Ping Pong (Ping Pong Kingen), de
Jens Jonsson (Suécia, 2009) por Eduardo
Valente É
claro que a força de qualquer romance de formação a essa altura da história das
narrativas não virá de uma novidade no que ela tem de mais básico (a superação
de uma fase de transição para a vida adulta), só podendo advir de algum frescor
na maneira como se busca encená-lo. Pois é exatamente nisso que mais fracassa
este O Rei do Ping-Pong, filme que une ao componente necessariamente previsível
de sua narrativa uma assepsia de linguagem que o torna quase insuportável como
exercício de linguagem. Jens Jonsson, curta-metragista que realizou alguns trabalhos
notáveis, estréia em longa com uma preocupação extrema em demonstrar um domínio
absoluto do que coloca em cena, sufocando todos os seus personagens neste processo.
Aos elementos já mais do que esperados na narrativa de seu anti-herói (o pai ausente,
a dificuldade no relacionamento com as meninas, o abuso por parte dos colegas
de escola, etc), Jonsson adiciona uma fotografia em scope extremamente
controlada que esquadrinha um mundo absolutamente desprovido de cores fortes (tudo
no filme transita entre o bege, o rosa e o azul claro), numa metáfora bastante
rasa e hiper-sublinhada sobre as vidas na pequena cidade sueca. Jonsson usa de
um golpe bastante fácil ao passar quase uma hora e meia drenando o universo de
seus personagens de qualquer resquício de vida para, no clímax, colocar um mínimo
desta e esperar daí um peso de redenção (narrativa e para o mundo). É pouco, muito
pouco mesmo, para quem já tinha demonstrado bem mais talento para o risco. Johnsson
parece sofrer do mal de quem constrói uma carreira tão firme nos curtas que se
espera muito do primeiro longa – e o filme parece travado por este medo em ser
“correto”, “exato”, “artístico”, resultando simplesmente morto.
Seguindo em Frente (Aruitemo aruitemo),
de Hirozaku Kore-eda (Japão, 2008) por
Fábio Andrade Logo
no começo de Seguindo em Frente, ouviremos o belíssimo tema de Gonchichi
– uma peça ao violão que parece uma versão melancólica da inesquecível trilha
de Alain Romans para As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati. A associação
com Tati, porém, não virá pelo humor, mas sim pela leveza que perpassa todo o
filme, e que Kore-eda muitas vezes alcança de maneira exemplar. Embora sua temática
familiar sugira uma aproximação superficial com o cinema de Yasujiro Ozu, Seguindo
em Frente não tem como virtude o rigor de forma e estrutura, mas sim um trato
bastante afinado das ações cotidianas e das relações entre personagens que o filme
consegue desenhar com tintas bastante matizadas – o que faz dele mais uma versão
doméstica de O Gosto do Chá, de Katsuhito Ishii, do que um novo O Gosto
do Arroz no Chá Verde. Kore-eda trabalha temas de peso notável com bastante
leveza, o que garante um embarque fácil e bastante prazeroso. A falta de rigor,
porém, se torna um empecilho incontornável nos dez minutos finais, quando o diretor
põe a perder toda a leveza conquistada, em nome da clareza excessiva de seu encerramento.
Ali, com o voice over lamentoso e a vontade abrupta de se produzir o maior
número possível de sentidos em seu final, Seguindo em Frente ganha um peso
que ele sabiamente evitara ao longo de toda a projeção, um peso que seu corpo
nunca esteve preparado para sustentar. Selvagens
(Salvage), de Lawrence Gough (Inglaterra, 2008) por
Eduardo Valente É
sempre um pequeno prazer, especialmente em mostras de cinema muitas vezes marcadas
por filme completamente distintos entre objetivos e capacidades de realização,
assistir a algo como Selvagens, um modesto (em vários sentidos do termo)
exercício em cinema de gênero. Lawrence Gough certamente assistiu boa parte do
que de melhor já se fez no gênero e, pelo menos a julgar por este seu primeiro
filme, não se imagina como um inovador, com todos os riscos aí existentes (da
inovação se tornar derivação ou simplesmente perder o nexo). Mostra-se, antes,
um competente artesão que impressiona menos exatamente pelas cenas em que explora
mais especificamente o horror ou o suspense, mas principalmente pela passagem
bastante esperta (e não exatamente simples de se realizar) do drama pessoal de
personagens para o registro do desconhecido. Suas referências à paranóia do mundo
pós-11 de setembro soam menos como muletas de contemporaneidade do que um desejo
de se referir ao cinema de gênero clássico, no contexto da Guerra Fria – da mesma
forma que seu latente moralismo (adultério e promiscuidade logo levam à “punição
divina”). Claro que se pode (e até deve) levar a sério seu discurso onde
o sistema e o exército se revelam mais horrorosos do que os monstros, mas esta
realmente não é a grande qualidade de Selvagens, e sim a sua forma de ir
direto aos pontos e causar reações físicas de seu espectador.
Sem
Fio, de Tiaraju Aronovich (Brasil, 2009) por Eduardo
Valente O
caminho mais fácil para descartar Sem Fio como projeto seria chamá-lo de
uma espécie de Crash (não o do Cronenberg, claro, o ganhador do Oscar)
com déficit de atenção, disfarçado de linguagem hiper-moderna – aonde somam-se
aos já mais que clichê balançar constante de câmera e cortes inumeráveis dentro
das cenas, um trabalho de redesenho de cores e estouros de luzes por efeitos de
pós-produção e o uso de um sem número de efeitos na trilha musical eletrônica.
No entanto, haveria algo de inexato nisso, porque em Crash há um projeto
de fato: reduzir a experiência humana a um modelo de humanismo onde há lições
a serem aprendidas (pelos personagens, mas principalmente pelo espectador) com
cada ação e seus resultados. Escudado por uma menção em cena (com todo o peso
de bula) à teoria do caos, Sem Fio obviamente não tem este projeto, pois
de fato não há lição nenhuma a ser aprendida por ninguém ao passar pela história
dos seus personagens. Há apenas o desejo de se afirmar “moderno”, “ousado”, “atual”,
matando, no caminho, qualquer sentido que estes termos já tiveram. A única lição
aqui é a de que a linguagem do cinema parece chegar a um paroxismo onde, após
ser infestada de ferramentas pelas suas decorrências (TV, publicidade, videoclipe),
ela volta ao formato original desprovida de qualquer sentido, como se após anos
e anos de evoluções (não no sentido de melhorias, mas de caminhadas para a frente,
sempre), o resultado proposto fosse uma incapacidade de olhar para qualquer coisa
com uma câmera. Neste sentido, a simples existência de Sem Fio representa
uma morte para o cinema e sua linguagem, e por isso mesmo um desafio para o crítico
frente a este cadáver barulhento e epilético. Afinal, há crítica após a morte?
Os Sorrisos do Destino, de Fernando Lopes (Portugal,
2009) por Eduardo Valente Desde
os seus primeiros planos, o que mais chama a atenção em Os Sorrisos
do Destino é mesmo uma maneira extremamente jocosa de colocar em cena
os seres humanos e as pequenas trocas entre eles. Se o cinema português
tem sido farto em apresentar-nos uma série de cineastas donos de um humor
muitas vezes ácido e extremamente fino (algo especialmente forte em João
César Monteiro, mas que atravessa vários outros tipos de cinema,
até mesmo o de Manoel de Oliveira), Fernando Lopes não parece ser
diferente. Cineasta de quase 80 anos de idade, com uma longa carreira de filmes
bastante importantes na fase áurea do "cinema novo" português,
ele se mostra aqui, em outra característica que nos traz à lembrança
Oliveira principalmente, extremamente rejuvenescido no seu olhar para o mundo.
Incorpora como parte essencial de sua narrativa as novas tecnologias (principalmente
o celular, e as mensagens de texto), mas o faz sem deslumbramento e com um toque
irônico forte. Por trás de todo este humor cáustico claro
que existe em sua história do fascínio de um casal de portugueses
por um escrito angolano mais jovem um comentário bastante agudo sobre a
relação entre Portugal e suas colônias, mas não se
trata de uma narrativa alegórica de forma alguma. Como a lua de Meliès
brilhando no céu no final do filme nos deixa claro, o cinema é antes
de tudo o espaço do lúdico para Lopes. Que toda brincadeira tenha
um fundo de seriedade é apenas algo natural para ele, que se interessa
acima de tudo em brincar.
Topografia
de um Desnudo, de Teresa Aguiar (Brasil, 2009) por
Filipe Furtado Desde
os créditos iniciais, com depoimentos de jornalistas e historiadores, Topografia
de um Desnudo deixa clara a sua razão de existir: resgatar a história da operação
do governo Carlos Lacerda para tirar os mendigos das ruas do Rio no começo dos
anos 60. Só que a diretora Teresa Aguiar opta um tanto surpreendentemente por
rechear o filme de elementos estranhos para um filme-denúncia, como uma estrutura
narrativa super-elaborada e digressões anti-realistas (que ficam mais claras quando
ela dedica o filme a Jean-Claude Carriére). O filme tropeça especialmente na sua
incapacidade de sugerir o Rio do começo dos anos 60 (as tentativas de estabelecer
o momento se resumem a múltiplos planos da fachada do Copacabana Palace) e nas
tentativas de dar aos assassinatos dos mendigos um grande peso no seu momento
histórico. Sabemos bem das dificuldades de fazer filmes de época com orçamentos
enxutos, e de forma alguma pretendemos diminuir a importância da história que
Aguiar resgata, mas a soma destes dois elementos rouba da “operação mata mendigos”
sua especificidade, e empurra o filme rumo à abstração. Quando o filme termina
com uma seqüência de policia militar espancando manifestantes, como muitas outras
que já vimos, resta pouco de Topografia para além do genérico. Ao fim,
os créditos trazem de volta as entrevistas com especialistas e a despeito das
suas genuínas boas intenções não restam dúvidas de que mais do que resgatar sua
história, Topografia de um Desnudo a vampiriza.
A
Town Called Panic (Panique au village), de Stéphane Aubier e Vincent
Patar (Bélgica, 2009) por Eduardo Valente
Panique
au village é baseado em personagens já explorados por seus diretores
em curtas, e numa série de filmes para a TV. Os dois diretores orgulham-se particularmente
de sua técnica de animação que, se não é exatamente tosca (até porque certamente
depende de muito domínio pra ser concretizada), adora parecer ser, quase como
uma posição política. Panique au village na verdade tem boa parte de seu
charme na junção desta técnica (que usa bonequinhos de brinquedo vintage)
com um universo narrativo marcado pela mais absoluta falta de lógica. O filme
tem uma história, muita ação e relações entre personagens, mas de um jeito absolutamente
particular, que faz pensar quase numa escritura automática, como se a cada idéia
nova equivalesse uma mudança no caminho da narrativa. É esta sensação
quase de "cinema ao vivo" que o filme traz que permite que ele mantenha
certo interesse ao longo da duração, mas é inegável que dá para compreender porque
os personagens, e o seu ambiente, surgiram em filmes de 5 minutos ou menos: provavelmente
é neste formato que eles ainda encontram sua maior força, que se dilui um tanto
na longa duração. editoria@revistacinetica.com.br
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