in loco - cobertura dos festivas

Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez
(Brasil, 2009)
por Julio Bezerra

Cabeças falantes

Homens de barba e pernas cabeludas dançando e atuando com sapatos de salto alto e roupas femininas. O Dzi Croquettes é um dos grupos de teatro e dança mais originais e subversivos do meio artístico brasileiro. Eram estranhos e originais mesmo naqueles anos 70, em que a ousadia marcava a produção artística nacional como um todo. O filme homônimo dos estreantes Tatiana Issa e Raphael Alvarez resgata a trajetória do grupo.

Dzi Croquettes vem então cumprir um nobre papel. Eu mesmo não conhecia a trupe, embora usasse uma vez ou outra expressões que surgiram deste espetáculo (tiete, por exemplo, eram aqueles que não perdiam um show do grupo). Mas o filme carrega toda a correção e limitação expressiva de um cinema de proposta exclusivamente didática. Este é um documentário de entrevistas: vozes dos poucos sobreviventes; vozes de testemunhas e amigos do grupo; vozes de artistas e outros que legitimam o que é dito a respeito da trupe. O primeiro inicia, o segundo continua e o terceiro completa. Sempre com muitos e reiterados elogios. Vanguarda, liberação, afronta aos costumes, nostalgia, saudade. Quando Dzi Croquettes entram em ação, no palco, em imagens de arquivo, tudo é redimensionado, como se a força de seus integrantes escapasse dos depoimentos.

No entanto, veremos muito pouco deles. Tatiana e Raphael tomam a genialidade do grupo como auto-evidentes. Na telona, o Dzi Croquettes é muito mais "objeto" de mumificação do que "personagem". Além de conduzir a fala do entrevistado, a entrevista enfraquece a interação entre as pessoas filmadas, privilegiando sempre o contato entre entrevistado e cineasta e a ilustração ou comprovação de uma tese ou argumento anterior a esse contato, e revelando uma fé talvez excessiva nos depoimentos. A entrevista como um cacoete, disse Jean-Claude Bernardet. Esse abuso da entrevista como recurso narrativo mascara um problema ainda maior. Os cineastas perdem a voz. Em geral, entrevistas diluem a autoridade. Politicamente, os cineastas renunciam a suas próprias vozes em favor das dos outros. Formalmente, eles trocam as complexidades da narrativa e do discurso pelas aparentes simplicidades da representação respeitosa e da entrevista. Os documentaristas de Dzi Croquettes não parecem preparados para admitir que todo filmar é uma forma de discurso fabricando seus efeitos, impressões e pontos de vista. O que vemos então é uma espécie de zapping ininterrupto. Os documentaristas demonstram uma falta de capacidade de observação: ao longo do filme jamais permaneceremos em um lugar, em uma duração, em uma cena, em um cenário, em uma idéia, em uma motivação. O diálogo, as frases, os corpos, tudo é picotado.

O corte seco rege Dzi Croquettes. Sua montagem nos revela uma vontade de controle que nos é solicitado aceitar, favorecendo uma espécie de cegamento do espectador, encorajado a renunciar a todo e qualquer exame crítico das formas e dos estilos. favorecendo uma espte jco dos Dzi Croquettes em açompletaservaç Tatiana e Raphael ainda introduzem a fórceps uma narração em off em primeira pessoa. Logo saberemos que o pai de Tatiana, o cenógrafo Américo Issa, fazia parte da equipe técnica da trupe e tornou-se amigo dos membros. Embora ainda fosse muito pequena, ela guarda boas lembranças da época em que conviveu com o grupo. Talvez a saudade de Tatiana devesse ter funcionado como o elemento que daria unidade ao longa. Mas a história da trupe parece alheia à de Américo e sua filha. O que se configura não é nem uma espécie de sub-trama. O filme jamais concede tempo nem atenção suficiente para que isso pudesse acontecer. Essa primeira pessoa nunca é uma questão colocada pelo filme. Ela está ali, verbalizada no início e no fim do filme. E é só.

Outubro de 2009

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