in loco - cobertura dos festivas

A Família Wolberg (La famille Wolberg),
de Axelle Ropert (França/Bélgica, 2009)
por Eduardo Valente

A família, de novo e como nunca

Dentre todos os subgêneros do cinema contemporâneo, é difícil pensar num que tenha sido mais explorado, especialmente entre os chamados “filmes de festival”, do que o da família disfuncional. Por isso mesmo, ler a sinopse de A Familía Wolberg certamente desanima o espectador – quase na mesma proporção em que, ao final da projeção, nos encontramos entre maravilhados e confusos tentando entender de que forma Axelle Ropert, sem qualquer grande golpe de originalidade (que geralmente resultam forçados) consegue retirar da situação e da sua narrativa uma tal potência, força e sentimento que nos fazem sentir como se estivéssemos vendo pela primeira vez uma história de pais que estão em uma crise no casamento que tem efeito direto nos filhos e outros familiares, expondo as dificuldades de lidar com coisas como os impulsos sexuais, a transmissão pais-filhos, o medo e os efeitos da morte.

Claro que no começo seu filme nos faz pensar em alguns outros que trilharam este caminho, e tememos excessivas influências da linha (ampla) que incorpora elementos de um Wes Anderson ou de um Arnaud Despleschin, os cineastas que mais perto costumam chegar de uma certa condescendência com o humano na questão do “somos cheios de defeitos, mas somos bonitos até por isso”. Também pensamos um pouco em Serge Bozon, cineasta francês do qual Ropert co-escreveu os roteiros, especialmente pelo prazer em usar elementos deslocados, como a música dos anos 60 (aqui apenas canções de soul music). Mas logo vamos deixando de lado estas naturais aproximações, porque Ropert mostra que tem um olhar bastante firme e pessoal (capturado em incrível fotografia scope por Celine Bozon, irmã e fotógrafa do irmão Serge), marcado principalmente por um trabalho de atores de precisão notável e pela capacidade de dar verdade cênica à frase que melhor descreve o filme (“je t’aime, mais tu me fais souffrir”), sem nenhuma gota de auto-comiseração, exploitation ou condescendência. É impressionante como o tom de cada cena parece sempre preciso, a duração idem.

De fato, há no filme de Ropert dois grandes mistérios (aos quais a única resposta possível será sempre “talento”): um, esta capacidade de soar tão único em meio ao tão comum; e outro, que certamente deveria ser estudado pela maior parte dos cineastas presentes no festival deste ano, que é como atingir este resultado em apenas uma hora e quinze de filme. Pois nesta duração, que cada vez mais parece ser a de um curta-metragem num momento em que os filmes de duas horas e meia se tornaram comuns, e os de duas horas e pouco nada mais do que a norma, Ropert constrói um universo familiar cheio de nuances, o qual sentimos habitar da forma mais completa. É claro que ela sabe que, para fazê-lo, importa muito menos que consigamos entender tudo e muito mais que saibamos que existe muito ali que não entenderemos jamais. Mas ambos os caminhos são arriscados: entre a obviedade banal e o hermetismo autista, a fronteira é curta - e poucos filmes na história recente do gênero conseguem traçar um trajeto tão preciso nesta linha.

Maio de 2009

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